Proposta de Lara Resende sobre ‘tabelamento’ dos juros reacende disputa no PT por rumos de Lula 4

Por Estadão · Categoria: Geral ·

A proposta do economista André Lara Resende para um novo regime fiscal e monetário no País, com a redução gradual da taxa básica de juros, reacendeu no PT a disputa sobre os rumos do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli , c

A proposta do economista André Lara Resende para um novo regime fiscal e monetário no País, com a redução gradual da taxa básica de juros, reacendeu no PT a disputa sobre os rumos do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli , coordenador do programa de governo de Lula, se juntou aos que defendem os argumentos de Lara Resende, um dos pais do Plano Real, para sustentar que a situação fiscal é menos dramática do que diz o mercado financeiro. A discussão ocorre às vésperas da reunião do Copom, que começa nesta terça-feira, 3. O resultado desse encontro somente será conhecido na quarta, 4, mas, ao que tudo indica, a tendência do Copom é interromper o ciclo de cortes da Selic, atualmente em 13,75% ao ano, após o mercado reagir com sobressalto à reeleição de Lula. “Felizmente, alguns economistas de fora do governo se manifestaram publicamente pedindo mais progressividade na cobrança de impostos, adoção de novas formas de institucionalidade na relação entre política fiscal e política monetária e, inclusive, a adoção de mecanismos monetários heterodoxos, como o tabelamento de juros”, afirmou Gabrielli ao comemorar o que chamou de “fim do pensamento único” em artigo intitulado “Política fiscal para o fim de 2026 e para 2027″ . Ainda no primeiro turno da eleição, Gabrielli chegou a defender temas que provocaram ruídos com a Faria Lima, como o controle de capitais e a necessidade de mudanças no arcabouço fiscal para ampliar investimentos e gastos sociais. Acusado de “sincericídio” nos bastidores da campanha, o economista foi logo enquadrado pelo governo. Desde então, o ministro da Fazenda, Dario Durigan , assumiu a função de porta-voz do programa econômico de Lula. Com a vitória do presidente sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), porém, Gabrielli voltou a se manifestar, aliando-se ao grupo do PT que defende uma política econômica menos ortodoxa, e promete disputar os rumos do quarto mandato nessa seara. Durigan nega que Lula pretenda tabelar a Selic ou impor limites artificiais aos juros. O chefe da equipe econômica tem dito que o governo vai adotar as “medidas necessárias” para estabilizar a dívida pública, avançando na revisão de despesas obrigatórias, sem prorrogar benefícios fiscais. Em seu artigo, Gabrielli observou que Durigan vem defendendo o aumento do alvo da política fiscal e do piso do resultado primário para o centro da meta. “Na política de contingenciamento, ”piso” e “centro” se referem à meta de resultado primário, não à meta de inflação. Se os investimentos responderem crescendo, tudo bem. Se isso não ocorrer, poderemos ter contração da atividade econômica”, destacou. O diagnóstico do ex-presidente da Petrobras coincide com o de Lara Resende, que propõe um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com o objetivo de definir metas para um período de quatro a cinco anos à frente. “O grande temor do mercado financeiro é o crescimento da razão dívida/PIB e a solução proposta é o aumento do superávit primário”. destacou Gabrielli. “Quero aqui chamar a atenção para o irrealismo dessa proposta, se os juros continuarem elevados. A dívida bruta do governo central, em agosto de 2026, era de R$ 11 trilhões, correspondendo a quase 83% do PIB, mas a dívida líquida era de 69,3% do PIB, nível dentro dos padrões internacionais de países do tamanho do Brasil”. Lula ficou irritado com as especulações de que terá de fazer forte ajuste fiscal para evitar uma hecatombe nas contas públicas. “Não acredite nos mentirosos de sempre, que vivem tentando vender desgraça e infelicidade para o nosso povo”, disse ele em vídeo postado neste domingo, 1, nas redes sociais. Embora o presidente esteja ouvindo vários interlocutores de fora da equipe sobre economia, integrantes do governo negaram que ele vá se encontrar, nos próximos dias, com Lara Resende. “Membros do governo já disseram que não tem nada disso. E se tivesse, qual é o problema?”, questionou a ex-ministra Gleisi Hoffmann nas redes sociais. “(...) Parece normal que o presidente Lula chame para conversar gente que não está tão comprometida com essa Faria Lima (...). Isso não quer dizer que ele pretenda adotar as propostas”, completou Gleisi, para quem o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo , deixa a desejar. O presidente do PT, Edinho Silva , afirmou, por sua vez, que o único que fala em nome do governo, na política econômica, é Dario Durigan. “As especulações na área econômica não colaboram com o país, e só fazem o jogo dos especuladores e dos oportunistas do mercado, aqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país”, destacou Edinho, deputado federal eleito. Um dos nomes cotados para a sucessão de Durigan na Fazenda, o governador do Piauí, Rafael Fonteles , disse ao Estadão que Lula promoverá o equilíbrio fiscal com corte de privilégios e desperdícios, não com tesourada nos programas sociais. “Tudo o que foi proposto foi conversado com a equipe econômica. Não foi nada de supetão”, garantiu Fonteles. “Portanto, programas como Pé-de-Meia Universitário, Tarifa Zero aos fins semana, com base em emendas parlamentares de bancada, e Prospera MEI são medidas exequíveis dentro do arcabouço fiscal para os quatro anos”.