Por que o Brasil pode ser a válvula de escape à rejeição dos EUA a projetos de data centers

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Com comunidades em todos os Estados Unidos rejeitando data centers , cresce a pressão política para limitar sua construção. Mas, a milhares de quilômetros de distância, o maior país da América do Sul já é um dos principais mercados de IA e está facilitando sua expansão. Os brasileiros enviam 215 mil

Com comunidades em todos os Estados Unidos rejeitando data centers , cresce a pressão política para limitar sua construção. Mas, a milhares de quilômetros de distância, o maior país da América do Sul já é um dos principais mercados de IA e está facilitando sua expansão. Os brasileiros enviam 215 milhões de mensagens ao ChatGPT por dia, segundo a OpenAI, o que torna o país o terceiro maior mercado do criador do chatbot em número de usuários semanais, atrás dos Estados Unidos e da Índia. O Google disse que planeja dobrar sua infraestrutura de nuvem no país até 2030 em resposta à crescente demanda ,e chegou a assinar um acordo de patrocínio com a Confederação Brasileira de Futebol em março para integrar o Gemini às seleções nacionais masculinas, femininas e de base. Outras gigantes da tecnologia também estão investindo. A Amazon Web Services gastou mais de US$ 3,8 bilhões em infraestrutura de data centers no País desde 2011 e se comprometeu a investir outro US$ 1,8 bilhão até 2034, enquanto a Microsoft destinou US$ 2,7 bilhões à infraestrutura de nuvem e IA ao longo de três anos. A demanda local, e não a transferência de operações de empresas americanas para o exterior, impulsionou grande parte do crescimento dos data centers na América Latina. Mas Carlos Barrera, CEO da Atlas Renewable Energy, acredita que isso pode mudar. “De fato, vemos a região como uma válvula de escape atraente para algumas das restrições de capacidade que vocês estão vendo agora nos Estados Unidos”, disse. Com uma população de quase 215 milhões de pessoas distribuídas por uma área maior do que a dos 48 Estados contíguos dos Estados Unidos, o Brasil faz sentido como um país a ser cortejado pelas empresas de hiperescala. Sua oferta de eletricidade também é um grande atrativo e custa menos da metade do que nos Estados Unidos. Segundo um relatório do Ministério de Minas e Energia, o País gera quase 87% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis, e o rápido crescimento da energia eólica e solar também levou a um excedente. “A reação negativa nos Estados Unidos não está tanto expulsando as empresas de hiperescala do país, mas direcionando-as para onde a energia estiver disponível primeiro”, disse à Fortune James Mercer, diretor da Metro Colo Advisory, empresa de consultoria em data centers. Mas a eletricidade barata do Brasil também pode ficar mais cara. Barrera disse que o Brasil precisará de mais linhas de transmissão para conectar grandes data centers à rede elétrica, e que autoridades do governo estão divididas sobre a possibilidade de as contas de luz aumentarem ou não. Outro obstáculo ao crescimento da IA no Brasil é o sistema tributário. Os altos impostos federais de importação tornavam mais caro construir grandes data centers no País em comparação com outros países da região. Para resolver isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei em 15 de setembro que reduz os impostos sobre equipamentos de data centers que atendam certos requisitos. Isso contrasta com propostas de alguns parlamentares americanos para taxar o consumo de eletricidade e a produção dos data centers. “Se o Brasil quisesse ser um ator relevante no setor de data centers, precisava fazer essa mudança na legislação tributária”, disse à Fortune Christopher Torto, CEO da Ascenty, a maior provedora de serviços de data centers e conectividade da América Latina. Soberania de dados O governo Lula espera que a isenção fiscal, ao trazer mais capacidade computacional para o País, ajude as empresas brasileiras a desenvolver produtos de IA e a depender menos de serviços estrangeiros. Atualmente, 60% dos dados digitais brasileiros são processados no exterior, segundo o Ministério do Desenvolvimento brasileiro. De acordo com a legislação, chamada Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), as empresas devem oferecer pelo menos 10% de seus serviços computacionais elegíveis a clientes brasileiros e investir 2% do valor dos equipamentos beneficiados pela isenção fiscal em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. “O objetivo é melhorar a soberania de dados do Brasil, para que não dependamos tanto de serviços estrangeiros, especialmente nesse momento com Trump”, disse à Fortune Ana Carolina de Assis Nunes, antropóloga brasileira e pesquisadora de data centers no instituto de políticas públicas sem fins lucrativos Data & Society. Nunes destacou que o Brasil quer depender menos da tecnologia estrangeira, mas está concedendo incentivos fiscais às mesmas empresas que dominam o setor. Torto admitiu que é improvável que o Brasil desenvolva seu próprio Google ou Microsoft. Ainda assim, ter data centers locais no país poderia melhorar a latência e manter mais dados no território nacional. “Não se trata apenas dos modelos ou dos próprios data centers; tudo o que gira em torno deles será, de fato, o maior investimento no longo prazo”, disse ele. Potencial de reação negativa Embora o Brasil não tenha visto a mesma escala de reação negativa aos data centers que os Estados Unidos, alguma resistência surgiu. Dias antes de o Redata se tornar lei, procuradores federais brasileiros recorreram à Justiça contra um projeto de data center ligado ao TikTok . Eles queriam um estudo de impacto ambiental e uma consulta ao povo indígena Anacé antes de o data center entrar em operação. Nunes disse que a oposição aos data centers no Brasil não é tão politicamente unida quanto nos Estados Unidos, onde eles têm recebido críticas tanto da esquerda quanto da direita. Ela afirmou que o investimento estrangeiro ainda carrega prestígio em algumas partes do Brasil, especialmente entre pessoas que o veem como uma oportunidade de ingressar na economia global. “Para pessoas tão marginalizadas e afastadas dos sistemas globais, é como se fosse: ‘Ah, o Google está vindo para cá, que ótimo’”, disse ela. Ao crescer em Goiânia, no Brasil central, Nunes morava perto de uma fábrica da Unilever que produzia extrato de tomate. Ela se lembrou de como sua mãe tinha orgulho da ligação com uma empresa global, mesmo enquanto outras pessoas se preocupavam com o uso de recursos locais pela fábrica. “Parecia que fazíamos parte de algo grande porque morávamos perto daquela empresa”, disse Nunes. Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.