Por que os economistas veem riscos na proposta de André Lara Resende para reduzir os juros?

Por Estadão · Categoria: Geral ·

As propostas apresentadas pelo economista André Lara Resende para reduzir os juros da economia brasileira turvaram ainda mais o cenário econômico do quarto mandato do presidente Lula . Os analistas consultados pelo Estadão afirmam que é arriscado flertar com as ideias de Lara Resende e apontam que e

As propostas apresentadas pelo economista André Lara Resende para reduzir os juros da economia brasileira turvaram ainda mais o cenário econômico do quarto mandato do presidente Lula . Os analistas consultados pelo Estadão afirmam que é arriscado flertar com as ideias de Lara Resende e apontam que elas poderiam levar o Brasil a uma crise. Em um texto publicado em 25 de setembro, chamado Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos , André Lara Resende disse que a “redução do juro básico é a solução do desequilíbrio fiscal”. Em seu artigo, ele defendeu, entre outras coisas, a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), cujo objetivo seria definir as “metas fiscais e monetárias para um período de quatro a cinco anos à frente”. Pela proposta, as metas de inflação seriam anunciadas junto com as metas para a taxa básica de juros. Segundo o economista, o Banco Central teria de manter a taxa básica de juros em um limite que seria a soma da meta de inflação, atualmente em 3%, com o crescimento potencial da economia, estimado em 2,5%. Ou seja, o limite, nesse caso, seria de 5,5%. A defesa de Lara Resende é a de que, inicialmente, o BC reduza a taxa básica de juros de forma gradual para 7,5% ao ano num prazo de 12 meses. Haveria assim “um spread transitório de segurança de 2%”, afirma. Esse spread seria “periodicamente reavaliado e gradualmente reduzido até ser eliminado”, segundo o economista. “Ele defende a criação de um Conselho Fiscal Monetário. Como ele atuará? Quando ele intervirá se a inflação fugir do controle? E o Banco Central, quais seriam as suas funções?”, afirma Alexandre Espírito Santo, economista da Way Investimentos e professor da ESPM. “São muitas dúvidas. Acho muito arriscado flertar com essas teorias.” Lara Resende é um dos pais do Plano Real e foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele se aproximou de Lula na campanha presidencial de 2022 . Atualmente, o Banco Central possui autonomia para operar a política monetária - ou seja, definir a trajetórias de juros - de forma independente e tem como um dos objetivos trazer a inflação para a meta, que é de 3%. Hoje, a taxa básica de juros está em 13,75% ao ano. O Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia nesta quarta-feira, 4, se vai continuar com o ciclo de corte de juros. Antes da vitória de Lula na eleição presidencial deste ano, a aposta era de uma redução de 0,25 ponto porcentual, mas a reeleição do petista levou boa parte do mercado a rever a possibilidade de queda, diante da incerteza fiscal em relação ao novo mandato. O que boa parte dos economistas defende é que o governo só vai conseguir reduzir os juros de forma sustentável se apresentar uma solução crível para as contas públicas, capaz de estancar o crescimento da dívida brasileira ao longo dos próximos anos. O endividamento do Brasil é considerado alto para uma economia emergente e é uma das principais fontes de incerteza macroeconômica atualmente. “Espero que esse balão de ensaio seja apenas isso mesmo: ideias que não se concretizem. Forçar queda de juros ao longo do tempo vai apenas levar ao aumento do risco e mais depreciação cambial. Estamos num momento de baixa capacidade ociosa, situação fiscal futura de deterioração - não é apenas a situação atual - e juros americanos elevados. Estamos numa situação totalmente diferente de 2019 quando a Selic chegou a 6,5% com bases mais realistas”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Lara Resende também afirma que o Banco Central poderia usar as reservas cambiais para atuar no câmbio caso a nova política leve a uma depreciação acentuada da moeda. A ideia seria suavizar uma eventual pressão sobre o real provocada pela redução dos juros. “A segunda perna dessa ideia é evitar uma explosão do câmbio com venda de reservas, mas isso seria uma enorme temeridade, porque as reservas representam a principal barreira que o País possui para evitar o contágio de crises internacionais”, diz Silvio Campos Neto, economista e sócio da consultoria Tendências. Como resultado de sua proposta, Lara Resende diz que haveria uma economia fiscal de 4% do PIB, com a redução do déficit nominal de 10% para 6%, o que, segundo ele, restabeleceria “a credibilidade fiscal de longo prazo”. A economia viria da redução do custo médio da dívida pública, ajudada pela queda dos juros. “Forçar uma queda da Selic nesse contexto vai piorar a expectativa de inflação e de câmbio e gerar uma recessão importante. Não tem mágica”, afirma Vale. “[O governo] vai criar um mini-2015 se for por esse lado e trará riscos desnecessários. Se continuar por aí, ficará claro que o governo não tem entendimento dos riscos fiscais que temos. Não estamos em condições agora de replicar totalmente o cenário que tivemos em 2019, mais uma razão para termos mais cuidado ainda com a política fiscal.” Equipe econômica nega as ideias de Lara Resende A equipe econômica nega que as ideias de Lara Resende possam ter repercussão dentro do governo. No domingo, 31, circulou a notícia de que Lara Resende e o presidente Lula teriam um encontro nesta semana. O ministro da Fazenda, Dario Durigan , porém, negou a reunião. “Propostas como tabelar os juros ou queimar reservas cambiais não estão em avaliação”, afirmou Durigan. “Vários economistas estão se colocando à disposição para dialogar com o presidente, mas não há nada agendado. Não há agenda com o presidente Lula e o economista André Lara Resende.” O tema, no entanto, reverberou entre políticos do PT, que têm se colocado contra o atual patamar da taxa básica de juros . No domingo, no X, a deputada federal Gleisi Hoffmann disse que o artigo de Lara Resende é “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira.” Já o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) criticou mudança nas projeções dos analistas para a taxa básica de juros após o segundo turno das eleições. Em postagem na rede social X, o parlamentar afirmou que “estão fazendo política e sabotando a nossa economia” e que a taxa Selic não deve ser decidida pelo “humor do mercado financeiro”.