‘O Gatola da Cartola’ transforma clássico em aventura para divertir e emocionar pais e filhos

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Quando o comediante americano Bill Hader era membro do elenco do Saturday Night Live (SNL), o mais famoso programa de comédia dos Estados Unidos, ele protagonizou uma esquete em que interpretava uma versão adulta e melancólica do Gatola na Cartola, o personagem icônico de Dr. Seuss que é praticament

Quando o comediante americano Bill Hader era membro do elenco do Saturday Night Live (SNL), o mais famoso programa de comédia dos Estados Unidos, ele protagonizou uma esquete em que interpretava uma versão adulta e melancólica do Gatola na Cartola, o personagem icônico de Dr. Seuss que é praticamente sinônimo de literatura infantil para os americanos. Aquela esquete se tornaria um dos momentos mais memoráveis da participação de Hader no seriado, consolidando-o como um dos grandes nomes da comédia americana. Parece obra do destino, ou apenas uma bela coincidência, que seja ele a assumir a voz do gato em O Gatola da Cartola , o primeiro longa-metragem animado do personagem, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 5 de novembro. “É a primeira coisa que você lê quando está crescendo nos Estados Unidos. A primeira coisa que seus pais e avós liam para você quando era criança na hora de dormir”, lembra ele. “Eu cresci assim e, mais tarde na vida, quando tive meus próprios filhos, eu lia para eles. É muito importante na cultura americana.” Mesmo que não comparável à dos EUA, o Gatola também tem projeção grande no Brasil. O livro de Dr. Seuss é publicado pela Companhia das Letrinhas e frequentemente usado como material escolar. Um filme em live-action de 2003 estrelado por Mike Myers também ajudou a popularizar o personagem por aqui, além da série animada O Gatola da Cartola Tem de Tudo na Cachola! , exibida no início dos anos 2010 na TV fechada. Para Hader, contudo, o filme é o que terá a maior chance de levar o personagem a novas gerações, unindo famílias nas salas de cinema. “Sei que, no caso dos meus filhos, a gente os leva ao cinema e eles não gostam quando acham que o filme os trata como se fossem crianças pequenas. Não acho que esse filme faça isso”, explica. “Levei minha filha e as amigas dela a uma exibição. Todo mundo estava rindo, as crianças e os pais.” A trama do filme busca inspiração na história original de Dr. Seuss, mas a amplia. Prestes a ser demitido por fazer muita bagunça em suas missões de animar as crianças, o Gatola rouba um relógio capaz de voltar no tempo e desfazer suas bagunças. Acontece que isso também solta um monstro que perseguirá ele e duas crianças durante sua possível última missão. Sua próxima cliente é Gabby, uma menina que acabou de se mudar, deixando a antiga cidade e amigos para trás. Por isso, encontra-se desanimada, magoada com a mãe e sem vontade de brincar com o irmão mais novo, Sebastian. A chegada do Gatola os leva em uma aventura por dentro das caixas de mudança, dando vida a brinquedos antigos, resgatando memórias e levando a descobertas inesperadas sobre a mãe das crianças. Além de Hader, o elenco de voz original conta com grandes nomes de Hollywood, como Quinta Brunson ( Abbott Elementary ), America Ferrera ( Barbie ), Bowen Yang ( Wicked ) e Giancarlo Esposito ( Breaking Bad ). Na versão brasileira, é o comediante Marco Luque que dá voz ao gato; Thati Lopes vive Carmem, a mãe das crianças. Filme mais engraçado e mais maduro. E cheio de energia “Queríamos voltar ao livro e usá-lo para realmente nos inspirar e contar a história do nosso filme. Queríamos perguntar: ok, o gato aparece na casa dessa criança num dia chuvoso. Ele proporciona momentos maravilhosos para ela. Ele faz uma bagunça. Eles se divertem muito. Ficam tão felizes depois que ele vai embora. Bom, para onde o gato vai depois disso? Foi isso que usamos para dar início à nossa história”, explica Erica Rivinoja , que escreveu e dirigiu a animação ao lado de Alessandro Carlon . Cineastas experientes em animações, eles juntaram forças para dar vida ao Gatola e afirmam que a parceria ajudou não só a tornar o filme mais engraçado, mas também mais maduro. “O maior erro que você pode cometer ao fazer um filme de animação é simplificá-lo demais só porque é destinado a crianças. Essa é a abordagem mais idiota que você pode adotar. É só fazer um filme para você mesmo, para seus amigos e sua família, e divirta-se”, afirma Carlon. É à dupla que Hader credita boa parte da construção de seu Gatola, um personagem que já passou pelas mãos de comediantes icônicos como o já citado Mike Myers e o premiado Martin Short. Ele diz que a voz do gato não é tão distante da sua, mas que a direção de Carlon e Erica ajudou a modular o tom correto para cada cena, conforme as necessidades emocionais ou cômicas do personagem. “Fizemos uma análise cuidadosa e pensamos em muitos outros nomes e muitos outros atores em potencial para interpretar esse papel. Mas a verdade é que Bill é, sem dúvida, um dos atores mais engraçados que existem”, diz o diretor. Ele completa dizendo, contudo, que foi a capacidade de dar profundidade ao personagem que realmente pesou a favor do ator. “Durante grande parte do filme, dá para pensar que o cara de chapéu é apenas um palhaço e um bufão. Mas há mais nele do que aparenta. Há momentos de sinceridade logo abaixo da superfície, um momento de profundidade que revela que esse cara não é apenas um palhaço. Na verdade, ele é um brilhante psicólogo infantil, capaz de dar às crianças exatamente o que elas precisam. Bill é um ator brilhante e já provou isso”, explica Carlon. O trabalho de Hader que prova esse alcance emocional é Barry , série da HBO em que ele interpretou por quatro temporadas um matador de aluguel com depressão. O ator diz ter ficado impressionado com a profundidade emocional de O Gatola na Cartola : “A história original era tipo um conto de fadas, um pequeno episódio, mas eles fizeram um ótimo trabalho ao transformá-la em uma história completa.” Os primeiros cinco minutos do longa são frenéticos e muito coloridos. A edição também é muito rápida e dá pouco descanso ao espectador - talvez uma forma de prender a atenção de crianças já tão acostumadas com a tela, admite Hader. Mas ele também afirma que, por ser um filme infantil de um personagem tão dinâmico como o Gatola, “a gente meio que quer que seja divertido e cheio de energia”. Para Erica, o filme tem muito potencial para conquistar mesmo as crianças mais acostumadas com a tecnologia. “A razão pela qual [o Gatola] é tão icônico é que todo mundo já ficou em casa entediado num dia chuvoso, quando simplesmente não há nada para fazer. Ele nos lembra que, na verdade, podemos criar nossa própria diversão. Mesmo que você não tenha seu iPad ou não esteja com seu melhor amigo, você é responsável por simplesmente estar presente, aproveitando o momento em que está”, diz. A diretora diz que personagem lembra que “está tudo bem ser criança e fazer bagunça, que está tudo bem ser adulto e fazer bagunça”. Afirma ainda que sua versão do gato é alguém que se define pelo quanto ama o que faz. “Ele é um personagem verdadeiramente sincero e entusiasmado. E, à medida que começamos a criá-lo e a imaginá-lo assim, rapidamente nos apaixonamos por ele. E nos sentíamos orgulhosos de pedir ao público que passasse uma hora e meia com ele”, completa.