‘O cara da virada’: vitórias de Camilo Santana abrem caminho rumo à Casa Civil
BRASÍLIA – Se fosse um time de futebol, o senador e ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT-CE) moveria torcidas à espera do gol da vitória no último minuto. Em apenas dois anos, o “cara da virada”, como é chamado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva , acumulou três vitórias expressivas e ch
BRASÍLIA – Se fosse um time de futebol, o senador e ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT-CE) moveria torcidas à espera do gol da vitória no último minuto. Em apenas dois anos, o “cara da virada”, como é chamado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva , acumulou três vitórias expressivas e chega ao quarto mandato do líder petista com uma relevância dentro do grupo político que o projeta para um dos postos mais poderosos do governo: a Casa Civil . No Ceará, seu Estado, ele fez o que Lula chamou de “barba, cabelo e bigode”. O governador Elmano de Freitas (PT) foi reeleito e as duas vagas ao Senado ficaram com Cid Gomes (PSB-CE) e Luizianne Lins (Rede-CE). Elmano havia começado a corrida eleitoral atrás do candidato do PSDB, Ciro Gomes , e acabou vencendo a disputa no primeiro turno, com 53,19% dos votos. Nas eleições municipais de 2024, o então candidato a prefeito de Fortaleza Evandro Leitão (PT) estava desacreditado, mas venceu André Fernandes (PL), que tinha o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro . Agora, o próprio presidente Lula venceu de virada no segundo turno da eleição presidencial. Em todos os casos, um elemento em comum: Camilo Santana entrou em campo e ajudou a mudar o placar. Como mostrou o Estadão , o presidente prepara uma mudança na “cozinha” do governo e Camilo é o principal cotado para ser o “capitão do time” . Neste ano, depois do resultado no Ceará, o senador desembarcou em Brasília e se tornou a principal cara da campanha do presidente no dia a dia, em conversas com jornalistas, anúncios e definição de estratégias do time petista, em busca da vitória. Ostentando pulseirinhas de “Padim Ciço” no braço esquerdo, cujo pedido pela eleição de Elmano no Ceará já havia sido atendido, o senador chegou na campanha de Lula, no segundo turno, com a intenção de “dar uma animada”. Foi assim que mudou os comandos regionais por candidatos que tinham saído vitoriosos no primeiro turno. Ao tirar da linha de frente o desânimo dos derrotados, o ex-ministro foi aos poucos contribuindo para devolver o vigor aos aliados. A marca da atuação do senador, que foi governador do Ceará duas vezes (eleito em 2014 e reconduzido em 2018), ficou evidente na guinada da campanha presidencial depois do baque na primeira etapa da disputa. Após Lula terminar atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL), a campanha apática do presidente deu lugar a peças que tentaram desconstruir o adversário. A aliados, Camilo atribuiu parte dos maus resultados no primeiro turno a uma artilharia falha, que demorou a atingir o oponente com o histórico do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro . Com a chegada de Camilo na liderança da campanha nacional, o time Lula passou a focar em fragilidades de Flávio, como sua relação com integrantes de milícias e o fato de ter advogado por um policial acusado de matar uma criança de cinco anos, além de investir no discurso de que o filho de Bolsonaro desmontaria benefícios sociais e promoveria cortes. A mudança de posição carrega as digitais do senador e foi importada da estratégia aplicada – e bem-sucedida – nas duas viradas no Ceará. “Camilo teve um papel muito importante, sim. Ele e Rafael (Fonteles) , especialmente, ajudaram muito a campanha no segundo turno. E também temos de reconhecer o que Janones fez”, disse Gilberto Carvalho , ex-secretário de Economia Popular que integrou a coordenação da campanha de Lula. Enquanto o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o deputado federal André Janones (Rede-MG) orientaram a mudança nas redes sociais, com a gravação de vídeos em formato de “selfie” e ações coordenadas pelo canal “Exército do Lula”, Camilo dominava o núcleo estratégico e político. Dentro da campanha, sob a condição de reserva, estrategistas afirmam que com Camilo foi sentida a presença da articulação política, o que, dizem eles, o deputado federal eleito Edinho Silva , coordenador-geral, nunca fez. Edinho foi alvo de críticas por, na opinião de aliados, centralizar as decisões e tirar a liberdade dos diretórios em definir estratégias nos Estados. Um dos resultados disso, segundo críticos, foi a falta de materiais de campanha de Lula para distribuição a eleitores durante a primeira parte da disputa. Apoio à redução da maioridade penal foi jogada ousada A atuação política de Camilo Santana ficou evidente em movimentações legislativas importantes, na tentativa de pautar a campanha eleitoral. Depois do primeiro turno, o senador se aproximou ainda mais de Lula, com encontros diários. A estratégia de mudar de posição sobre a redução da maioridade penal, por exemplo, foi um dos temas sensíveis que vieram para o discurso de Lula pelas mãos de Camilo. Enquanto o plenário do Senado discutia o fim da escala 6x1, pauta prioritária do governo, na quarta-feira, 14 de outubro, Camilo se reunia com o presidente e tratava, entre outros temas, da redução da maioridade. A jogada ousada do senador pegou de surpresa colegas de bancada e acabou rachando o PT, provocando antipatia de correligionários que viram na medida um exemplo de sua “imaturidade política” e “falta de vivência nacional”. Para alguns, a mudança de discurso ficou parecendo “desespero de campanha”. No núcleo próximo do senador, no entanto, a leitura foi outra: a visão era de que parte do PT continuava descolada dos anseios do eleitorado brasileiro. Uma semana depois, Camilo apresentava um novo projeto de lei, em mais um movimento político relacionado a um tema da eleição. Batizado de “Lei Ana Clara”, o projeto tem o objetivo de proibir que integrantes do Legislativo, em diferentes esferas, atuem como advogados em processos judiciais de crimes contra a vida. O nome do projeto faz alusão ao caso da menina de 5 anos, assassinada a tiros de fuzil. Flávio Bolsonaro vinha sendo cobrado pela campanha de Lula por ter atuado, em 2024, na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de ser o autor do crime. Como ministro da Educação durante a maior parte do terceiro governo Lula, Camilo construiu seu tecido de relações com o Congresso Nacional. Entre aliados de centro e do Centrão, o senador é descrito como “atencioso, gentil e diligente”. “Foram várias as oportunidades em que eu fui demandar em nome dos interesses do meu Estado, a Paraíba, e sempre fui muito bem acolhido por ele. Ele tem sido muito atencioso e diligente, mudou os rumos da campanha”, afirmou o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB). As recentes vitórias eleitorais e o bom trânsito com o Centrão estão entre os componentes que inflam o nome de Camilo na bolsa de apostas para ocupar a Casa Civil no quarto mandato de Lula. A possível ascensão a esse cargo também pavimenta o caminho do senador como um dos possíveis herdeiros políticos do presidente. Embora evite se colocar como sucessor de Lula, Camilo ganha mais força a cada nova vitória. Mas, mesmo tido em alta conta por Lula, dentro do PT ele ainda tem um caminho a percorrer e espaços a disputar.