O que Lula tem de fazer para não virar ‘professor de Deus’
Era março de 2021. O Supremo Tribunal Federal havia acabado de anular as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva na 13.ª Vara Criminal de Curitiba quando Ciro Gomes , diante da possibilidade de o petista ser candidato à Presidência em 2022, afirmou: “Não contem comigo para esse circo”. Lula reagiu:
Era março de 2021. O Supremo Tribunal Federal havia acabado de anular as condenações de Luiz Inácio Lula da Silva na 13.ª Vara Criminal de Curitiba quando Ciro Gomes , diante da possibilidade de o petista ser candidato à Presidência em 2022, afirmou: “Não contem comigo para esse circo”. Lula reagiu: “Ciro acha que é professor de Deus”. O petista reclamava do que considerava ser a ausência de humildade no tucano. Na semana passada, diante da repercussão mundial da vitória sobre Flávio Bolsonaro , o entorno de Lula foi tomado pelo temor inconfesso de que o petista caía na tentação de assumir o papel que viu no ex-ministro de seu primeiro mandato, aquele mesmo em que Lula entregou o Banco Central a Henrique Meirelles e contava com Marcos Lisboa como secretário de Política Econômica. Afinal, quem Lula ouvirá em seu quarto mandato para decidir os rumos da economia? André Lara Resende ? Quem formulará a política de combate ao crime organizado? Com quem e para quem o petista pretende governar? A vitória tem um efeito mágico, contou Ernst Jünger , em Tempestades de Aço. Veterano das tropas de assalto alemãs que combateram na 1.ª Guerra Mundial, o escritor descreveu esse efeito: “Ainda que há muito não fosse possível falar em formações regulares que se pudessem comandar, só existia para cada um dos homens uma única direção: avante!” Quando tudo parecia perdido, Janja da Silva levou para o núcleo da campanha o deputado federal André Janones e, quase por mágica, um exército brotou nos celulares e mobilizou as ruas do País... O problema começa no dia seguinte à vitória, quando tudo parece simples para os vitoriosos, como a criação de um grupo de WhatsApp. Mas a história, escreveu o poeta Eugenio Montale , “não se desata como uma corrente de anéis ininterruptos”. E a vida de Lula, com suas reviravoltas, é prova disso. Lula deve ter ciência de que as forças que o elegeram vão além das que se manifestam por meio de Gleisi Hoffmann . Ou como disse o ex-ministro José Dirceu ao jornal O Globo : “O presidente tem uma oportunidade histórica de chamar o País a um pacto político. O Brasil precisa de reformas, que precisam ser pactuadas: tributária, financeira, política e do Judiciário.” De fato, o que é a política senão, como disse Max Weber , “um esforço tenaz e enérgico para atravessar grossas vigas de madeira.? Weber expôs a síntese entre convicção e responsabilidade: “É perfeitamente exato dizer – e a experiência histórica o confirma – que não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o impossível”. Tinha razão. Desde que os governantes não se metam no papel de professor de Deus.