Equipe econômica de Lula não deveria interpretar reação do mercado como pessoal ou especulativa
A reação do mercado ao resultado do pleito tem gerado diversas críticas, sobretudo entre os defensores do governo. Os efeitos sobre os preços das ações, a taxa de câmbio e a curva de juros foram, de fato, muito relevantes: no primeiro pregão após o segundo turno, a B3 acionou o circuit breaker pela
A reação do mercado ao resultado do pleito tem gerado diversas críticas, sobretudo entre os defensores do governo. Os efeitos sobre os preços das ações, a taxa de câmbio e a curva de juros foram, de fato, muito relevantes: no primeiro pregão após o segundo turno, a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde a pandemia, pois o Ibovespa caiu 13,88% e fechou aos 176.608 pontos, a maior queda porcentual desde 2020. O dólar subiu 8,36% , para R$ 5,41, a maior alta diária em mais de duas décadas, e os contratos de juros futuros com vencimento em 2031 avançaram cerca de 250 pontos-base. Números dessa magnitude podem gerar leituras apressadas, como se os agentes de mercado estivessem apostando “contra” o governo, ou como se houvesse uma espécie de “chantagem” ou histeria especulativa. Contudo, esse tipo de análise desconsidera que o preço de um ativo não reflete uma opinião política, e sim informações processadas pelos agentes. De forma simplificada, o preço nada mais é do que a síntese, em dado momento e continuamente atualizada, das expectativas de milhares de agentes (humanos ou artificiais) sobre os fluxos de caixa futuros e os riscos associados a esses fluxos. Não por acaso, costuma-se dizer que os preços possuem “conteúdo informacional”: o preço antecede os fatos ( price leads earnings ). Nesse contexto, a equipe econômica do presidente Lula não deveria interpretar a reação dos agentes de mercado como algo pessoal ou ataque especulativo. Analisar friamente a mensagem implícita nos preços não significa “curvar-se” ao mercado. Ao contrário, compreender o recado presente na precificação pode inclusive auxiliar o governo a enfrentar os desafios à frente. Independentemente de opiniões políticas, o fato é que a curva de juros futuros precifica taxas nominais acima de 14%, e os títulos indexados à inflação voltaram a pagar juros reais próximos de 8% ao ano. Se os problemas econômicos do Brasil não forem endereçados, haverá pouco investimento no País, porque a rentabilidade esperada não será suficiente para remunerar o custo de capital, com reflexos diretos na geração de emprego e renda. O governo eleito tem as ferramentas para recuperar a credibilidade perante o mercado, devendo apresentar propostas concretas para enfrentar os desafios econômicos, incluindo a trajetória da dívida pública, o ajuste fiscal e o endividamento das famílias e das empresas. Os agentes aguardam essas sinalizações para revisar suas expectativas. Sem elas, infelizmente, os preços tendem a se deteriorar ainda mais.