Heterodoxia ao gosto do PT

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Um artigo publicado pelo economista André Lara Resende no final de setembro provocou apreensão no mercado financeiro nos últimos dias, pelo temor de que ele possa ter influência na definição dos rumos do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Conhecido por ter sido um dos formulador

Um artigo publicado pelo economista André Lara Resende no final de setembro provocou apreensão no mercado financeiro nos últimos dias, pelo temor de que ele possa ter influência na definição dos rumos do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Conhecido por ter sido um dos formuladores de planos econômicos como o desastroso Cruzado, em 1986, e o bem-sucedido Real, em 1994, Lara Resende se tornou, nos últimos anos, um dos principais críticos da ortodoxia macroeconômica e das altas taxas de juros da economia brasileira, o que soa como música aos ouvidos de alguns membros do governo e do grosso da militância do PT. Suas ideias não são novas, mas nem por isso causam menos barulho. O primeiro artigo que Lara Resende escreveu sobre o tema, Juros e Conservadorismo Intelectual , foi publicado no jornal Valor em 2017. Claramente inspirado no trabalho acadêmico do professor John H. Cochrane, da Universidade Stanford, ele colocou em xeque a relação entre juros altos e inflação baixa após a crise financeira mundial de 2008. Se a tese já era questionável à época, ela se tornou ainda mais controversa após a pandemia de covid-19, quando a inflação e os juros passaram a ser um problema nas economias desenvolvidas. Nada disso teria importância fora da academia, não fosse o boato de que Lara Resende estaria prestes a ser recebido por Lula nesta semana em Brasília. O contexto não poderia ser pior. A despeito dos apelos de sua equipe econômica nos últimos meses, o presidente se recusou a assumir publicamente um compromisso com a responsabilidade fiscal, classificou de “babaquice” a busca por superávits primários e disse não estar preocupado com a dívida pública, embora ela tenha aumentado 11 pontos porcentuais desde o início de seu terceiro mandato. Parece, e muito, com o discurso de Lara Resende, para quem “o cerne do problema fiscal está no serviço da dívida” e “todo o resto é secundário”. A essa resistência atávica de Lula a um ajuste fiscal soma-se o silêncio que ele tem mantido desde a vitória eleitoral obtida no dia 25 de outubro. Nem mesmo o tombo da Bolsa e a disparada do dólar e da curva de juros futuros fizeram com que o presidente se manifestasse ou nomeasse seu novo ministro da Fazenda, o que só alimentou boatos sobre seus planos para o quarto e derradeiro mandato. Não é segredo para ninguém que Lula está incomodado com a Selic. Logo, não se pode condenar quem imagine que ele esteja disposto a sandices para entregar o que ele promete ser o “melhor” de seus quatro governos – nem que para isso seja necessário cortar os juros na marra e queimar reservas internacionais para conter a subsequente desvalorização do real ante o dólar, como propõe Lara Resende. De nada adianta o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o presidente do PT, Edinho Silva, descartarem a adoção desse tipo de medida, enquanto membros bem mais ilustres, do partido e do governo, o defendem. É o caso da deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) e de José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula na campanha à reeleição e ex-presidente da Petrobras, bem como dos ministros de Relações Institucionais, José Guimarães, e da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos. Em meio a tanta instabilidade, Lula parece ainda não ter compreendido que não pode se dar ao luxo de repetir os mesmos erros que cometeu em 2022. É por causa da gastança – e não por uma alegada má vontade do Banco Central ou por uma suposta submissão aos desígnios do mercado financeiro – que convivemos com taxas de juros tão altas há tanto tempo. O mal-estar do brasileiro com o aumento do custo de vida quase lhe custou a reeleição. Sua incontestável vitória contra um adversário medíocre como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi um aval expresso a seu governo, mas a absoluta rejeição da maioria do eleitorado ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Essa lógica precisa ser assimilada de uma vez por todas pelo governo. Do contrário, em vez de entregar o melhor de seus mandatos, como prometeu na campanha, Lula reeditará o desastre do governo de Dilma Rousseff, que quis baixar os juros na canetada e entregou uma brutal recessão.