A cidadania obriga
Em entrevista à TV Globo, Flávio Bolsonaro prometeu que, caso perdesse as eleições, respeitaria o resultado. Após perder as eleições por uma diferença de mais de 4 milhões de votos no segundo turno, o primogênito de Jair Bolsonaro disse que era impossível aceitar o resultado. Na carta que publicou a
Em entrevista à TV Globo, Flávio Bolsonaro prometeu que, caso perdesse as eleições, respeitaria o resultado. Após perder as eleições por uma diferença de mais de 4 milhões de votos no segundo turno, o primogênito de Jair Bolsonaro disse que era impossível aceitar o resultado. Na carta que publicou ao chegar a Miami, o candidato do PL declarou-se presidente eleito do Brasil. Para deixar claro o valor que concede à sua palavra dada, horas depois alterou a autoproclamação. Seu novo status era agora o de líder do País. Por mais absurdo que seja o comportamento de Flávio Bolsonaro, não deveríamos ficar surpresos. Destaco um episódio. Antes de vir a público sua proximidade com Daniel Vorcaro – com visitas ao banqueiro e pedidos de dinheiro gordo –, o candidato do PL fez campanha eleitoral vestindo a seguinte camiseta: o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula. “É com essa integridade que o senador dialoga com o eleitor” ( Integridade , Estadão , 3/6/2026, A4). Apesar de constrangedoras e antidemocráticas, a recusa em aceitar o resultado eleitoral e as cartas de Miami oferecem uma oportunidade para refletir sobre o valor da palavra na vida pública. Proponho quatro pontos de reflexão. Primeiro. Pedir respeito à palavra dada não é moralismo. A tolerância com a falta de palavra tem feito muito mal ao País. A falta de compromisso com o que se diz na vida pública e na vida profissional não é algo menor, um pecadilho. Uma sociedade que tolera a falta de palavra destrói os alicerces da convivência e da confiança, elimina as possibilidades de desenvolvimento social e econômico. Torna-se cada vez mais necessário vigiar, controlar, desconfiar. Para não ser passado para trás, fica parecendo que é preciso reduzir constantemente os espaços de genuína autonomia, de criatividade, do outro. Como um país se desenvolve assim? Como uma empresa gera valor assim? Como uma sociedade de advogados se perpetua assim? Um dado que é muitas vezes esquecido. A mentira nunca esteve protegida pela liberdade de expressão – e isso nada tem a ver com transformar o Estado em censor da verdade. Trata-se de reconhecer que quem fala tem o dever da veracidade e, quando os fatos o contradizem, sua palavra não tem peso público, não tem autoridade, não tem proteção jurídica. O dever de veracidade é especialmente sensível no âmbito do sistema de Justiça. Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que mente e engana destrói sua autoridade. Ele perde a aptidão de continuar sendo magistrado. Um advogado que mente e engana fere profundamente a dinâmica profissional da advocacia. É dever do advogado “atuar com destemor, independência, honestidade, decoro, veracidade, lealdade, dignidade e boa-fé” (Código de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil, art. 2.º, § único, II). Essas exigências são muito sérias. Vivê-las é condição indispensável para a excelência profissional. Sem elas, não há advocacia, não há Direito. Segundo ponto de reflexão. A falta de palavra, que também poderia ser denominada de falta de caráter, não está restrita ao campo político adversário. Como lidamos quando ela ocorre no nosso campo ideológico, profissional, social? Procuramos corrigir, atribuindo as devidas responsabilidades? Ou a resposta é sempre a tática política de apontar que o outro lado também cometeu deslizes éticos? Aqui reside a grande possibilidade de mudança. De alguma forma, a mentira sempre estará presente. A virada está no modo como reagimos: o que exigimos daqueles que, conhecendo de perto a pessoa sem palavra, apoiaram-na para determinado cargo público ou privado, relevando sua falta de caráter? Uma pergunta incômoda. Quem se desculpou perante a população pelas cartas de Miami? Quem pediu desculpas por ter apoiado um candidato que, tendo-se comprometido a respeitar as regras do jogo, depois não aceitou a derrota? Não é o erro em si que destrói uma empresa, uma sociedade. É o modo como se reage a ele. A mesma dinâmica aplica-se ao Supremo. Mais do que a atuação passada de seus membros, o importante é a resposta da instituição, bem como a resposta, dentro dos trilhos constitucionais, do Legislativo e do Executivo. Como o governo eleito irá lidar com os escândalos no STF? Irá ajudar a renovar e a fortalecer o tribunal ou trabalhará para manter tudo como está? Terceiro ponto. A ética não é uma linha dividindo bons e maus. Escândalos públicos devem nos levar a examinar, em primeiro lugar, nosso comportamento pessoal. Queremos uma sociedade mais ética? Comecemos por nós mesmos, subindo a própria régua. Mais verazes. Mais cristalinos. Mais cuidadosos com as palavras. Uma última reflexão. Falar do valor inegociável da palavra seria ingenuidade, utopia? Ingenuidade, penso, é escandalizar-se apenas com o lado oposto e, escondendo e tolerando os podres do nosso lado, achar que é possível melhorar o patamar ético do País. Ética não é uma teoria, não é uma arma política: é dar-se conta dos efeitos, sobre nós mesmos e sobre os outros, das nossas próprias ações, das nossas próprias omissões, das nossas próprias seletividades.