Guerra ajuda balança comercial
A balança comercial brasileira deve encerrar 2026 com o segundo maior superávit de sua história. Nas projeções do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o saldo entre o que o País vende ao exterior e o que compra de países estrangeiros será de US$ 84,4 bilhões no final
A balança comercial brasileira deve encerrar 2026 com o segundo maior superávit de sua história. Nas projeções do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o saldo entre o que o País vende ao exterior e o que compra de países estrangeiros será de US$ 84,4 bilhões no final deste ano, resultado inferior apenas aos US$ 98,9 bilhões registrados em 2023. Evidentemente positivos, os números contam apenas parte de um sucesso bastante relativo. Embora o Brasil venha exportando significativamente mais para países como a Índia – o que ajuda a compensar parcialmente a queda nas vendas para os EUA, ainda sob a nefasta política tarifária do presidente Donald Trump –, o grande responsável pelo superávit comercial brasileiro neste ano é o próprio Trump. Não que o americano tivesse qualquer intenção de ajudar o Brasil. Mas, ao deflagrar, em parceria com Israel, a guerra contra o Irã, Trump mirou no que viu e acertou no que não viu. Em represália às ações militares americanas e israelenses, a ditadura iraniana fechou o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de petróleo do mundo. Além de prejudicar exportadores do Oriente Médio, a interdição resultou numa alta substantiva do preço do barril do petróleo, que em fevereiro – antes do início do arrastado e imprevisível conflito – operava no patamar de US$ 70. Produtor de petróleo, o Brasil viu as vendas da commodity para o exterior dispararem. Somente para a China, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), as exportações de petróleo brasileiro cresceram 49% entre janeiro e setembro de 2026, alcançando o recorde de US$ 21,8 bilhões. O Brasil é agora o segundo maior exportador de petróleo para os chineses, atrás apenas da Rússia. O País faz muito bem em vender ao exterior algo de que dispõe e que é altamente valorizado, como o petróleo. Mas o Brasil não pode se acomodar com o sucesso frio dos números da balança comercial, que se devem mais à sorte do que ao juízo, como afirmou ao Estadão o economista Gabriel Cintra, da Eleva Invest. A realidade é que o País segue em falta com uma lição de casa básica. Não é possível que o sucesso comercial de uma economia da dimensão da brasileira ainda siga tão dependente da flutuação internacional dos preços das commodities. É preciso trabalhar com afinco não apenas para ampliar mercados para os produtos brasileiros, mas também para elevar o valor agregado do que o País vende para fora. Isso vale tanto para a indústria, que segue perdendo competitividade em rankings internacionais, quanto para o agronegócio. Exemplo disso é a China, que, embora continue comprando volumes expressivos de frango brasileiro, vem ampliando as suas próprias vendas, para o mercado europeu, dos cortes que não consome dessa carne. Guerras e seus efeitos vêm e vão. Cabe ao Brasil surfar a onda positiva, e passageira, da alta do petróleo sem descuidar do essencial: criar condições para exportar ao mundo produtos de alto valor e menos suscetíveis aos ciclos das commodities.