Ah, se Vorcaro fosse Buscetta
O ministro Gilmar Mendes tem razão: até mesmo a máfia tem ética. E rigorosa. Mas de ética, códigos, rigores e normas seguramente os ministros sabem, ou deveriam saber, mais do que eu. A ética mafiosa, caro ministro, não perdoa. É simples, direta, rígida, baseada, acima de tudo, na lealdade. A famosa
O ministro Gilmar Mendes tem razão: até mesmo a máfia tem ética. E rigorosa. Mas de ética, códigos, rigores e normas seguramente os ministros sabem, ou deveriam saber, mais do que eu. A ética mafiosa, caro ministro, não perdoa. É simples, direta, rígida, baseada, acima de tudo, na lealdade. A famosa lealtà . Simples assim. Se você está dentro, está dentro. Quem sai é perdido. Sai morto ou fugido, não tem muita escolha. Para dedo-duro não tem perdão. Infedele . Uma cuspida vale mais. Entre os que decidiram ficar, a ordem é se proteger, sempre e em qualquer circunstância. Sem vacilar. Vale tudo. O mais importante não é o indivíduo sozinho, mas a família, o grupo, a organização. Para a máfia, o que mais conta é a “família”. E aí, caros senhores, vale qualquer coisa. Violência, omissão e, principalmente, o silêncio quando serve. Dizem no sul da Itália: “Aqui não se vê, não se escuta, não se fala”. Toda criança sabe. Se aceitam o jogo, então pode ser considerado o “homem de honra”( uomo d’onore ). Quer algo mais bonito, mais nobre? A máfia italiana teve um grande personagem, nos anos 90, do qual talvez o banqueiro Daniel Vorcaro, jovem como é, nunca tenha ouvido falar: Tommaso Buscetta, também conhecido como Tomasino ou don Masino. Foi o maior dedo-duro que a máfia siciliana já teve. Explicou tintin por tintin como funcionava a organização. Quem comandava quem, onde se concentravam, de onde vinha tanto dinheiro, a participação nas obras públicas, o tráfico de influências. Os clãs mandavam e desmandavam numa Itália que misturava movimentos anárquicos, terrorismo, governos corruptos. Um prato cheio. De mansinho, foi entrando em todas as esferas do Estado. Tinha gente no exército, na polícia, gente de esquerda, partidos políticos, universidades, ministérios. Buscetta abriu a boca e contou tudo a dois grandes magistrados históricos na justiça italiana: Falcone e Borsellino. Mas talvez nem isso Vorcaro saiba. Talvez nem mesmo o Supremo Tribunal Federal (STF). Buscetta jogou m... no ventilador. E saiu muita gente de fininho, suja, em silêncio. E se Vorcaro fizesse o mesmo? Ah mas o que ganhou Buscetta deletando os capomafia ? A vida. Entrou no Programa de Proteção das Vítimas de Máfia e ganhou mais alguns anos. Ele e o resto de sua família. Tanto sabia, que era um morto que caminhava. Então negociou. Morreu já velho, em 2000, sem o nome e a cara que tinha. E foi por sua boca que a Itália chegou ao Maxiprocesso . Julgou centenas de pessoas, botou tantas na cadeia, criou penas para os mafiosos. O cárcere duro aos condenados. Imagine se Vorcaro abrisse a boca. Seria o Maxiprocesso brasileiro. A máfia, ministro Gilmar, se mantém graças a duas prerrogativas: o tráfico de influência em todas as esferas da sociedade que tenha algum tipo de poder e dinheiro no bolso para corromper essa gente. Se isso é ética, estamos perdidos. No ventilador de Vorcaro estariam também noites picantes, regadas a melhores champanhes, charutos e, claro, mulheres. Seguramente o ministro não sabe, mas aqui a máfia também tem sua ética. A fidelidade não vale somente para membros da família da organização, mas dentro de casa também. Quem decide trair passa por apuros. Mulher de família mafiosa traída é um perigo e uma isca aos magistrados antimáfia. Tristes, desiludidas, rancorosas, abrem a boca e soltam o verbo. As cornas têm um preço. Ventilador. O ex-presidente Silvio Berlusconi era um mestre nas festinhas regadas a velhos e prostitutas. Eram os chamados bunga bunga. Era naquelas noitadas que ele garantia contatos, fedelta dos amigos e seguia adiante no poder. Só deixou tudo quando morreu. Mas sempre teve o cuidado de tratar bem as mulheres de cada um deles, com presentes caríssimos, sorrisos e piadas. Ria e fazia rir, enquanto tramava uma rede de influências. Moro na Itália há 23 anos e qualquer coisinha de máfia posso dizer que sei. Roberto Saviano, hoje o maior escritor sobre o assunto, diz sempre que a máfia que se pensa dos sicilianos semianalfabetos, grosseiros, com a coppola (chapéu) na cabeça, é uma imagem dos filmes. Hoje, ela é limpa, branca, com fala mansa e letrada. Vende droga, imigrante, arma, prostituta, mas o ganha-pão está nas grandes obras públicas. São rios de dinheiro. Sem contar no sistema financeiro. Os bancos limpam o dinheiro, quadruplicam os lucros e são fundamentais. Vorcaro, segundo as investigações, também era para tantos uma baita galinha de ovos de ouro. Um achado. Vorcaro tem tempo de sobra agora. Então, sugiro dois livros, se posso. Addio Cosa Nostra. La vita di Tommaso Buscetta e La Mafia ha vinto. Em português, é claro. Quem sabe lhe dê coragem. Em troca? Quem sabe uma saída espetacular num jatinho com filhos, mulher e cachorro com viagem só de ida para uma casinha nos confins da Mongólia. E sem olhar para trás, porque dedo-duro, sabe-se, não se perdoa.