Casas del Bosque: muito além dos vinhos, um destino gastronômico no Chile

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Com três restaurantes, wine bar e experiências que vão além das degustações, a vinícola de Casablanca se tornou um destino para quem gosta de comer e beber bem Quem visita a Casas del Bosque , no Vale de Casablanca, no Chile, apenas para degustar vinhos corre o risco de reservar pouco tempo para con

Com três restaurantes, wine bar e experiências que vão além das degustações, a vinícola de Casablanca se tornou um destino para quem gosta de comer e beber bem Quem visita a Casas del Bosque , no Vale de Casablanca, no Chile, apenas para degustar vinhos corre o risco de reservar pouco tempo para conhecer o lugar. Estive lá recentemente e encontrei uma estrutura gastronômica que impressiona tanto pela qualidade quanto pela variedade de propostas. São três restaurantes, um wine bar, passeios pelos vinhedos e diferentes degustações que fazem da vinícola um ótimo destino para passar o dia inteiro, inclusive para quem não é tão apaixonado por vinho. E isso não aconteceu por acaso, já que a gastronomia faz parte do projeto da Casas del Bosque há muitos anos. Fundada em 1993 pela família Cúneo, de origem italiana, a vinícola completa 33 anos em 2026 e se tornou uma das referências do enoturismo chileno. Atualmente, recebe aproximadamente 100 mil visitantes por ano, sendo cerca de 25% brasileiros, e as atividades turísticas já representam perto de metade de seu faturamento. Boa parte desse trabalho é liderada por Giorgianna Cúneo , diretora executiva da vinícola e filha do fundador Juan Cúneo , conhecido empresário chileno. Sua preocupação vai muito além dos vinhos, passando pela arquitetura, gastronomia, jardins e hospitalidade, com uma filosofia que resume bem o que encontrei por lá: "cada detalhe importa". "A gastronomia faz parte da nossa proposta desde muito cedo, praticamente desde o início", conta Giorgianna , ao explicar como a família passou a enxergar a propriedade também como um destino gastronômico. A ideia era fazer com que o visitante encontrasse bons motivos para permanecer na vinícola, em vez de apenas passar por lá para uma degustação. Essa preocupação também se reflete na valorização dos profissionais e dos ingredientes da região, com uma proposta gastronômica que procura aproveitar o que Casablanca tem de melhor. A cozinha está sob a liderança da chef Paloma Fuenzalida , acompanhada por uma equipe que inclui o sous chef Rodrigo Cangas , responsáveis por desenvolver diferentes propostas sem perder a identidade da vinícola. Joana Bronze , embaixadora da marca no Brasil, destaca justamente esse cuidado como um dos grandes atrativos para os turistas. "Sem dúvida, o que mais encanta os brasileiros é a combinação perfeita da atenção aos detalhes de nossa equipe de hospitalidade, com uma localização privilegiada e a variedade de sabores da gastronomia de nossos três restaurantes", afirma. E basta conhecer as diferentes propostas gastronômicas para entender o que ela quer dizer, já que cada restaurante tem sua própria identidade, embora todos compartilhem uma preocupação especial com a relação entre comida e vinho. O Tanino é o mais tradicional dos três e trabalha com uma filosofia que considero especialmente interessante: "cozinhamos para nossos vinhos". A ideia é partir das características dos rótulos para desenvolver pratos que valorizem seus sabores e aromas, invertendo a lógica mais comum de primeiro pensar no cardápio para depois escolher o vinho. "Quando falamos de qualidade, não pensamos apenas nos vinhos. Também nos propusemos a oferecer gastronomia de qualidade e cuidar de tudo o que acompanha essa experiência", explica Giorgianna , reforçando que o cuidado dedicado à elaboração dos rótulos também precisava estar presente na cozinha e no atendimento. A cozinha do Tanino combina influências chilenas e italianas, com um menu que acompanha as estações e é renovado quatro vezes por ano. Já o Botanico e a Casa Mirador fazem duas mudanças anuais, respeitando a sazonalidade dos ingredientes e as características de cada proposta. O Botanico é o mais descontraído dos três e trabalha com o conceito de valorizar ingredientes frescos, especialmente os vegetais e ervas da horta orgânica da propriedade. O ambiente é lindo, com uma arquitetura aberta para os vinhedos e uma cozinha de inspiração italiana, bastante convidativa para um almoço sem pressa. O cardápio que conheci trazia opções como bruschetta de ricota com peras assadas e pistache, alcachofras à carbonara e tartare de polvo na brasa com azeitonas e alcaparras. Entre os principais, raviolis de ricota com rúcula, manjericão e creme de nozes e filé-mignon na brasa com purê cítrico e vegetais da horta. O Botanico também revela um lado mais pessoal do trabalho de Giorgianna , especialmente pela preocupação em aproximar o visitante da natureza e transformar a paisagem em parte da refeição. Essa combinação entre gastronomia, ambiente e hospitalidade rendeu ao restaurante o reconhecimento global na categoria Experiências Gastronômicas do Best Of Wine Tourism 2026 , premiação promovida pela rede Great Wine Capitals . E vale destacar que não se trata de um restaurante formal, tampouco de uma casa dedicada a longos menus degustação, mas de uma cozinha que valoriza a qualidade dos ingredientes e sua relação com os vinhos. Aliás, o Botanico tem uma conexão especial com a linha Botanic Series, criada em 2019 com a ideia de oferecer vinhosfáceis de beber e especialmente versáteis à mesa. Provei o Chardonnay, o Sauvignon Blanc, o Pinot Noir e o Syrah, todos com uma relação entre qualidade e preço que merece atenção. Joana , inclusive, destaca essa linha entre suas recomendações para quem está começando a conhecer a vinícola: "Para quem não conhece a vinícola recomendo o nosso carro-chefe, Sauvignon Blanc Collection, e também toda a linha Botanic, de mínima intervenção enológica e de máxima expressão de terroir". A terceira opção é a Casa Mirador , o restaurante mais sofisticado da propriedade, instalado no alto de uma colina, com uma vista espetacular para os vinhedos. Ali, provei tartare de alcachofra, pequenas massas de milho altiplânico recheadas com tartare bovino e croquete de queijo de cabra com chutney de mamão de Coquimbo, tudo acompanhado pelo Pequeñas Chardonnay 2025. Na sequência, um risoto de tomates temperados da própria horta foi servido com o Pequeñas Pinot Noir 2025, mostrando como esse tinto mais delicado pode funcionar muito bem mesmo em um prato sem carne. Depois, o Gran Bosque 2025 acompanhou um filé selado com croquete de morcilla e maçã verde, molho demi-glace e pimenta-do-reino. Para fechar, uma torta chilena com doce de leite e merengue, harmonizada com o Noble Late Harvest Riesling 2024, um vinho doce delicioso, cuja acidez evita que a combinação fique enjoativa. A Casa Mirador também chama a atenção pela arquitetura, com enormes janelas, uma impressionante mesa de madeira e um ambiente que acompanha o nível da gastronomia. É um programa mais exclusivo, reservado a maiores de 18 anos e que merece algumas horas de dedicação, até porque a paisagem, por si só, já seria um excelente motivo para subir até lá. Mas nem todas as propostas gastronômicas da Casas del Bosque exigem uma refeição completa ou uma reserva antecipada, e o Bar 242 é um bom exemplo disso. Aberto diariamente, o wine bar oferece diferentes rótulos em taça e pequenas preparações pensadas especialmente para harmonizar com os vinhos, permitindo conhecer algumas das combinações da casa de maneira mais informal. O espaço também funciona como ponto de encontro e espera para quem vai almoçar nos restaurantes, embora seja um programa por si só para quem deseja aproveitar a propriedade sem uma programação rígida. Essa flexibilidade, aliás, faz parte de uma filosofia que a equipe chama de yes man , algo como procurar sempre uma maneira de dizer sim ao visitante. Mesmo quem chega sem reserva encontra uma equipe disposta a oferecer alguma atividade, seja uma taça no wine bar, uma degustação ou até um passeio de bicicleta pelos vinhedos, programa que também fiz e adorei. Pode parecer um detalhe, mas considero essa disposição para receber bem um dos pontos mais interessantes da Casas del Bosque , já que hospitalidade também é conseguir proporcionar bons momentos àqueles que não planejaram tudo com antecedência. E, claro, toda essa estrutura tem como ponto de partida os vinhos produzidos na propriedade, localizada na região de Las Dichas, a cerca de 18 quilômetros do Oceano Pacífico. A influência marítima ajuda a manter as temperaturas mais amenas e favorece a produção de brancos frescos e tintos elegantes, algo que fica mais fácil de compreender durante o passeio pelos vinhedos, quando se sente o vento gelado que chega do litoral, mesmo em um dia de bastante sol. O trabalho enológico é liderado pelo italiano Alberto Guolo , que procura valorizar as particularidades da região e produzir vinhos com personalidade, mas sem o excesso de peso que muitas vezes associamos aos grandes tintos chilenos. Essa proposta aparece especialmente no La Trampa, um dos principais rótulos da vinícola, criado com uma ambição bastante clara: tornar-se um vinho ícone do clima frio chileno. Elaborado com Syrah, Malbec e uma pequena participação de Pinot Noir, o La Trampa busca uma expressão diferente dos grandes tintos do país, privilegiando a fruta, a elegância e aquilo que a Casas del Bosque considera parte de seu DNA: estrutura sem peso. A ideia é mostrar que não é preciso produzir um vinho excessivamente encorpado para alcançar complexidade e personalidade. Durante a visita, participei de uma degustação vertical na sala das barricas, provando as safras 2022, 2023 e 2024, o que permitiu observar como a composição do vinho vem evoluindo. A participação da Malbec passou de 30% para 32% e, finalmente, 40% do corte, enquanto a Syrah recuou de 65% para 57%, mostrando como o projeto continua sendo aperfeiçoado pela equipe de enologia. Também gostei especialmente da linha Pequeñas, dedicada a produções mais limitadas de parcelas selecionadas. São vinhos que mostram muito bem o potencial gastronômico de Casablanca, sem exigir grandes conhecimentos técnicos de quem está bebendo. E essa relação entre vinhos e gastronomia vai muito além dos limites da propriedade, já que a Casas del Bosque lançou recentemente o projeto Behind the Kitchen by Pequeñas . Trata-se de uma série de minidocumentários que acompanha o cotidiano de chefs e restaurantes chilenos, mostrando como suas criações podem dialogar com os vinhos da linha Pequeñas, uma das mais importantes do portfólio super premium da vinícola. O projeto ajuda a explicar a relação que a Casas del Bosque mantém com a gastronomia chilena, que também tem uma importância comercial expressiva para a vinícola. Segundo Diego Salazar , diretor de vendas para América Central, América do Sul e Chile, seus rótulos estão presentes em aproximadamente 800 restaurantes no país, canal que representa cerca de 35% das vendas da marca no mercado interno. "Os restaurantes sempre tiveram um papel fundamental na história e no desenvolvimento comercial da Casas del Bosque", afirma Diego , que vê o Behind the Kitchen como uma maneira de fortalecer a relação com chefs, sommeliers e consumidores, especialmente por meio dos rótulos de maior valor agregado. No Brasil, curiosamente, a situação é bastante diferente, embora os brasileiros representem uma parcela expressiva dos visitantes da vinícola. Menos de 10% das vendas da marca no país acontecem por meio dos restaurantes, já que sua distribuição historicamente esteve mais concentrada no varejo, especialmente nos supermercados. A ideia agora é mudar esse cenário, aproximando a Casas del Bosque dos chefs e sommeliers brasileiros e ampliando a presença de seus rótulos na gastronomia. A chegada de Joana Bronze como embaixadora da marca e a realização desta viagem com jornalistas e criadores de conteúdo fazem parte desse movimento, que Diego resume em uma frase bastante apropriada: "Acreditamos que grandes vinhos ganham ainda mais significado quando fazem parte de grandes experiências gastronômicas". Depois de conhecer a vinícola, provar diferentes vinhos e almoçar em dois dos restaurantes, saí com a impressão de que a Casas del Bosque encontrou uma maneira muito interessante de fazer enoturismo. O vinho continua sendo o motivo de tudo existir, mas a gastronomia, a beleza do lugar e, principalmente, a hospitalidade fazem com que a visita valha a pena mesmo para quem não é especialista no assunto. E talvez aí esteja seu maior mérito: oferecer tantos bons motivos para visitar a vinícola que, mesmo depois de dois excelentes almoços, degustações e um passeio de bicicleta, a sensação foi de que ainda havia muita coisa para conhecer. Já tenho um motivo para voltar. Serviço: Viña Casas del Bosque Hijuela nº 2, Ex Fundo Santa Rosa, Casablanca, Chile Site: www.casasdelbosque.cl Instagram: @casasdelbosque Reservas de restaurantes: +56 9 6669 6529 Reservas de turismo: +56 9 7967 7320