‘Ele foi apressadinho’: Sá acha improvável volta com Guarabyra e repassa vida em livro de crônicas
Para entender por que Luiz Carlos Sá chama parte das canções de seu novo álbum solo, Eu, Caçador de Mim , de “sambas de mato”, é preciso lembrar, para quem não conhece a biografia dele, que ele nasceu na terra de Noel Rosa, Vila Isabel. Foi “lavado e enxaguado” nas águas do compositor carioca, costu
Para entender por que Luiz Carlos Sá chama parte das canções de seu novo álbum solo, Eu, Caçador de Mim , de “sambas de mato”, é preciso lembrar, para quem não conhece a biografia dele, que ele nasceu na terra de Noel Rosa, Vila Isabel. Foi “lavado e enxaguado” nas águas do compositor carioca, costuma dizer. Começou a tocar por conta de Noel e iniciou a carreira compondo sambas. No entanto, com o trio Sá, Rodrix & Guarabyra , nos anos 1970, e, posteriormente, em dupla com Guarabyra, passou a ser mineiro, nordestino e ribeirinho com as ‘canções de estrada’ que faziam juntos. Esse som deles recebeu um nome, inspirado pela canção Casa no Campo e difundido pelo crítico musical Julio Hungria: Rock Rural. “Às vezes não é rock, às vezes não é rural”, brinca Sá, em carreira solo desde 2025, depois de 53 anos de parceria com Guarabyra. “Samba de mato”, portanto, liga pontos de sua música. São composições bem brasileiras, tanto no balanço quanto nos temas, como Bananeira de São Tomé e Zurumzum , ambas assinadas apenas por ele. Na outra parte do álbum, em parcerias, J abuticaba em Flor , composta com Gabriel Sater, segue na trilha rural — ou folk, com viola e violão de aço. Ávida Dávida , poema que Chico César lhe enviou como presente de aniversário, ele musicou. Com Ivan Lins, companheiro de geração, compôs Foi Bem Lá . “A goma com os parceiros foi muito certeira. O disco está muito bom, me desculpe.” Além do álbum, ele também está lançando um livro com passagens de sua vida e carreira, escritas em crônicas. Ambos pela gravadora e editora Kuarup — o álbum, inclusive, em CD. Grande contador de histórias, não só em músicas, Sá foi jornalista nos anos 1960, quando os primeiros passos na carreira de músico e compositor não lhe pareciam tão seguros. A primeira história que aparece no papo com o Estadão é, justamente, sobre o Rock Rural. Na abertura do livro, o jornalista Miguel Sá, um dos filhos do compositor, define o gênero “como um lugar entre a Tropicália e o Clube da Esquina”. O pai concorda e relembra a ocasião em que, na redação do extinto jornal O Sol , onde trabalhou como repórter, ouviu de Caetano Veloso que iria convidar um grupo de rock argentino (Beat Boys) para acompanhá-lo na canção que havia inscrito no festival da TV Record de 1967. “Eu disse ao Caetano: ‘Cara, você enlouqueceu. Vão te crucificar’”. A música era Alegria, Alegria , que cita o periódico: “O Sol nas bancas de revistas/Me enchem de alegria e preguiça/Quem lê tanta notícia”. “A ditadura matou a Tropicália. Caetano e Gilberto Gil foram exilados. Abriu um certo buraco na música brasileira”, analisa. “Fomos uma ponte, não apenas entre o folk rock americano e o folk brasileiro, nordestino e caipira, mas também uma comunicação com o Clube da Esquina.” Por sugestão do produtor Mariozinho Rocha, Sá, Rodrix e Guarabyra se juntaram em um trio que rendeu, nos anos 1970, dois discos: Passado, Presente e Futuro (1972) e Terra (1973). O mais experiente, naquele momento, era Zé Rodrix, que já tinha um tempo de estrada com o grupo Som Imaginário, criado para acompanhar Milton Nascimento . “O Zé tinha uma visão muito pessimista do movimento hippie e expressou isso na letra de Primeira Canção da Estrada , uma de nossas primeiras parcerias”, conta. “Éramos três compositores fechados em uma casa, teoricamente hippies, odiados pela vizinhança conservadora. Só podia ter dado em alguma coisa mesmo. Estávamos isolados musicalmente de tudo”, conta Sá. A ‘república’ acabou quando um vizinho policial endureceu para cima deles — o jornalista esportivo José Trajano chegou a morar com os músicos, mas, segundo Sá, deixou o local antes da confusão. Sobradinho, adeus Com a saída de Zé, Sá e Guarabyra seguiram em dupla, e com sucesso. O álbum Pirão de Peixe Com Pimenta , de 1977, o segundo deles, emplacou músicas como Sobradinho e Espanhola , além da faixa-título. A inspiração foi, sobretudo, uma viagem para Bom Jesus da Lapa, à beira do Rio São Francisco, terra de Guarabyra. Em 1985, três canções do álbum Harmonia entraram para a trilha da novela Roque Santeiro , sucesso absoluto naquele ano. Dona , gravada pelo Roupa Nova, foi tema da Viúva Porcina. V erdades e Mentiras e Roque Santeiro tocavam em cenas gerais da trama. Uma época de presença em programas como Chacrinha e Fantástico . No livro, Sá descreve o fim da dupla com Guarabyra, em 2025, por meio de uma prosa sedutora: “tempestade perfeita formada por raios de diversas origens (como velhos ressentimentos mal resolvidos), chuvas de granizo (como frases mal entendidas ou interpretadas) e uma ventania persistente (soprada através de distâncias tanto geográficas como de objetivos).” O desenlace foi por meio de uma mensagem de WhatsApp, ele conta. Sá só lamenta que isso tenha ocorrido em um momento no qual eles viam crescer os pedidos por shows. Deu tempo de fazer três últimas e importantes apresentações já agendadas previamente. Ele acha difícil a volta. “Quem teria que dar espaço é o Guarabyra. Quem saiu foi ele. Eu queria fazer um tour pelo País chamado Sobradinho – Adeus . Seria uma despedida digna. Ele foi apressadinho, ao estilo Guarabyra”. O músico diz não ter mais vontade de tocar com o antigo parceiro. “Dei-me uma razão para voltar. Estou fazendo minhas músicas tranquilamente, do jeito que eu quero, que eu gosto. Tenho liberdade total”. Sá cita mais uma razão: depois de fazer inúmeras letras, quer se dedicar mais às melodias e encontrar excelentes letristas. Em trio ou em dupla, eles assinaram discos inteiros juntos, algo que ocorreu também com John Lennon e Paul McCartney e Roberto e Erasmo Carlos, mesmo que nem todas as canções fossem de todos. Os discos Terra , em trio, e Nunca Te Vi ... e Pirão de Peixe Com Pimenta , em dupla, foram feitos dessa forma. “Achávamos injusto atribuirmos as músicas a dois de nós ou a um de nós apenas. Tínhamos noção de que um dava ideia para o outro, um metia o dedo na música do outro.” A ‘invasão’ no diário de Milton Nascimento Há, ainda, outro nobre compositor da música brasileira que desejou ter colocado o dedo em uma das letras assinadas por Sá, esta feita em parceria com Sérgio Magrão, baixista e vocalista do 14 Bis. Sem essa possibilidade, Milton Nascimento, então, pôs a voz em Caçador de Mim . E mais: nomeou seu álbum de 1981 com a canção — que, justiça seja feita, já havia sido lançada pelo 14 Bis no ano anterior. “Milton quis me fazer uma surpresa. Entrei em uma loja de discos e vi: Caçador de Mim , de Milton Nascimento. A gravação dele é impecável, com um arranjo primoroso. Ele sempre brincou comigo dizendo que essa música não era minha. Dizia que eu havia invadido o diário dele”, conta. Caçador de Mim foi inspirada por dois livros que Sá estava lendo: O Apanhador no Campo de Centeio , de J. D. Salinger, e O Destino É o Caçador , de Ernest K. Gann. “Se o destino é caçador, por que eu não posso me caçar?”. Nesse álbum novo, Sá gravou a canção no formato voz e violão, formato até então inédito. Dona , que compôs com Guarabyra, muitos pensam ser do Roupa Nova. Quem também ‘roubou’ uma canção de Sá foi Ney Matogrosso . Homem de Neandertal abriu o primeiro disco solo do cantor e deu nome ao primeiro show de Ney. Sá afirma que a fez em uma fase de depressão. Atualmente, abre seus shows com Homem de Neandertal e termina com Caçador de Mim . “A jornada é essa: de um cara só sentimento até chegar no porquê de precisarmos usar a razão juntamente com o sentimento.” Aos 81 anos, Sá mora há 20 em Belo Horizonte. Por ora, não vê motivos para voltar ao Rio de Janeiro, sua terra natal. Um deles, político — ele lamenta seus conterrâneos terem eleito Douglas Ruas para governador. No jornal O Sol , conviveu com Nelson Rodrigues, Zuenir Ventura e Tarso de Castro. No Correio da Manhã , trabalhou com Ruy Castro, Torquato Neto e Waly Salomão. Uma época em que o debate de ideias, mesmo as divergentes, era menos violento. “O Nelson era um reacionário adorado”, diz. “Havia bolsões de esquerda e de direita, mas não tinha o antagonismo feroz de hoje em dia”. Eu, Caçador de Mim Luiz Carlos Sá Livro: R$ 70 CD: R$ 50