Selic: mercado muda projeções e vê decisão do Copom como teste de credibilidade do BC

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Bancos revisam projeções para a Selic após reeleição de Lula; veja como a decisão do Copom pode afetar o investidor

Grandes instituições do mercado financeiro revisaram suas projeções para a decisão do Comitê de Política Monetária ( Copom ) desta quarta-feira (4). Antes das eleições, alguns bancos esperavam a continuidade do ciclo de cortes nos próximos meses. Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) , porém, o cenário mudou, e a expectativa passou a ser de manutenção da Selic em 13,75% ao ano. Em relatório divulgado na terça-feira (3), a XP revisou sua projeção e passou a esperar que a Selic encerre 2026 em 13,75%. Antes, a corretora projetava a taxa básica de juros em 13,25% no fim de 2026 e em 11,50% no fim de 2027. A casa destacou o aumento da expectativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo ( IPCA ) de 2029, que passou de 3,5% para 3,98% no último Boletim Focus. A projeção para o IPCA de 2028 também subiu, de 3,75% para 4%, assim como a do IPCA de 2027, que foi de 4,34% para 4,76%. A mediana do índice de inflação de 2026 avançou de 5,19% para 5,22%. Este foi o primeiro relatório com respostas consolidadas após a reeleição de Lula . A XP cita que as expectativas de inflação pioraram tanto por fatores locais, como a alta recente do dólar e a incerteza fiscal , quanto por fatores externos, incluindo o petróleo acima de US$ 100 por barril e o fenômeno climático El Niño . Embora espere que o Copom faça uma pausa nos cortes da Selic, a corretora acredita que a autoridade monetária não trará uma sinalização clara sobre seus próximos passos. O Santander foi outro que revisou seu cenário. O banco agora projeta que o Copom mantenha os juros inalterados em 13,75% hoje, retirando a estimativa anterior de corte de 0,25 ponto percentual. O BTG Pactual , por sua vez, já esperava manutenção da Selic em novembro de 2026, mas alterou a expectativa para a taxa no final de 2027, que passou de 12,50% para 13,75%. Além dos riscos inflacionários já citados pela XP, o banco menciona o fim da escala 6x1 como mais um fator de incerteza no radar. Já o Itaú , que também espera manutenção da Selic hoje, vê o ambiente externo passando de “incerto” para “mais adverso” desde a última reunião do Copom até aqui, com aperto de condições financeiras em economias desenvolvidas e uma nova rodada de alta do petróleo. Nos Estados Unidos , o Federal Reserve (Fed) elevou os juros em 0,25 ponto percentual em setembro e optou por não repetir o movimento na reunião da última semana. No entanto, com a inflação mais pressionada no país, o Itaú antecipa novas altas de juros ao longo dos próximos meses por lá. Entre os bancos, quem mantém uma visão diferente é o UBS BB , que projeta corte da Selic para 13,5% ao ano nesta quarta-feira. A instituição, no entanto, não descarta um “risco significativo” de que o comitê interrompa o ciclo de cortes hoje. Decisão do Copom vira teste de credibilidade do BC Para Rafael Meyer, portfolio manager da SWM Multi Family Office, cortar a Selic agora, com o dólar acima de R$ 5,48 e as expectativas de inflação deterioradas, seria um “tiro no pé” para o Banco Central (BC) . “O BC perderia credibilidade justamente quando mais precisa dela”, afirma. O gestor pontua que o mercado viu a reeleição de Lula como um sinal negativo para o compromisso fiscal, o que se torna um problema para o Banco Central, pois contamina o câmbio e as expectativas de inflação. “Nesse caso, o BC é obrigado a reagir mesmo com a economia desacelerando”, diz. Gustavo Danilo, especialista de renda fixa da Manchester Investimentos, pontua que a reviravolta eleitoral após o segundo turno fez o chamado prêmio de risco subir no Brasil. Esse prêmio representa a taxa de juros exigida pelos investidores para financiar o governo. “A curva de juros tem refletido justamente a dificuldade de enxergar como será conduzida a política econômica brasileira nos próximos anos”, avalia. Atualmente, no mercado de juros, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 apresenta taxa de 13,627% ao ano. Para janeiro de 2029, a taxa está em 15,13%, enquanto o DI para janeiro de 2031 é negociado a 15,45% ao ano. Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, explica que, quanto mais aumenta a dúvida do mercado sobre a capacidade do governo estabilizar a dívida pública, mais os investidores exigem juros elevados. “Por outro lado, medidas consistentes para equilibrar as contas públicas podem reduzir esse risco e contribuir com um ambiente mais favorável à queda dos juros”, afirma. Embora o governo ainda não tenha confirmado planos ou nomes para a política econômica a partir de 2027, propostas começam a repercutir no mercado. Uma das que ganhou destaque nas discussões foi a do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real . Lara Resende sugeriu reduzir a taxa básica de juros gradualmente ao longo de aproximadamente 12 meses, até atingir cerca de 7,5% ao ano . Defendeu ainda a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), que definiria metas fiscais e monetárias para um período de quatro a cinco anos à frente Em artigo publicado na plataforma Substack, o economista criticou a postura adotada pelo BC. “Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, disse. “Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica”, acrescentou. Na terça-feira (3), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a proposta de Lara Resende tem várias deficiências e que não está na mesa do governo atualmente . Ele disse que não há, inclusive, agenda marcada com o economista e defendeu um “ajuste gradual” nas contas públicas. “Do meu ponto de vista, é uma ideia incipiente que foi colocada para debate público, mas não é uma proposta a ser avaliada ainda”, destacou. Eventual corte da Selic pode mexer com ativos locais Na visão de Marcos Vinícius Oliveira, economista da ZIIN Investimentos, uma eventual redução da Selic hoje seria mal recebida pelo mercado e poderia transmitir uma sinalização inadequada por parte do Banco Central, levantando dúvidas sobre seu grau de compromisso com a convergência da inflação à meta. “Como consequência, poderíamos observar uma reação negativa dos ativos domésticos, com depreciação do real e abertura da curva de juros , refletindo uma percepção de maior risco por parte dos investidores”, explica. Além da decisão em si, os investidores estarão de olho no comunicado do Copom . Em caso de manutenção da Selic, afirmações sobre os próximos passos do BC também serão monitoradas. “O mercado buscará identificar se o Banco Central sinalizará uma pausa temporária no ciclo de cortes ou uma revisão mais prolongada”, avalia Joaquim Cecílio, sócio da GT Capital. Gabriel Magno, sócio da AW Capital, espera que o Copom adote um tom mais duro, diante do momento de estresse no mercado financeiro . “Isso deve ser dar até mesmo para tentar acalmar o mercado, ganhar credibilidade e afastar os ruídos de que o governo pressionará o BC para cortar juros”, afirma.