Everaldo Marques doma ‘caos’ da F1 com a narração ‘mais desafiadora’ da carreira: ‘Alucinante’
Everaldo Marques chegou à Globo em fevereiro de 2020. Quase sete anos depois, uma pandemia, duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas, o narrador tem mais uma tarefa inédita: transmitir o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1 na emissora carioca. Após alguns anos na Band, a categoria máxima do automob
Everaldo Marques chegou à Globo em fevereiro de 2020. Quase sete anos depois, uma pandemia, duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas, o narrador tem mais uma tarefa inédita: transmitir o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1 na emissora carioca. Após alguns anos na Band, a categoria máxima do automobilismo mundial retornou à Globo nesta temporada com a exibição de 15 Grandes Prêmios na TV aberta. E Everaldo Marques se tornou a voz principal da Fórmula 1 . Em entrevista ao Estadão , o locutor comenta como foi o ano de 2026, com o papel de narrador dos jogos da seleção, a titularidade na F1 e outros desafios que se impõem em sua carreira: Acredito que seja uma grande expectativa para você conseguir chegar nesse posto e com essa responsabilidade nesse retorno da Fórmula 1 à Globo e agora um Grande Prêmio aqui em São Paulo. Pois é, eu tava pensando sobre isso outro dia: eu sempre sonhei em ser narrador, mas acho que ser o narrador de Fórmula 1 da TV Globo era uma coisa que extrapolava qualquer pensamento. Ser narrador já é difícil por ser um universo muito pequeno no Brasil. Dentro desse universo, ser selecionado para fazer transmissões na TV Globo e, ainda mais, ser o titular da Fórmula 1 era algo muito improvável, já que foram mais de 40 anos com a mesma voz do Galvão. Quando cheguei à Globo em 2020, pensei que quem sabe em 2027 ou 2028 surgiria uma chance de fazer uma corrida ou outra quando o Galvão parasse. Mas o mundo não gira, ele capota. Mas já em 2020 tive a oportunidade de narrar três corridas em função da pandemia e fiquei muito feliz quando recebi a oportunidade de me tornar o narrador titular das corridas em 2026. E você falou sobre o Galvão. Interessante que este ano de 2026 você teve a responsabilidade de assumir a Fórmula 1 e também os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo... A história da Copa acabou sendo uma situação diferente por conta do problema de saúde do Luis Roberto, algo totalmente inesperado. Fiquei feliz com a oportunidade, mas triste pela maneira como ela aconteceu, pois somos amigos há mais de 20 anos. Demorei a sorrir ao receber a notícia, mas depois a ficha foi caindo e me dediquei ao máximo para tentar entregar o melhor para as pessoas durante a Copa. Narrar a seleção brasileira e a Fórmula 1 envolve uma paixão de massa , diferente de narrar jogos de futebol de clubes, que são paixões segmentadas dentro do mesmo país. É diferente nesse caso o jeito como você tem de dialogar com o público? Eu acho que a gente coloca os Jogos Olímpicos nesse guarda-chuva também, pois tá todo mundo torcendo para as mesmas pessoas e pelo sucesso do esporte brasileiro. A principal diferença nesse caso é você ter uma certa liberdade ou licença poética para dar uma torcidinha e para dar uma cornetada. Na Fórmula 1, o brasileiro não torce só pelo piloto brasileiro; ele também tem seu favorito estrangeiro, como no embate entre Hamilton e Verstappen. Essa licença poética para torcer pelo sucesso do atleta brasileiro é a principal diferença em relação ao futebol do dia a dia. Você entende que o vácuo de pilotos brasileiros por alguns anos na Fórmula 1 foi responsável por fazer com que os fãs de Fórmula 1 brasileiros tivessem um pouco mais de proximidade, familiaridade, gosto por pilotos estrangeiros? Provavelmente sim. Desde o início dos anos 80 tivemos protagonismo com Piquet, Senna, Rubinho na Ferrari e até o final da passagem do Felipe Massa disputando vitórias. A ausência de um brasileiro competindo lá na frente com certeza abriu esse espaço. Mas isso não acontece só na Fórmula 1; vemos na NBA com fãs de LeBron James e Stephen Curry, ou na NFL com Patrick Mahomes e Tom Brady. O brasileiro aprendeu a torcer e a admirar a beleza do esporte, e não só a torcer pelo compatriota. E ano que vem, depois de uma década, o Brasil vai voltar a ter dois pilotos no grid da Fórmula 1: Gabriel Bortoleto e Rafa Câmara. O que você vê desses dois pilotos, a diferença e o potencial de cada um com as escuderias que vão representar, e a diferença de trazer essa visão na narração quando eles não brigam pelas primeiras colocações? Já vivo isso hoje com o Bortoleto na Audi. Como a equipe não está entre as mais fortes do grid, ele muitas vezes fica sumido da transmissão, mas usamos a torre de cronometragem e outras informações para contar a história da corrida dele. O mesmo deve acontecer com o Rafa Câmara na Haas em 2027. O Rafa é um piloto muito rápido, mostrou isso na base e nos testes em Portimão. Ele tem o apoio da academia da Ferrari, mas precisamos ter pés no chão quanto a essa expectativa. Torcedores, calma, né? Tem torcedor pensando que em 2028 ele já estará na Ferrari. É bom ter calma e torcer para ele se adaptar bem. O primeiro parâmetro de avaliação tem de ser o companheiro de equipe [Oliver Bearman] , buscando ser consistentemente competitivo diante dele, que é o que o Bortoleto tem conseguido fazer frente ao Nico Hülkenberg. São dois pilotos jovens [Bortoleto e Câmara] e com muito potencial. E sobre a questão do companheiro de equipe, são perfis completamente diferentes. O Oliver Bearman é um jovem que já está na F1 há mais tempo, enquanto o Nico Hülkenberg é um piloto ultraexperiente... Não sei se dá para ver o Hülkenberg como um mentor do Bortoleto, já que ele está mais na parte final da carreira. Já o Bearman e o Rafa estão no início e buscando espaço, o que vai gerar uma disputa interessante. Confio no potencial do Rafa para que ele consiga ter uma bela primeira temporada na Fórmula 1 e desenvolver bem a sua carreira. Qual vai ser a diferença de transmitir a Fórmula 1 in loco em Interlagos? Principalmente o clima e o calor humano da torcida brasileira, que transforma Interlagos em uma arena especial. Ouvir a reação das arquibancadas no momento das ultrapassagens vai ser incrível. Na hora da corrida em si, a transmissão é muito similar às outras etapas da temporada, porque acompanhamos a prova pelas imagens da televisão e pelos dados da cronometragem para entender a história que está acontecendo ali. Pensando na Fórmula 1 como produto para o público brasileiro, você acha necessário convencer o público a gostar dos pilotos brasileiros ou o enredo que a Fórmula 1 já montou é suficiente? O brasileiro gosta de torcer por compatriotas, mas acho que aprendeu a admirar a Fórmula 1 independentemente do protagonismo brasileiro, por conta de todas as histórias do grid. Equipes tradicionais como Ferrari, McLaren e Williams, e grandes campeões como Hamilton, Alonso (com mais de 40 anos e ainda com gasolina no tanque), Verstappen, Lando Norris e Antonelli atraem a atenção. O Drive to Survive ajudou muito nesse processo ao contar as histórias da F1 com contornos de drama e novela. Fazendo um paralelo entre 2020 e 2026, você percebe uma diferença na reação das redes sociais e no público? Percebo uma presença maior de um público mais jovem e feminino nos últimos anos , muito por causa do Drive to Survive . Nas redes sociais, o público utiliza a plataforma como segunda tela para acompanhar a cronometragem e interagir. Também observo a formação de fandoms com rivalidades acaloradas entre os torcedores dos diferentes pilotos. O que o Antonelli tem que outros pilotos jovens não têm, além do carro da Mercedes? O carro é um fator fundamental, mas me impressiona a capacidade do Antonelli de se adaptar rapidamente às mudanças. Ele se mostrou muito consistente, maduro e inteligente. Mesmo em corridas onde não tinha condição de vencer ou quando largava atrás por punições, mantinha a constância e conquistava resultados importantes pro campeonato. Ele esteve no pódio em quase todas as corridas que terminou e é o campeão da temporada de maneira incontestável. Narrar Fórmula 1 dentro de um estádio de futebol foi a coisa mais maluca que já te aconteceu? Já narrei uma luta de boxe de dentro de um quarto de hotel, mas narrar F1 de dentro de um estádio de futebol em Cleveland — enquanto o Luciano Burti estava em São Paulo e a Mariana Becker em Mônaco — foi realmente maluco e sensacional graças ao trabalho magnífico da nossa equipe de tecnologia. Em 2026 completam-se 35 anos da primeira vitória do Ayrton Senna em Interlagos (1991). O que você lembra daquela vitória e qual a relevância do Senna para a sua paixão pela Fórmula 1? Assisti àquela corrida em uma TV portátil de 5 polegadas. Daquelas de portaria, sabe? A minha TV tinha queimado. Foi emocionante e épico, especialmente ao saber no dia seguinte que ele fez as últimas voltas apenas com a sexta marcha. Sobre minha paixão, eu aprendi a gostar de corridas independentemente da presença de brasileiros. Quando o Senna morreu em 1994, continuei acompanhando a Fórmula 1 duas semanas depois no GP de Mônaco, porque gostava do esporte em si. Copa do Mundo, Olimpíada e o GP de SP de F1: por furarem bolhas na TV aberta, você precisa ser mais didático? Sem dúvida. Na TV fechada (SporTV/Premiere) podemos aprofundar em números, mas na TV aberta adaptamos a linguagem para algo mais acessível a um público variado. Muitas vezes eu me coloco no papel do espectador curioso em casa, provocando o Luciano Burti ou a Mariana Becker para que eles expliquem aspectos técnicos de maneira simples. Como você consegue se situar na transmissão da Fórmula 1 com aquela montanha de dados? É o esporte mais desafiador para fazer com a ‘bola rolando’. Preciso acompanhar a imagem principal, a torre de cronometragem, os tempos de volta, o mapa da pista, o desgaste dos pneus e o sistema de inteligência artificial que transcreve os rádios das equipes. É um grande trabalho em equipe da nossa transmissão, como uma corrida de revezamento. Tem alguma coisa mais difícil do que narrar a largada de uma corrida de Fórmula 1? A largada é a parte mais crítica, me dou o direito de acelerar nas palavras no ritmo de rádio! Ao contrário de esportes de bola única, na Fórmula 1 há disputas ocorrendo simultaneamente em vários ponto s do grid. Tento memorizar as posições na volta de apresentação para narrar a largada acompanhando todos ao mesmo tempo. Obviamente o pessoal vai lá buscar as primeiras posições, eu já vou assim: ‘o que aconteceu com o Bortoleto? Audi largou mal de novo?’ E aí já tentar ficar de olho na posição dele. É tudo muito rápido. É alucinante, é caótico, mas é muito divertido. Assista à íntegra da entrevista abaixo: