Uma traça
Havia uma traça. Não uma traça dessas que atacam casacos de lã. Havia uma traça. Não uma traça dessas que atacam casacos de lã e deixam lembranças em forma de buracos. Era uma que acabou culta. Viveu décadas dentro de um exemplar de Ulysses, de James Joyce, instalado na biblioteca de um apartamento
Havia uma traça. Não uma traça dessas que atacam casacos de lã. Havia uma traça. Não uma traça dessas que atacam casacos de lã e deixam lembranças em forma de buracos. Era uma que acabou culta. Viveu décadas dentro de um exemplar de Ulysses, de James Joyce, instalado na biblioteca de um apartamento silencioso, onde o pó era patrimônio e os livros eram mais lidos pelos insetos do que pelos humanos. Ela começou jovem, roendo com discrição as bordas das páginas, mas logo percebeu que aquele não era um livro comum. Ulysses exigia dedicação. Não bastava mastigar; era preciso compreender. Então, enquanto comia trechos inteiros, foi assimilando fluxos de consciência, monólogos interiores, referências mitológicas e notas de rodapé escritas por críticos ainda mais confusos do que o próprio autor. Em pouco tempo, a traça sabia o livro de cor. E não apenas o romance, mas também os ensaios, as críticas e até aquela introdução quilométrica que ninguém lê, mas finge que conhece. O dono da biblioteca, por sua vez, era um escritor anônimo. Daqueles que dizem "estou escrevendo um romance" há quinze anos e, quando perguntados sobre o que é, respondem "é uma investigação sobre a linguagem". Dormia cercado de livros, acreditando que a simples proximidade com eles já o tornava culto. Até que, numa noite quente, dormindo de boca aberta, recebeu a visita inesperada da traça. Ela entrou. Simples assim. Sem pedir licença. Instalou-se confortavelmente em algum ponto entre a laringe e o estômago. No dia seguinte, o homem acordou diferente. Ao escovar os dentes, comentou consigo mesmo que aquele jato de água tinha algo de homérico. No café da manhã, citou um neologismo de Joyce sem saber por quê. À tarde, já explicava para um amigo, com voz segura, por que Ulysses não é difícil, "apenas exige entrega". A transformação na vida do escriba anônimo não demorou. Convites surgiram. Palestras. Mesas-redondas. Festivais literários. Na Flip, falava com paixão sobre a Dublin dos Bloom. Em Frankfurt, explicava o modernismo irlandês com sotaque de quem nunca saiu de São Paulo, mas parecia ter morado a vida inteira dentro de um pub irlandês. O público ouvia extasiado. Alguns anotavam. Outros fingiam compreender. Todos respeitavam. O que ninguém sabia é que, em certos momentos, o palestrante dava uma leve tossida antes de responder perguntas mais complexas. Era a traça. Ela falava por ele, usava a boca do homem como alto-falante, cuspia erudição com a naturalidade de quem já roera aquilo tudo antes. O sucesso foi tanto que o homem começou a acreditar que o conhecimento era dele. A traça, ofendida, resolveu sair fora. Escolheu outra noite, outra boca aberta. Na manhã seguinte, o ex-especialista acordou vazio. Tentou reler Ulysses. Não passou da segunda página. Hoje, ele dá palestras sobre Paulo Coelho. E dorme de boca aberta, esperando que a erudição volte. Até agora, só entrou mosquito.