Esquerda e direita à brasileira
Quando um objeto, um costume ou uma lei sai de uma sociedade e se difunde para outra, os povos que receberam tais novidades, inevitavelmente, delas se utilizam com um forte sotaque. Os antropólogos difusionistas discutiram essas adoções: algumas são rejeitadas e outras assimiladas, mas nenhuma escap
Quando um objeto, um costume ou uma lei sai de uma sociedade e se difunde para outra, os povos que receberam tais novidades, inevitavelmente, delas se utilizam com um forte sotaque. Os antropólogos difusionistas discutiram essas adoções: algumas são rejeitadas e outras assimiladas, mas nenhuma escapa dos sotaques locais. Todas as instituições exógenas estão sujeitas a esses sotaques locais. É o caso das relações de trabalho doméstico, fortemente marcadas pelo sotaque do período da escravidão, e da própria República brasileira. É o caso da maneira como tratamos os nossos empregados domésticos, fortemente marcada pelo sotaque que permeava os relacionamentos entre senhores e escravizados africanos - como transformar escravizados em empregados domésticos legalmente livres, cuja lealdade já não decorre da condição de escravizados, mas da relação entre cidadãos, em um sistema republicano? Quando, em um golpe, o Brasil passou de uma monarquia familística para a impessoalidade e imparcialidade das disputas políticas institucionais, o antigo sotaque monárquico passou a ser uma parte permanente do ambiente político nacional. É esse sotaque que comanda a fuga fantasiosa do perdedor bolsonarista para os Estados Unidos e é ele que estrutura o salvacionismo lulopetista voltado para os chamados pobres. À medida que o sistema republicano adotou a divisão entre esquerda e direita, essa polaridade foi personificada por figuras públicas, o que dificulta a sua consolidação institucional. É o que vemos na alta magistratura brasileira, que representa esse sotaque principesco e aristocrático. O aparecimento de elos pessoais canibaliza ideologias e projetos coletivos. A falta de separação entre o espaço privado e o mundo público faz com que propostas ideológicas e compromissos eleitorais sejam tratados como questões meramente pessoais. Não adianta muito falar em esquerda e direita como dois planetas distantes quando, na realidade, uma nebulosa de simpatias e favores pessoais permeia essas oposições. Resumo da ópera: enquanto não tivermos o discernimento de perceber e criticar o nosso sotaque aristocrático e relacional, que idealiza as leis, mas as realiza por meio de corporativismos e simpatias pessoais, continuaremos a viver num sistema em que o “legal” e o pessoal se acasalam numa aliança que geralmente termina em grossa corrupção. Assim é a nossa vida brasileira de ideologias absolutamente perfeitas e de relações pessoais amorosas, regadas a um bom uísque e impolutos charutos que vorcarianamente seduzem procuradores-gerais da República. Volto a insistir: valha-nos Deus.