O que a anestesia geral revela sobre nosso cérebro?
Pesquisas recentes mostram que anestésicos não apenas anulam a consciência, mas alteram a conectividade neural e ajudam a explicar como o cérebro gera a percepção humana
Embora a anestesia geral seja empregada diariamente em procedimentos cirúrgicos para suprimir a dor e a consciência, estudos neurocientíficos recentes indicam que o cérebro sob efeito desses compostos não permanece simplesmente inativo. As investigações revelam que os anestésicos alteram padrões de conectividade entre redes neurais e expõem mecanismos fundamentais sobre como a estrutura física do cérebro produz a experiência consciente. Perda da “impressão digital” neurológica Em estado de vigília, cada indivíduo apresenta um arranjo único de conectividade funcional entre os neurônios, que atua como uma impressão digital neurológica . No entanto, um estudo publicado na revista científica Nature Human Behaviour monitorou pacientes sob efeito de substâncias como propofol e sevoflurano por meio de ressonância magnética funcional (fMRI). Os pesquisadores observaram que, sob anestesia geral profunda, os cérebros perdem essa identidade individual e passam a exibir um padrão de conectividade altamente padronizado e semelhante entre si. Essa redução na diferenciação ocorre principalmente em redes de nível superior, a exemplo da rede de modo padrão e da rede frontoparietal , associadas ao processamento de pensamentos subjetivos. Nem sono profundo, nem coma: um estado cerebral distinto Embora seja comum o uso da metáfora do “sono” para tranquilizar pacientes antes de uma cirurgia, a neurociência demonstra que os estados biológicos são diferentes. Uma pesquisa da Escola de Medicina de Yale, divulgada na revista PNAS , utilizou eletroencefalogramas de alta densidade (EEG) para mapear as ondas cerebrais sob anestesia. O levantamento confirmou que a anestesia geral induz um estado neurológico singular, que reúne características observadas no sono e no coma. Enquanto o sono natural é composto por ciclos dinâmicos, os agentes anestésicos forçam o cérebro a oscilar em ondas lentas estabilizadas (como as ondas delta e alfa ), o que interrompe a troca de informações complexas entre as áreas corticais. Processamento de estímulos sem percepção consciente Mesmo durante a inconsciência induzida, o cérebro mantém a capacidade de captar estímulos externos em circuitos profundos. Cientistas do Baylor College of Medicine utilizaram sondas de alta precisão (Neuropixels) para registrar a atividade elétrica de neurônios individuais em pacientes cirúrgicos anestesiados. Os testes mostraram que o hipocampo , estrutura ligada à consolidação da memória, permanece ativo e responde a estímulos auditivos e frases faladas no ambiente. O cérebro sob anestesia chega a acionar mecanismos de codificação preditiva na tentativa de antecipar palavras. Contudo, como as vias de comunicação cortical global estão bloqueadas, tais dados não atingem a percepção consciente e não são convertidos em memórias após a recuperação do paciente. Leia Mais: McDonald’s tem lucro líquido de US$ 2,49 bilhões no terceiro trimestre Centros de coleta de sangue são alvos de ataque hacker na França Advogada morta: testemunhas revelam relação com ameaças e perseguições Avanços na segurança cirúrgica e no estudo da consciência O mapeamento detalhado da ação dos anestésicos contribui diretamente para o aprimoramento da prática médica. Além de permitir o aperfeiçoamento da segurança dos procedimentos cirúrgicos , a compreensão desses processos auxilia os pesquisadores na investigação de uma das perguntas centrais da neurociência: como o cérebro físico constrói a experiência subjetiva da consciência. *Publicado por Beto Souza da CNN Brasil