Sua próxima receita médica pode não ter remédio, mas um encontro com amigos – e isso é ótimo

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Imagine sair do consultório médico e receber uma receita que não tem remédio. Na receita está escrito: “Caminhe com outras pessoas duas vezes por semana.” Ou: “Entre para um grupo de jardinagem.” Outra opção: “Faça uma atividade artística.” Parece estranho? Pois isso já existe. O nome é prescrição s

Imagine sair do consultório médico e receber uma receita que não tem remédio. Na receita está escrito: “Caminhe com outras pessoas duas vezes por semana.” Ou: “Entre para um grupo de jardinagem.” Outra opção: “Faça uma atividade artística.” Parece estranho? Pois isso já existe. O nome é prescrição social . A ideia é simples: profissionais de saúde podem conectar pacientes a atividades e recursos da comunidade que não são tratamentos médicos tradicionais, mas que podem contribuir para saúde e bem-estar. Há várias possibilidades: arte, voluntariado, jardinagem , grupos culturais, atividades comunitárias e, principalmente, exercício físico . Em março de 2026, a Organização Mundial da Saúde ( OMS ) anunciou um novo centro colaborador dedicado justamente ao desenvolvimento e à implementação de políticas de prescrição social. E o Reino Unido, que está mais avançado nessa área, já tem mais de 3.300 profissionais chamados de “ link workers” : são aqueles que fazem justamente essa ponte entre o paciente e os recursos disponíveis na comunidade. Mais de um milhão de pessoas são encaminhadas para serviços de prescrição social por ano por lá. Sabe qual é uma das coisas que mais me chama atenção nessa história? Exercício. Porque, quando a gente fala em prescrição social, não estamos falando simplesmente “vá fazer alguma coisa para se distrair”. O exercício consegue juntar duas coisas que a gente costuma tratar separadamente: movimento e convivência. Estamos falando de colocar alguém em uma caminhada em grupo, uma aula de dança, um grupo de corrida, uma aula coletiva, um projeto esportivo do bairro, uma atividade ao ar livre. A ciência já vem estudando esse caminho. Estamos falando de uma estratégia que tenta resolver uma coisa que eu vejo o tempo inteiro: às vezes, a pessoa sabe que precisa se movimentar, até porque já recebeu a orientação do médico, mas não consegue transformar essa informação em comportamento. É aí que a prescrição social fica interessante. Pense em uma mulher que está sedentária, se sente sozinha, trabalha o dia inteiro e chega em casa sem disposição para nada. O cansaço, a vergonha e a falta de contexto e de companhia podem inviabilizar a prática de 30 minutinhos de exercício. Agora, imagine essa mesma mulher entrando em um grupo de caminhada do bairro. Na primeira semana, ela vai pela saúde. Na segunda, porque tem gente esperando por ela. Na terceira, porque já sabe quem vai estar lá. Depois, começa a caminhar mais rápido, se anima a continuar porque está vendo progresso. Faz amizades, conversa e se distrai. Assim, aquele momento que antes era uma obrigação vira o “descanso” no dia. Percebe a diferença? O exercício deixa de ser uma tarefa e começa a virar parte da vida. E isso, para mim, é muito poderoso. Porque quando alguém começa a treinar, a primeira mudança pode até aparecer no corpo. Mas não necessariamente é a mais importante. A pessoa pode começar a dormir melhor, ganhar disposição, se sentir mais capaz, ocupar espaços que antes evitava e, principalmente, criar novas relações. A verdade é que muitos indivíduos começam um exercício por causa do corpo e permanecem por causa das outras pessoas. A importância do vínculo na prática de atividade física Eu vejo isso muito em aulas coletivas. A pessoa chega querendo perder peso e, algum tempo depois, fica preocupada de faltar à aula porque as amigas vão perguntar onde ela estava. E talvez essa seja uma das melhores “estratégias de adesão” que existem. Não porque alguém ficou fiscalizando você: mas porque agora existe um vínculo. E vínculo muda comportamento. A gente costuma falar de exercício como se fosse uma atividade completamente individual: coloque o tênis, faça seu treino, cumpra sua meta, marque o aplicativo e pronto. Só que o ser humano não funciona tão bem assim. A gente é influenciado pelo ambiente, pelas pessoas ao redor e pela sensação de pertencimento. A própria OMS inclui exercício, grupos de caminhada, atividades culturais, jardinagem e outras ações comunitárias entre os exemplos de prescrição social, ressaltando que a proposta faz parte de uma visão mais ampla de saúde, e não uma intervenção isolada. Levando para o lado da minha profissão: o exercício pode entregar muito mais do que calorias gastas e músculos trabalhados. E isso não significa diminuir a importância dos benefícios físicos. Muito pelo contrário. A atividade física regular está relacionada a benefícios cardiovasculares, metabólicos, funcionais e de saúde mental . O que a prescrição social acrescenta é uma questão diferente: “Como eu faço essa pessoa chegar até o exercício e permanecer nele?” Porque prescrever exercício no papel é fácil. Fazer com que ele caiba na vida real é outra história. Hoje, as academias, as aulas de dança e os grupos de caminhada funcionam também como pontos de encontro, principalmente para quem perdeu vínculos sociais ou simplesmente não tem mais tantos espaços de convivência na vida adulta. E isso é muito mais relevante do que parece, já que a amizade adulta exige oportunidade. E atividade física cria justamente essa oportunidade. Sem perceber, o exercício começa a fazer parte não só do seu corpo, mas da sua vida. Talvez por isso eu goste tanto dessa ideia de prescrição social. Ela tira um pouco o foco daquela visão de saúde em que tudo precisa caber em uma receita, em um comprimido, em um exame ou em um número na balança. Às vezes, a intervenção de que uma pessoa precisa pode ser colocar o corpo em movimento e em contato com outras pessoas. Se um dia eu sair do consultório com uma receita dizendo “caminhe com uma amiga duas vezes por semana”, vou achar ótimo. E você?