Presidente do BC do Paraguai renuncia em meio à intervenção e protestos

Por Correio Braziliense — Mundo · Categoria: Internacional ·

Carlos Carvallo deixou o cargo após a suspensão das atividades do Ueno Bank, que afetou cerca de 3 milhões de clientes

A pressão sobre a condução da crise do Ueno Bank levou o presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), Carlos Carvallo, a apresentar sua renúncia nesta terça-feira (3/11). A decisão ocorreu a pedido do presidente Santiago Peña , após a suspensão das atividades da instituição financeira, que reúne cerca de 3 milhões de clientes e administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos. O caso provocou manifestações na capital paraguaia e passou a ser investigado criminalmente, com oito dirigentes e ex-dirigentes do banco na mira da Justiça. A permanência de Carvallo à frente da autoridade monetária tornou-se alvo de questionamentos devido ao seu histórico profissional. Antes de assumir o comando do BCP, ele havia presidido o Ueno Bank até agosto de 2023, circunstância que alimentou críticas sobre a fiscalização das operações da instituição e suas ligações políticas. Leia também: Cresce 25% o número de brasileiros se mudando para essa cidade do interior com alta qualidade de vida e próxima ao Paraguai Apesar da renúncia, o dirigente não deixará o posto imediatamente. Durante uma entrevista coletiva, ele esclareceu que pretende acompanhar os procedimentos de intervenção até que sejam concluídos. Segundo Carvallo, sua saída busca afastar o Banco Central e a Superintendência de Bancos das disputas políticas e midiáticas desencadeadas pelo episódio, de modo que os órgãos possam exercer suas atribuições sem interferências. A crise atinge uma instituição que conquistou espaço no setor financeiro paraguaio por meio de sua expansão digital. Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o Ueno passou a enfrentar dificuldades após surgirem suspeitas de concessão excessiva de empréstimos a empresas ligadas ao próprio conglomerado. Os questionamentos sobre essas operações se refletiram no mercado financeiro, pressionando os títulos em dólares emitidos pelo banco, com vencimento em 2031, e os papéis da dívida soberana do Paraguai. A repercussão também colocou sob escrutínio a credibilidade do sistema financeiro nacional, considerada um dos fatores que ajudaram o país a atrair investimentos estrangeiros nos últimos anos. Clientes protestam em busca devolução de depósitos O temor de perder o dinheiro depositado no Ueno levou correntistas e aposentados a organizar manifestações em Assunção. Na terça-feira, centenas de pessoas se reuniram no centro histórico da cidade, enquanto outras procuravam atendimento nas agências bancárias, que permaneceram fechadas. De acordo com o jornal paraguaio ABC Color , os protestos nas proximidades do Panteón Nacional de los Héroes começaram pacificamente, mas terminaram em confrontos quando parte dos manifestantes tentou avançar em direção ao Congresso Nacional. A movimentação provocou correria e enfrentamentos com a Polícia Nacional. Leia também: EUA instalam escritório no Paraguai e chegam às portas do Brasil A mobilização também alcançou a Mburuvicha Róga, residência oficial de Santiago Peña, do Partido Colorado. Diante do imóvel, manifestantes responsabilizaram o governo pela situação e exigiram garantias de que os valores aplicados na instituição seriam recuperados integralmente. Alguns participantes chegaram a defender a responsabilização criminal e a prisão do chefe de Estado. Correntistas do Ueno Bank entram em confronto com a polícia durante protesto após a intervenção do Banco Central do Paraguai na instituição, em Assunção, em 3 de novembro de 2026 (foto: Daniel Duarte/AFP) Entre os recursos que motivam maior preocupação estão os depósitos do Instituto de Previsión Social (IPS) e de fundos de aposentadoria. O bloqueio das contas também afetou beneficiários que recebem seus pagamentos pelo Ueno, ampliando a cobrança por esclarecimentos sobre a continuidade dos repasses. O Banco Central assegurou que os pagamentos aos aposentados serão preservados e procurou conter os receios de uma crise mais ampla. Segundo a autoridade monetária, a intervenção tem caráter preventivo e busca proteger os correntistas, sem que os problemas identificados no Ueno representem uma ameaça ao restante do sistema bancário paraguaio. A legislação do país prevê que o Fundo de Garantia de Depósitos cubra valores de até 75 salários mínimos por cliente e instituição financeira. O limite corresponde a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis, equivalentes a R$ 210 mil. A proteção, entretanto, não elimina as preocupações dos depositantes que reivindicam o ressarcimento integral de seus recursos. Suspeitas de irregularidades ampliam crise A situação financeira do Ueno levou o Banco Central a adotar, na segunda-feira (2/11), uma medida aprovada por unanimidade: a abertura de um procedimento de resolução bancária. A decisão foi tomada depois que uma avaliação identificou uma queda acentuada no índice de solvência da instituição, que havia atingido um patamar inferior à metade do mínimo legalmente exigido. Na prática, a medida interrompeu as operações do banco e impediu temporariamente os clientes de movimentar seus depósitos. Desde então, interventores nomeados pela Superintendência de Bancos trabalham na avaliação do patrimônio da instituição, etapa necessária para definir como ocorrerá a restituição dos valores. Além das providências administrativas, o Ministério Público paraguaio solicitou a abertura de uma investigação criminal para esclarecer as circunstâncias que levaram à crise. A Justiça também determinou a prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes do Ueno Bank, incluindo o presidente da instituição, Juan Manuel Gustale, e o empresário Miguel Vázquez, ligado ao grupo controlador. Saiba Mais Mundo Brasileiro de Duque de Caxias vence eleição para deputado na Flórida Mundo Quem eram as 9 vítimas fatais do queda de avião na Flórida Mundo Governo Lula impõe sigilo a documentos do 'pacote de bondades' lançado nas eleições