Latinos nos EUA se preocupam com economia e não com imigração, diz estrategista político
ENVIADO ESPECIAL A AUSTIN, TEXAS - O Texas viveu uma virada histórica nesta madrugada ao eleger os democratas James Talarico para o Senado e Gina Hinojosa como governadora. O mérito vem muito do voto latino. O voto latino nos EUA está cada vez mais ligado a questões econômicas e menos a imigração. E
ENVIADO ESPECIAL A AUSTIN, TEXAS - O Texas viveu uma virada histórica nesta madrugada ao eleger os democratas James Talarico para o Senado e Gina Hinojosa como governadora. O mérito vem muito do voto latino. O voto latino nos EUA está cada vez mais ligado a questões econômicas e menos a imigração. Essa é a avaliação de Mike Madrid, estrategista político e especialista em voto latino. De acordo com ele, a comunidade latina olha mais para o Partido Democrata nestas eleições de meio de mandato por conta da crise do custo de vida no governo do republicano Donald Trump . “Os latinos querem pagar aluguel, ir ao supermercado e pagar menos em gasolina para trabalhar”, diz Madrid, em entrevista ao Estadão . “Eles não formam um bloco eleitoral definido por raça ou etnia, mas sim por questões econômicas”. O estrategista aponta que foi esse o motivo que levou muitos latinos a votar nos republicanos nas eleições de 2024. “Os latinos constituem uma grande parte da classe trabalhadora nos EUA, principalmente em trabalhos braçais e operacionais. Eles são os mais impactados por questões como aumento do preço da gasolina ”. Madrid diz que o voto no Partido Democrata nas eleições de meio de mandato não se deve a algum mérito da legenda . “Ambos os partidos não têm uma agenda para os latinos. É por isso que essa comunidade está se tornando o maior bloco de eleitores indecisos no país. Eles têm cada vez menos afinidade com os partidos”. Confira os principais trechos da entrevista: Qual é a sua percepção sobre as eleições de meio de mandato no que diz respeito aos eleitores latinos? Quais são as preocupações deles neste momento? Todas as pesquisas mostram, por uma margem ampla, que as questões econômicas estão muito mais presentes nas preocupações das pessoas do que as ações do ICE ou as questões de deportações em massa. Isso já é observado há muitos anos. Na verdade, o cenário político é exatamente o mesmo que vimos em 2024, quando Biden e Kamala estavam no governo. Os latinos se incomodavam com abusos no processo de asilo e defendiam um controle mais rigoroso nas fronteiras. Existe uma obsessão em reduzir tudo à questão da imigração, mas os eleitores latinos nunca disseram que esse era o ponto principal. Nós, como comunidade, defendemos uma postura bastante moderada sobre esse tema. Queremos fronteiras seguras. Queremos uma política humana para lidar com a situação e defendemos um caminho para a cidadania. É isso que a maioria dos americanos deseja. Mas, infelizmente, os políticos e a mídia não abrem espaço para esse tipo de debate. Mesmo que todas as pesquisas dos últimos 30 anos — especialmente as dos últimos quatro anos — indiquem isso, ainda existe essa insistência em definir a nossa comunidade apenas pela questão da imigração. Isso não significa que o tema não seja importante; ele é. Mas, de forma alguma, pode ser considerado a prioridade. O tema imigração é mais importante para as gerações que chegaram aos EUA recentemente? Sim e não. É importante para aqueles que desejam um caminho para se tornar cidadão dos EUA. Mas a partir do momento que os latinos chegam à terceira geração nos EUA, essas pessoas passam a defender um controle mais rigoroso das fronteiras. O senhor mencionou em uma entrevista anteriormente a importância dos preços de gasolina e diesel para homens latinos da classe trabalhadora. Muitos deles votaram em Donald Trump em 2024. Poderia comentar esta questão? Os latinos constituem a classe trabalhadora nos Estados Unidos, principalmente em trabalhos braçais e operacionais. O Texas, que é um Estado muito latino, é o Estado com o maior número de caminhões a diesel — veículos de uso pessoal — de todo o país. Há muitas fazendas, muitas obras de construção e muito trabalho braçal que exige capacidade de carga e reboque. Esses veículos possuem um torque maior; um motor a diesel oferece mais torque do que um motor convencional movido a combustíveis fósseis. Portanto, essas pessoas precisam de uma caminhonete para o trabalho. Estamos falando dos latinos da classe trabalhadora — um grupo que está substituindo a classe trabalhadora branca de forma muito rápida. Consequentemente, a alta nos preços dos combustíveis afeta os homens latinos com menos de 30 anos mais do que qualquer outro segmento demográfico. É um grupo com menor probabilidade de ter ensino superior e maior probabilidade de atuar em trabalhos braçais. É muito provável que essas pessoas dirijam camionetes ou veículos que exijam maior torque. Por conta disso, esse mesmo grupo — que, em grande parte, votou em Trump por razões econômicas — pode votar no Partido Democrata neste momento. Estes latinos se tornaram alvo de julgamentos alheios: as pessoas os acusaram de ser racistas, misóginos e machistas porque não votaram no Partido Democrata. Agora, a esquerda não vai chamar eles de racistas ou sexistas porque eles concordam com os democratas. Mas é importante entender que os democratas não resolveram seu problema; eles ainda enfrentam uma dificuldade enorme em relação à classe trabalhadora. Nada mudou. Os índices de aprovação do Partido Democrata não melhoraram em nada desde que perderam esses eleitores que historicamente os apoiavam. Então os latinos não estão retornando ao Partido Democrata por mérito deles, certo? Exato. Há dois anos, muita gente dizia que esses latinos eram autoritários, de direita e queriam líderes fortes. Mas isso não é verdade. Eles querem pagar o aluguel e ir ao supermercado com tranquilidade. Os latinos não formam um bloco eleitoral definido por raça ou etnia; nós formamos um bloco eleitoral definido por questões econômicas. E acredito que, ao longo da próxima década — pelo menos —, esse será o grande desafio para ambos os partidos, até que finalmente compreendam essa realidade. Então Donald Trump conquistou o apoio deles por questões econômicas? Mais do que questões culturais Sim, foi por isso. Mas não existem evidências de que eles estejam se tornando mais republicanos. Nunca houve qualquer evidência de que essas pessoas estivessem se tornando mais trumpistas. Elas só estão se tornando menos democratas. Agora elas vão votar neles porque eles não estão no poder, mas a legenda não fez nada para mudar a opinião dessas pessoas. Eles não têm uma agenda econômica, nem uma solução política para lidar com essas questões. Elas simplesmente não são os republicanos. Existe uma diferença na nacionalidade dos latinos na hora de votar? Existe uma distinção, mas ela não é tão grande. 60% dos latinos nos EUA são mexicanos-americanos. O segundo maior grupo são os porto-riquenhos, que representam 9%. Depois disso vem os salvadorenhos, com cerca de 7%, e os cubanos, com 6%. Os cubanos-americanos são importantes para o Estado da Flórida, mas não tem tanto destaque no resto do país em termos demográficos. Portanto, sim, essas diferenças existem, mas não são realmente significativas. O país de origem, de fato, importa —, mas o critério mais relevante para distinguir as diferenças entre os eleitores latinos é a geração a que pertencem. E sempre foi assim — desde o início do meu trabalho, no início da década de 1990, ficou muito claro: sejam cubanos ou mexicanos, os netos de refugiados cubanos não são tão alinhados ao Partido Republicano quanto seus avós. Da mesma forma, os netos de imigrantes mexicanos no Vale do Rio Grande ou no Vale Central da Califórnia não são tão alinhados ao Partido Democrata quanto seus pais ou avós imigrantes. Portanto, trata-se, em muitos aspectos, de uma história de assimilação nos Estados Unidos; essa tem sido a trajetória tradicional dos imigrantes neste país. O que realmente une esse grupo é a sua condição de classe trabalhadora. Somos um eleitorado definido pela classe econômica e somos muito mais monolíticos do que se imagina. Somos, na verdade, o único segmento de eleitores indecisos e estamos nos movendo na mesma direção. É a primeira vez que vejo cubanos seguindo na mesma direção que os mexicano-americanos, assim como os porto-riquenhos, os dominicanos e os colombianos. Neste momento, todos estão se movendo de forma monolítica contra Trump. O senhor acredita que os latinos estão se identificando menos com os partidos políticos nos EUA? Sim. Nenhum dos partidos está apresentando uma agenda econômica. Nos últimos anos, ambos os partidos mentiram para nós, dizendo que a economia ia bem. Donald Trump, por exemplo, diz que a economia está ótima, que nunca esteve tão boa. Claramente, não está. Em termos quantitativos, não está. Joe Biden fez a mesma coisa. A vida não está ficando melhor — e nós não somos bobos, certo? Nós percebemos. O preço da gasolina está mais alto. O preço de verduras e frutas, também. O aluguel está subindo. Tudo está ficando mais caro, e eles continuam dizendo que não. Mas a verdade é que está, sim. Então ambos têm problemas. O Partido Democrata não apresenta nenhuma agenda econômica para a classe trabalhadora que mude a vida das pessoas de forma significativa. E, no caso do Partido Republicanos, muito menos ainda. O senhor acredita que o Partido Democrata se tornou um partido que não consegue mais se conectar com a classe trabalhadora? Sim. Os latinos não estão nos altos escalões que comandam os partidos. O sistema claramente não está funcionando e os jovens estão dizendo isso. Um exemplo disso é o sucesso da ala socialista do partido. Eles não abordam a questão da identidade racial, falam apenas de classe. James Talarico está fazendo a mesma coisa no Texas. Eu visitei o Texas e perguntei a ele sobre porque a campanha dele está tendo tanto apelo entre os latinos. Ele me disse que esse grupo faz parte de uma geração que teve o sonho americano roubado. É uma resposta fascinante. Se eu tivesse perguntado a Kamala Harris ou a Joe Biden, eles teriam falado sobre a imigração, a questão da fronteira e as deportações em massa. Essa é a retórica tradicional. Mas esses jovens democratas não pensam assim. Não enxergam o mundo sob uma lente racial ou étnica; eles o vêem sob uma lente de classe e geracional. Qual é a sua opinião sobre James Talarico? James Talarico é um ótimo político com uma mensagem que está ressoando com todos. Ele afirma que o problema dos Estados Unidos é uma questão de classe e não de etnia, é uma questão geracional. Isso é algo bem singular dentro do Partido Democrata. É algo novo, necessário e preciso. Acredito que ele captou o momento. Ele realmente entende a situação atual do país. Acredito que ele está redefinindo a política americana, junto com outras figuras democratas como o senador Jon Ossoff e o candidato ao governo de Iowa, Rob Sand. Eles vão transformar o Partido Democrata. O que significaria para os democratas vencer no Texas? É muito importante. E eles precisavam dos latinos para isso. Muitos latinos penderam para a direita nos últimos anos, mas eles podem migrar para o Partido Democrata. Com a vitória de Talarico, o Texas vira um Estado mais interessante e competitivo para as eleições presidenciais de 2028. Ambos os partidos precisam entender que os latinos não querem falar de “guerras culturais”. Essa dinâmica é da população branca, que é mais abastada, e tem o luxo de poder discutir esses temas. Os latinos querem falar sobre a economia e quem vai ajudá-los a pagar o aluguel. O que chama a sua atenção principalmente na forma como Talarico, Ossoff e Sand conversaram com os eleitores? Eles são jovens. São os primeiros de sua geração a alcançar esses níveis mais elevados no governo. É uma mudança geracional. Perguntei isso especificamente a Talarico e ele me respondeu de forma direta que acredita que uma mudança está acontecendo. Trata-se de uma mudança geracional. Os jovens acreditam que o sonho americano foi roubado deles. Rob Sand e Jon Ossoff dizem a mesma coisa. Se eu perguntar isso a Kamala Harris, Gavin Newsom ou a Andy Beshear, eles não vão responder dessa forma. O mesmo vale para Joe Biden; eles não diriam isso. Eles vão falar sobre políticas identitárias e a velha ortodoxia do Partido Democrata. Estamos saindo das políticas baseadas em identidade racial e étnica para políticas baseadas em classe econômica. Eles poderiam ser candidatos a presidência ou vice em 2028? Com certeza. Ossoff principalmente. Talarico vencendo, acredito que haverá muita pressão para que ele continue no Texas, mas eles são estrelas em ascensão do partido porque trazem um discurso diferente. A mensagem deles é distinta — diferente daquela defendida pela geração anterior.