Informações falsas sobre saúde põem pacientes em risco
A desinformação sobre saúde não perdeu força com o fim da pandemia de covid-19. Naquele período, notícias falsas sobre coronavírus, vacinas e tratamentos se multiplicaram. Agora, conteúdos enganosos acerca de outras doenças continuam circulando nas redes sociais, inclusive em vídeos manipulados por
A desinformação sobre saúde não perdeu força com o fim da pandemia de covid-19. Naquele período, notícias falsas sobre coronavírus, vacinas e tratamentos se multiplicaram. Agora, conteúdos enganosos acerca de outras doenças continuam circulando nas redes sociais, inclusive em vídeos manipulados por Inteligência Artificial (IA) e anúncios de produtos com promessas de cura. Um levantamento da Agência Lupa mostra que 87,3% das 764 publicações a respeito do tema analisadas entre 2017 e junho de 2026 foram classificadas como falsas.¹ O resultado integra o estudo Raio-X da Desinformação em Saúde, realizado pelo Observatório Lupa com apoio da Afya, ecossistema de educação e soluções para a prática médica. Durante a pandemia, o volume de publicações verificadas cresceu expressivamente. Em 2020 e 2021, a Lupa checou 452 conteúdos virais sobre saúde, cerca de dez vezes mais que nos três anos anteriores. Nos anos seguintes, ganharam espaço publicações falsas relacionadas a dengue, diabetes, câncer e alimentação. Das estratégias identificadas, a mais frequente foi a utilização de falsa autoridade médica ou científica, presente em 21,59% dos conteúdos. Mensagens alarmistas representaram 17,09%, enquanto 15,74% distorciam estudos e dados. “Um dos maiores desafios é que a informação falsa circula com velocidade e, muitas vezes, é apresentada em uma linguagem simples, emocional e aparentemente convincente. Já a ciência trabalha com evidências, graus de certeza e atualizações constantes. A desinformação não é apenas um problema de comunicação, mas também de saúde, porque pode influenciar decisões dos pacientes e comprometer seus tratamentos”, afirma Gustavo Meirelles, vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya. Dentre as verificações realizadas pela Lupa, o WhatsApp apareceu em 70,5% dos casos, seguido pelo Facebook, com 25,3%, e pelo Instagram, com 7%. Inteligência artificial exige atenção às fontes A busca por respostas sobre sintomas e doenças já inclui ferramentas de IA. Pesquisa realizada pelo Research & Innovation Center, núcleo de pesquisa da Afya em parceria com a Conexa, mostra que 79% dos entrevistados utilizam a tecnologia no cotidiano. Quase metade, (49%) recorre à tecnologia em situações relacionadas à saúde. Entre esses usuários, 66% procuram esclarecimentos sobre sintomas, doenças ou diagnósticos.² “Ferramentas genéricas de IA podem produzir respostas convincentes, mas nem sempre corretas ou adequadas ao contexto clínico de cada pessoa”, afirma Meirelles. Tomar medicamentos por conta própria, interromper uma prescrição ou adiar a procura por atendimento estão entre as consequências de seguir orientações sem avaliação médica. Segundo Meirelles, os médicos devem conversar com os pacientes sobre as respostas obtidas nessas ferramentas, esclarecer eventuais erros e avaliar as dúvidas à luz do histórico clínico e dos sintomas apresentados. Medicamentos falsificados também ameaçam a saúde Redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de comércio eletrônico também são utilizados para divulgar medicamentos de procedência desconhecida, frequentemente acompanhados de promessas de resultados rápidos. Dados do Pharmaceutical Security Institute (PSI) apontam crescimento de 27% nos incidentes de falsificação de medicamentos em 2025.³ Segundo levantamento da AmCham Brasil, marketplaces e comércio eletrônico foram mencionados por 30,4% das empresas pesquisadas entre os canais de ocorrência de pirataria.⁴ O dado não se restringe a medicamentos, mas evidencia a presença do comércio irregular no ambiente digital. As canetas emagrecedoras ilustram a dimensão do problema. De acordo com o Anuário da Falsificação, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), as apreensões de unidades irregulares saltaram de 609, em 2024, para mais de 60 mil, em 2025.⁵ Um produto falsificado não necessariamente contém o princípio ativo anunciado. Também há registros de concentrações inadequadas e substâncias desconhecidas em medicamentos irregulares. “Mesmo quando o produto contém o princípio ativo correto, problemas de armazenamento, transporte e conservação podem comprometer sua qualidade e eficácia”, explica Meirelles. Medicamentos falsificados oferecem riscos de intoxicação, reações adversas e agravamento de doenças. As complicações decorrentes desses produtos, assim como o atraso ou abandono de tratamentos motivados por informações falsas, também aumentam a demanda pelos serviços de saúde. Preços muito inferiores aos praticados habitualmente, vendedores sem identificação, ausência de nota fiscal, lacres violados e informações divergentes sobre lote ou validade são sinais de alerta. A aparência da embalagem, entretanto, não garante a autenticidade. Em caso de suspeita, a recomendação é consultar um farmacêutico e os canais oficiais de vigilância sanitária. O levantamento da Lupa também identificou a exploração comercial de informações falsas. Das 18 verificações relacionadas a essa prática desde 2017, 14 ocorreram a partir de 2022. Em 17 casos, havia oferta de produtos ou serviços, incluindo supostos tratamentos para diabetes. 6 Imprensa e profissionais no combate à desinformação O acesso à informação faz parte da jornada de cuidado. Antes mesmo de chegar ao consultório, o paciente pesquisa sintomas, doenças e tratamentos, e o conteúdo que encontra pode influenciar suas expectativas, dúvidas e decisões sobre a própria saúde. Nesse contexto, a imprensa tem um papel importante na disseminação de informações confiáveis, ao contextualizar evidências científicas, consultar fontes qualificadas e contribuir para que a população compreenda melhor questões relacionadas à saúde. “Os profissionais de saúde não são os únicos responsáveis por combater a desinformação. A imprensa também é uma aliada fundamental para que informações corretas cheguem à população e para que o paciente tenha melhores condições de compreender as questões relacionadas à sua saúde. O acesso a conteúdos de qualidade contribui para qualificar o diálogo entre médico e paciente e para que as decisões sobre saúde sejam tomadas com base em evidências científicas. É por isso que acreditamos na importância de iniciativas como o Focas, que contribuem para formar jornalistas preparados para comunicar a ciência com responsabilidade”, afirma Meirelles. O contato entre futuros jornalistas e especialistas O compromisso da Afya com a formação médica de excelência e com a produção de pesquisas baseadas em evidências científicas também se estende a ajudar a divulgar informações confiáveis de saúde. Como apoiadora do Focas, programa de treinamento de jovens profissionais do Estadão , a instituição recebeu os participantes para uma imersão na área médica, com atividades sobre estudos científicos, prática clínica e comunicação em saúde. Uma das participantes, Bárbara Magalhães destaca o aprendizado sobre como localizar pesquisas, avaliar a credibilidade de revistas científicas e identificar especialistas qualificados. Durante o programa, ela produziu uma reportagem sobre a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e problemas cognitivos. Ao analisar o estudo, precisou distinguir uma associação estatística de uma relação de causa e efeito. “Se você não sabe os critérios para avaliar a qualidade de uma informação científica ou médica, você cai. E se você cai, seu público vai cair também, porque você é a ponte”, afirma Bárbara. Ana Magalhães, também participante do Focas, conheceu diferentes áreas da medicina durante a visita à Afya. A programação incluiu conversas sobre estilo de vida e saúde, cuidados paliativos em comunidades indígenas e atividades com simuladores utilizados na formação médica. Ela também participou de um workshop sobre produção de podcasts com inteligência artificial. “Ao escrever sobre saúde, é preciso ter consciência de que aquela informação vai impactar a vida de muitas pessoas”, afirma Ana. Referências AGÊNCIA LUPA. “Da pandemia aos vídeos com IA, desinformação em saúde repete mecanismos de persuasão”. Observatório Lupa, 19 out. 2026. Disponível em: https://www.agencialupa.org/observatorio/2026/10/19/da-pandemia-aos-videos-com-ia-desinformacao-em-saude-repete-mecanismos-de-persuasao/ . Acesso em: 23 out. 2026. AFYA; CONEXA. Panorama do Uso de IA em Saúde: perspectivas do médico e do paciente. Afya, 2026. Disponível em: https://lp.whitebook.com.br/panorama-ia-em-saude/ . Acesso em: 23 out. 2026. PHARMACEUTICAL SECURITY INSTITUTE (PSI). Incident Trends. PSI, dados de 2025. Disponível em: https://www.psi-inc.org/incident-trends . Acesso em: 23 out. 2026. AMCHAM BRASIL. Impacto Econômico da Pirataria. Apresentação à Câmara dos Deputados, 2026. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-temporarias/externas/57a-legislatura/comissao-externa-para-discutir-os-atos-de-pirataria-e-a-agenda-do-chamado-201cbrasil-legal201d/apresentacoes-em-eventos/14.04.26FabrizioPanziniAMCHAM.pdf . Acesso em: 23 out. 2026. CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA (CFF). “Mercado ilegal de canetas emagrecedoras movimenta bilhões e acende alerta no Brasil”. 28 maio 2026. Disponível em: https://site.cff.org.br/noticia/Noticias-gerais/28/05/2026/mercado-ilegal-de-canetas-emagrecedoras-movimenta-bilhoes-e-acende-alerta-no-brasil . Acesso em: 23 out. 2026. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). “Anvisa alerta sobre falsificação do medicamento Ozempic”. Outubro de 2024. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2024/anvisa-alertasobre-falsificacao-do-medicamento-ozempic-r/ . Acesso em: 23 out. 2026.