Mostra 2026: De repente, 'O Sentido da Vida'

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Mostra 2026: De repente, O Sentido da Vida Por fim, posso colocar um ponto final na 50ª Mostra de Cinema em São Paulo. Foram 51 filmes vistos, ao longo de exatamente um mês de atividade. No ato final da Mostra, a repescagem, vi pelo menos três grandes filmes: A Aventura Sonhada (Alemanha), Diário de

Mostra 2026: De repente, O Sentido da Vida Por fim, posso colocar um ponto final na 50ª Mostra de Cinema em São Paulo. Foram 51 filmes vistos, ao longo de exatamente um mês de atividade. No ato final da Mostra, a repescagem, vi pelo menos três grandes filmes: A Aventura Sonhada (Alemanha), Diário de uma Camareira (Romênia) e O Sentido da Vida (França e Japão). Começo pelo terceiro - e foi o filme que vi por último na Mostra, ontem à noite, num Cinesesc lotado. O público assistiu ao novo filme de Yusuke Hamaguchi em ambiente de silêncio religioso. No final, aplausos. Pelo que vi, senti e ouvi, emocionou muito as pessoas. Na história, uma espécie de clínica em que os internos são tratados não como objetos terminais, mas como seres humanos. A diretora é Marie-Lou (Virginie Efira, estupenda). Ela deseja inovar no relacionamento com essas pessoas, e se dedica a ponto de dormir na clínica e se encontrar à beira do burnout. Casualmente, conhece uma diretora de teatro japonesa, Mari Morisaki (Tao Okamoto), que encena uma peça de teatro em Paris. O encontro vem a calhar. A peça questiona a hospitalização psiquiátrica, usando as ideias do italiano Franco Basaglia. As teses libertárias e antimanicomiais devem muito a Basaglia, nome de referência na crítica ao autoritarismo da psiquiatria. Marie e Mari compõem um par do tipo uma feita para a outra. Não por acaso, as atrizes dividiram a Palma de Ouro de interpretação em Cannes. O filme baseia-se num livro, a troca de correspondência entre uma antropóloga, Maho Isono, e uma filósofa, Makiko Miyano. As duas conversam sobre temas como a vida sob o capitalismo, com a consequente perda da humanidade, a velhice, a doença, a morte, a empatia com os outros, a defesa da subjetividade, a busca de uma vida que faça algum significado, o meio ambiente ameaçado. Também não por acaso, o filme está sendo lançado no Brasil com o título de O Sentido da Vida . É o de que mais carecemos quando temos a percepção de que a vida, mais e mais, vai perdendo significado sob a avalanche cognitiva e sensorial da sociedade contemporânea. Em francês, ficou sendo simplesmente "Soudain" - De repente. Quem for ver o filme (que deve estrear no ano que vem) saberá identificar a razão de ser desse título singelo. Desse modo, o cerne, o centro duro do filme, são algumas longas conversas mantidas pela dupla, em ambientes diferentes. Numa sala da clínica ou, a melhor de todas, caminhando ao longo do cais do rio Sena, em Paris. Devo dizer que O Sentido da Vida não é uma unanimidade, pelo menos no Brasil. Na França, ganhou cinco estrelas de publicações de respeito como o jornal Libération e a revista Cahiers du Cinéma , bíblia dos cinéfilos. Já aqui, ouvi críticos dizerem que essas conversas são artificiais e didáticas. Não me pareceu. Vi um filme que não tem medo da palavra e existe para debater ideias num tempo de crise. Entre essas ideias, a de que o humanismo naufragou e precisa ser resgatado. Mas - e aí reside a contradição - esse resgate é no mínimo problemático no interior de um sistema que visa apenas o lucro, faz o elogio da competição selvagem e entende que o planeta se encontra à sua disposição para ser explorado sem qualquer limite. A tese do crescimento ilimitado está levando à destruição do meio ambiente, o que apenas os negacionistas fingem não ver. No limite, é suicida. A da competição a qualquer preço solapa a base da solidariedade. Então é um filme que, à sua maneira suave, se coloca contra o status quo. É uma obra na contracorrente, escrita e filmada a contrapelo da sociedade atual. Sinto nele ecos de Byung-Chul Han ( A Sociedade do Cansaço ) e Mark Fisher ( Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo ). Tudo isso em suas ideias, e em sua forma também. Explorando longos planos-sequência em que as atrizes desenvolvem suas ideias, sem cortes ou interrupções. Na cadência lenta e pausada, ao longo de três horas e 15 minutos de projeção, recuperando a ideia de que devemos ter controle sobre o nosso tempo e não sermos controlados por ele. Como dizia Antonio Candido, "Tempo não é dinheiro; tempo é o tecido da nossa vida." Minha impressão é que o público ama O Sentido da Vida porque precisa de um filme como esse. Os outros dois que impressionaram bem na repescagem foram A Aventura Sonhada , da alemã Valeska Grisebach, e Diário de uma Camareira , do romeno Radu Jude. Comento ambos no próximo post.