“Libertadores da América” explora a identidade latina por meio do futebol

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Em março de 2008, quando se preparava para acompanhar a transmissão pela TV do jogo entre o time boliviano Real Potosí e o argentino San Lorenzo de Almagro, o escritor e cronista Alejandro Droznes percebeu que o calor de sua cidade, Buenos Aires, contrastava com o frio da localidade boliviana mostra

Em março de 2008, quando se preparava para acompanhar a transmissão pela TV do jogo entre o time boliviano Real Potosí e o argentino San Lorenzo de Almagro, o escritor e cronista Alejandro Droznes percebeu que o calor de sua cidade, Buenos Aires, contrastava com o frio da localidade boliviana mostrado pela TV. “O clima se intrometia diretamente no campo de jogo. Potosi é cidade de planalto enquanto a capital argentina fica ao nível do mar”, pensou o argentino que, a partir daquela partida válida pela Copa Libertadores de América, interessou-se pela relação do torneio com a história do espaço onde aconteciam as partidas. “Meu interesse não era tanto pelas partidas em si, mas pelo que era mostrado no início da transmissão, quando o estádio aparece. E, se for pequeno, é possível ver o que está atrás dele, que é quase uma aula de geografia.” A curiosidade motivou Droznes a acompanhar pessoalmente partidas da Libertadores em diferentes países para identificar como aqueles locais foram importantes na história de independência das nações sul-americanas, ou seja, contar um pouco da história dos verdadeiros libertadores da América. O resultado é Libertadores da América (Pinard), livro em que a geografia inspira uma narrativa que une tempo, história e, claro, futebol. “Para mim, o mais interessante de uma transmissão televisiva não é a partida em si, mas o momento que a antecede.” Entre 2011 e 2018, com o olhar de cronista e alma de viajante, ele percorreu dez cidades (nove sul-americanas, incluindo São Paulo, e uma europeia, Madri) para relembrar, em cada região, episódios relacionados às independências locais e de que maneira isso interferiu na cultura futebolística dos clubes. A viagem começa em Guayaquil, cidade equatoriana cuja posse “foi a primeira disputa de fronteira entre as repúblicas sul-americanas após a declaração de independência”, e para onde o autor viajou para recuperar a história da semifinal entre o time local do Barcelona e o River Plate. “Escolhi as cidades quando era possível que o passado se refletisse no presente e vice-versa”, comenta o escritor, justificando assim a ausência de capitais como Lima e Montevidéu. Ou a inclusão, por exemplo, da pequena Potosí, cidade boliviana que foi abundante em prata e cujo time principal é coadjuvante até mesmo no cenário nacional, apesar de já ter disputado a Libertadores. É bom lembrar que, com exceção do Brasil, que foi colonizado por portugueses, os demais países contaram com líderes de movimentos que libertaram a América do Sul de espanhóis entre os anos 1700 e 1800 - e os mais lembrados são o venezuelano Simón Bolívar e o argentino José de San Martín. As crônicas de Droznes, além das referências históricas, podem também servir como guia turístico. Ao assistir ao jogo do Deportes Iquique, do Chile, por exemplo, maravilhou-se com a imensa duna que rodeia a cidade. Já do estádio do Cienciano (Peru), foi possível admirar as encostas andinas, assim como do Rosário Central (Argentina) possibilitou ver o Rio Paraná. A viagem mais complicada foi para a pequena Yacuiba, no sul da Bolívia, cidade de grande importância histórica para o país por causa da exploração de metais, mas cujos serviços eram tão escassos, o que o obrigou a viajar em vários ônibus locais. Já o estádio mais visitado foi Victor Agustín Ugarte, do boliviano Real Potosí, que deixou uma vívida lembrança em Droznes. “A cor verde do gramado era quase brilhante porque está fincado em uma rocha enorme de muitos quilômetros, onde não cresce quase nada”, justifica ele, reclamando apenas do frio pois, mesmo no verão, a temperatura pode rondar os 3 graus Celsius. Já incluir São Paulo entre os locais visitados foi motivado pela importância do Brasil no torneio. “A cidade é um ponto estranho na história dos libertadores, mas não é uma estranha na Libertadores de América”, diz ele, admirado principalmente com o estádio do Pacaembu, que visitou em junho passado, como convidado da Feira do Livro. O ponto que mais destoa na obra é a presença da cidade espanhola Madri. O motivo é que lá se realizou a final da Libertadores de 2018, quando o River Plate venceu na prorrogação o Boca Juniors. Para Droznes, foi um paradoxo disputar a taça que homenageia aqueles que libertaram o continente justamente no território dos seus antigos governantes. “No capítulo de Madri, que é o último, aconteceu algo que me chamou muito a atenção. Vi uma comoção na rua, fui até lá e encontrei o troféu da Copa Libertadores encostado no asfalto. Na América do Sul, você nunca o veria encostado, muito menos literalmente na rua”, afirma. Serviço Libertadores de América, de Alejandro Droznes Tradução: Luis Reyes Gil Editora Pinard (256 páginas, R$ 99,90)