Ações do Ibovespa: mediana do P/L cai abaixo do nível da pandemia após eleições

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Levantamento da Elos Ayta mostra que a mediana do preço/lucro das ações do Ibovespa caiu abaixo do patamar de março de 2020. Entenda a comparação histórica e os riscos para o investidor.

A forte queda da Bolsa brasileira após o segundo turno das eleições presidenciais levou a mediana do indicador Preço/Lucro (P/L) das ações integrantes do Ibovespa a encerrar outubro de 2026 em 8,86 vezes os lucros anuais, nível inferior aos 9,78 registrados em março de 2020, durante o choque inicial da pandemia . O resultado faz parte de um levantamento da Elos Ayta , que acompanha mensalmente a evolução do indicador desde dezembro de 2019, considerando as ações pertencentes à carteira do principal índice da Bolsa brasileira em cada data. A redução do múltiplo ocorreu em um contexto de forte reversão das expectativas dos investidores. Após a valorização das ações na sequência do primeiro turno, quando o mercado passou a incorporar a possibilidade de uma mudança na condução da política econômica, a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma expressiva reação negativa nos preços dos ativos. A queda das cotações pressionou a relação entre preços e lucros das companhias, contribuindo para a contração dos múltiplos observada no encerramento de outubro. Embora o resultado eleitoral seja o principal acontecimento associado à turbulência recente, a variação exata da mediana também depende da evolução dos lucros e da composição da carteira. O que significa um P/L de 8,86? O Preço/Lucro é um dos indicadores mais utilizados na análise fundamentalista . Ele relaciona o preço de uma ação ao lucro anual por ação da companhia, permitindo identificar quanto o mercado está pagando por cada unidade de resultado produzido pela empresa. Um P/L de 10, por exemplo, significa que o preço da ação corresponde a dez vezes seu lucro anual. Em uma interpretação simplificada, equivale a dez anos de lucros constantes. Isso não significa, entretanto, que o investidor recuperará necessariamente seu investimento nesse período, uma vez que os resultados podem variar e nem todo o lucro é distribuído aos acionistas . Na literatura financeira, o múltiplo de dez vezes os lucros é frequentemente utilizado como referência didática de avaliação. De maneira geral, múltiplos mais elevados podem refletir expectativas de crescimento dos resultados , enquanto valores menores podem indicar maior exigência de retorno, perspectivas menos favoráveis ou preços relativamente reduzidos . Um P/L baixo, contudo, não significa automaticamente que uma ação esteja barata. A interpretação depende das perspectivas de lucros, dos riscos da empresa e das condições econômicas. No levantamento da Elos Ayta, a mediana de 8,86 representa o valor central da distribuição dos múltiplos das ações integrantes do Ibovespa. Como o cálculo considera inclusive P/L negativos, associados a empresas com prejuízo, o resultado não deve ser interpretado literalmente como um prazo de recuperação do investimento . Os menores múltiplos não ocorreram durante a pandemia Embora outubro de 2026 tenha encerrado com um P/L inferior ao registrado no choque inicial da pandemia, a análise histórica revela que o mercado brasileiro já apresentou múltiplos ainda menores. O ponto mais baixo da série ocorreu em maio de 2022, quando a mediana atingiu 6,95 . Naquele momento, a economia brasileira enfrentava um forte ciclo de elevação dos juros , enquanto o cenário internacional era pressionado pelos efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia, pela inflação global e pelas restrições à atividade econômica chinesa. A Selic , taxa básica de juros, havia alcançado 12,75% ao ano , depois de permanecer em apenas 2% no início de 2021. A rápida elevação do custo do dinheiro aumentou a exigência de retorno dos investidores, criando condições favoráveis à compressão dos múltiplos das ações . Outro momento de avaliação historicamente reduzida ocorreu em dezembro de 2024, quando a mediana recuou para 7,39. O período foi marcado pela deterioração das expectativas fiscais brasileiras, pela valorização do dólar e pela retomada do ciclo de elevação da Selic, que chegou a 12,25% ao ano. Esses dois episódios mostram que os menores múltiplos da série coincidiram com ambientes de juros elevados e maior percepção de risco. Entretanto, não permitem atribuir exclusivamente à política monetária a redução das avaliações . Em outubro de 2026, a mediana de 8,86 ficou aproximadamente 27,5% acima do mínimo de maio de 2022, mas 9,4% abaixo do nível registrado em março de 2020. A comparação revela que a atual precificação das ações brasileiras está distante dos maiores múltiplos observados nos últimos anos, embora ainda não tenha alcançado os extremos inferiores da série. De 17,11 para 8,86: como mudou a avaliação das ações brasileiras A série histórica da Elos Ayta começa em dezembro de 2019, quando a mediana do P/L estava em 14,05. No mês seguinte, janeiro de 2020, o indicador alcançou 17,11, maior valor de todo o período analisado. A chegada da pandemia provocou uma reversão abrupta, levando a mediana para 9,78 em março de 2020. Nos anos seguintes, a trajetória foi marcada por oscilações expressivas, refletindo diferentes ambientes econômicos e mudanças nas expectativas dos investidores. Em fevereiro de 2026, a mediana voltou a superar 12 vezes os lucros, alcançando 12,44, seu maior nível naquele ano, apesar de a Selic permanecer em 15% ao ano. O movimento representou uma recuperação importante em relação aos níveis observados no final de 2024 . Entretanto, essa recuperação perdeu força nos meses seguintes. No final de fevereiro, a escalada militar envolvendo Estados Unidos , Israel e Irã , acompanhada pelas tensões no Estreito de Ormuz , ampliou as incertezas internacionais, pressionando os preços da energia e as expectativas econômicas. Posteriormente, o processo eleitoral brasileiro acrescentou um novo componente de volatilidade, culminando na forte reprecificação das ações após o segundo turno . Entre fevereiro e outubro de 2026, a mediana recuou de 12,44 para 8,86, uma redução de aproximadamente 28,8%. A trajetória evidencia uma mudança expressiva na relação entre preços e lucros das ações integrantes do Ibovespa. Entretanto, a redução do indicador não pode ser atribuída integralmente à queda das cotações, pois também pode refletir alterações nos resultados das companhias e na composição da carteira . Selic e P/L: uma relação importante, mas que não explica tudo A comparação entre a mediana do P/L e a taxa Selic acrescenta uma dimensão relevante ao levantamento. Em janeiro de 2020, quando a mediana atingiu seu máximo de 17,11, a Selic estava em 4,50% ao ano. Em maio de 2022, quando o indicador recuou ao mínimo de 6,95, a taxa básica já havia alcançado 12,75%. Essa relação é compatível com a teoria financeira: juros mais elevados tendem a aumentar o retorno exigido pelos investidores, reduzindo os múltiplos que estão dispostos a pagar pelos lucros das empresas. Entretanto, a trajetória posterior demonstra que essa relação não é automática. Durante parte de 2023 e 2024, a redução da Selic não foi acompanhada por uma recuperação sustentada dos múltiplos. Em dezembro de 2024, mesmo com a taxa básica inferior ao máximo de 13,75% registrado anteriormente, a mediana do P/L voltou a um dos menores níveis da série . O comportamento de 2026 é ainda mais ilustrativo. A mediana alcançou 12,44 em fevereiro, quando a Selic estava em 15%, e posteriormente recuou para 8,86 em outubro, mesmo durante um ciclo de redução dos juros. Essa divergência evidencia a importância de outros fatores na avaliação das ações, como expectativas sobre os lucros, percepção de risco, condições internacionais e acontecimentos políticos . No episódio mais recente, o resultado das eleições presidenciais foi o principal acontecimento associado à forte queda das cotações brasileiras. A revisão das expectativas dos investidores após o segundo turno ajuda a contextualizar a contração dos múltiplos, apesar do movimento de redução da taxa básica de juros. Por que utilizar a mediana em vez do P/L agregado do Ibovespa? Existem diferentes maneiras de calcular o indicador Preço/Lucro de um conjunto de empresas. Uma delas consiste em dividir a soma dos valores de mercado das companhias pela soma de seus lucros líquidos . Outra utiliza os múltiplos individuais ponderados pela participação das ações no índice. Essas metodologias são úteis para avaliar a carteira como um conjunto econômico, mas seus resultados podem ser fortemente influenciados pelas maiores empresas. A Elos Ayta optou por utilizar a mediana dos múltiplos individuais, que identifica o valor central da distribuição sem atribuir maior importância estatística às ações de maior capitalização ou participação no Ibovespa. A metodologia considera todas as ações integrantes da carteira em cada data, inclusive diferentes classes de uma mesma companhia e observações com P/L negativo. Essa abordagem reduz a influência de valores extremos e permite acompanhar a evolução da distribuição dos múltiplos dos ativos que efetivamente integravam o índice em cada período. Por outro lado, como a composição do Ibovespa muda ao longo do tempo, a série não representa necessariamente um conjunto fixo de empresas. Além disso, a inclusão de múltiplos negativos exige cautela na interpretação econômica da mediana. O objetivo do levantamento não é calcular o P/L agregado do Ibovespa, mas oferecer uma perspectiva complementar sobre a evolução histórica da precificação das ações que compõem o principal índice acionário brasileiro. O que o P/L atual revela sobre a Bolsa brasileira? A mediana de 8,86 registrada em outubro de 2026 indica que o múltiplo central das ações do Ibovespa está abaixo da referência tradicional de dez vezes os lucros e do nível observado durante o choque inicial da pandemia. Entretanto, a série histórica mostra que o mercado brasileiro já apresentou avaliações ainda menores, especialmente em 2022 e 2024. A comparação com a Selic também demonstra que os juros, embora relevantes, não explicam isoladamente a evolução dos múltiplos. O comportamento de 2026 reforça essa conclusão: a redução da taxa básica não impediu uma expressiva contração do P/L, em um período marcado por tensões internacionais e pela forte reação do mercado ao resultado das eleições presidenciais. A principal conclusão do levantamento é que o preço que os investidores estão dispostos a pagar pelos lucros das empresas brasileiras muda conforme as expectativas sobre o futuro, os riscos percebidos e as condições econômicas . A redução do P/L pode indicar preços relativamente menores em relação aos resultados atuais, mas também pode refletir perspectivas menos favoráveis para os lucros futuros. Por isso, a mediana deve ser compreendida como um instrumento de análise da precificação das ações, e não como uma indicação automática de oportunidade de investimento . A história dos últimos sete anos mostra que múltiplos reduzidos podem surgir tanto em períodos de crises internacionais quanto em momentos de incerteza econômica doméstica ou mudanças nas expectativas políticas. Em outubro de 2026, a forte reação ao resultado eleitoral acrescentou mais um capítulo a essa trajetória. Metodologia O levantamento da Elos Ayta considera a mediana mensal do indicador Preço/Lucro (P/L) de todas as ações integrantes da carteira do Ibovespa em cada data de referência, entre dezembro de 2019 e outubro de 2026. São consideradas todas as classes de ações pertencentes ao índice, inclusive quando uma mesma companhia possui mais de um ativo na carteira. O cálculo utiliza todos os valores de P/L disponíveis, positivos ou negativos, sem exclusões em função de sua magnitude. A mediana corresponde ao valor central da distribuição dos múltiplos individuais. Diferentemente de indicadores agregados ou ponderados, não atribui maior peso às ações de maior participação no índice. A taxa Selic utilizada na comparação corresponde à taxa básica vigente em cada período, conforme a série histórica das decisões do Comitê de Política Monetária .