GLP-1 em comprimido: para quem é indicado e quais os cuidados ao trocar a caneta pela versão oral

Por Estadão · Categoria: Geral ·

A versão em comprimido do Wegovy (semaglutida), aprovada nesta quarta-feira, 4 , pela Agência Nacional de Vigilância em Saúde ( Anvisa ) para o tratamento da obesidade , pode ser uma alternativa para quem tem receio de agulhas ou dificuldade com as aplicações. Mas especialistas ressaltam que o uso d

A versão em comprimido do Wegovy (semaglutida), aprovada nesta quarta-feira, 4 , pela Agência Nacional de Vigilância em Saúde ( Anvisa ) para o tratamento da obesidade , pode ser uma alternativa para quem tem receio de agulhas ou dificuldade com as aplicações. Mas especialistas ressaltam que o uso do medicamento requer alguns cuidados que precisam ser considerados por aqueles que desejam trocar as canetas pela semaglutida oral. “A ausência de injeções não significa necessariamente maior facilidade de tratamento”, afirma Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso). A semaglutida em comprimidos já existe no Brasil sob o nome Rybelsus, aprovado para diabetes tipo 2. A novidade é a versão oral do Wegovy , com indicação e dose estudadas para obesidade. A dose diária de manutenção aprovada é de 25 miligramas, alcançada após aumento gradual. A indicação contempla adultos com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 ou a partir de 27, quando há pelo menos uma complicação relacionada ao excesso de peso. O tratamento deve ser associado à alimentação, à atividade física e ao acompanhamento clínico. O que muda na rotina? Segundo Hohl, a escolha entre a versão em caneta ou em comprimido depende da rotina, das preferências e das condições de saúde de cada pessoa. O comprimido é de uso diário, enquanto a aplicação injetável é semanal. Além disso, o comprimido deve ser tomado inteiro, pela manhã, em jejum, com até cerca de 120 ml de água. Depois, é necessário aguardar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou administrar outros medicamentos por via oral. “Desrespeitar essas condições pode reduzir a absorção e comprometer a resposta ao tratamento”, alerta Beatriz Atihé Rossi, endocrinologista do Hospital Samaritano Paulista, da Rede Américas. A semaglutida, explica Hohl, é uma molécula de difícil absorção pelo trato gastrointestinal. Para permitir o uso oral, a formulação contém uma substância que facilita sua absorção no estômago. Mesmo assim, apenas uma pequena parcela da dose chega à circulação, e esse processo depende das condições de administração. Isso exige atenção especialmente de quem tem horários irregulares ou já toma outros remédios em jejum. Organizar os horários faz parte da avaliação antes da prescrição. “A melhor medicação não é apenas aquela que apresenta bons resultados nos estudos clínicos, mas também aquela que o paciente consegue utilizar corretamente e manter ao longo do tempo”, afirma Hohl. É possível trocar a injeção pelo comprimido? A mudança precisa ser planejada pelo médico, considerando a dose utilizada, a resposta ao tratamento, os efeitos adversos e a capacidade de seguir as regras de uso do comprimido. “As doses não são diretamente equivalentes em miligramas”, ressalta Hohl. Como a absorção oral é muito inferior à da aplicação sob a pele, os 25 miligramas diários do comprimido não significam maior potência que os 2,4 miligramas semanais da injeção. O momento da transição e a dose devem seguir a bula aprovada no Brasil e a avaliação individual. “Não se deve presumir que todos possam passar diretamente para a maior dose oral”, afirma o diretor da Abeso. Também não é recomendado usar as duas apresentações simultaneamente. Após a mudança, é necessário acompanhar peso, apetite, efeitos gastrointestinais e o controle das doenças associadas. Beatriz lembra que o OASIS 4, principal estudo que sustentou a aprovação , não investigou a troca da injeção pelo comprimido. Seus resultados não garantem a manutenção da mesma resposta após a transição. O comprimido emagrece tanto quanto a injeção? O OASIS 4 avaliou a semaglutida oral de 25 miligramas contra placebo em adultos sem diabetes, com orientação de alimentação e atividade física. O estudo não comparou diretamente as apresentações oral e injetável. Em 64 semanas, a perda média de peso estimada foi de 13,6%, considerando todos participantes, independentemente de terem interrompido a medicação, esquecido doses ou recorrido a terapias adicionais para emagrecer. Outra análise estimou redução de 16,6% caso todos tivessem seguido o tratamento à risca, tomado a medicação continuamente e não tivessem utilizado nenhuma outra terapia de suporte. “Não existe contradição entre os dois números. Eles respondem a perguntas científicas diferentes”, explica Hohl. As médias, porém, não são uma previsão individual de emagrecimento. Quais são os efeitos adversos? Os mais frequentes são náusea, vômitos, diarreia, constipação e desconforto abdominal. No OASIS 4, eventos gastrintestinais ocorreram em 74% dos participantes que receberam semaglutida oral, contra 42,2% com placebo. Em geral, os efeitos foram leves ou moderados. Segundo Hohl, também exigem atenção o risco raro, porém grave, de pancreatite; complicações na vesícula biliar e desidratação. O risco de hipoglicemia merece cuidado sobretudo na associação com insulina ou sulfonilureias. A semaglutida não deve ser utilizada para perda de peso durante a gestação. Beatriz orienta a suspensão pelo menos dois meses antes de uma gravidez planejada e informa que a apresentação oral também não é recomendada na amamentação. Além disso, a alergia à semaglutida impede o uso do medicamento, e quadros como gastroparesia grave precisam ser avaliados. “Tomar o medicamento em comprimido não elimina os riscos relacionados ao seu princípio ativo”, ressalta a endocrinologista.