Eleições legislativas dos EUA e seus impactos para o investidor brasileiro

Por Estadão · Categoria: Geral ·

As urnas brasileiras mal se fecharam e o investidor daqui já precisa olhar para outro calendário eleitoral: as midterms dos Estados Unidos , como são conhecidas as eleições de meio de mandato. Ontem, o país escolheu a nova composição do Congresso e o resultado que reverteu o domínio republicano do p

As urnas brasileiras mal se fecharam e o investidor daqui já precisa olhar para outro calendário eleitoral: as midterms dos Estados Unidos , como são conhecidas as eleições de meio de mandato. Ontem, o país escolheu a nova composição do Congresso e o resultado que reverteu o domínio republicano do presidente Donald Trump pode reverberar nos preços de ações , juros e câmbio no Brasil . Vale a pena se preocupar? Quais são as chances reais de mudança de controle e, principalmente, o que a história sugere para os mercados depois do voto? As midterms recebem esse nome porque ocorrem exatamente no meio do mandato de quatro anos do presidente. A Constituição norte-americana criou ciclos diferentes de propósito: todos os 435 deputados da Câmara são renovados a cada dois anos, enquanto o Senado , com mandatos de seis anos, renova apenas cerca de um terço. Os autores da Constituição buscavam um equilíbrio entre a resposta rápida à opinião pública (Câmara) e a continuidade institucional (Senado). Na prática, isso significa que o controle do Legislativo pode mudar mesmo sem eleição presidencial. Até o fechamento das urnas nesta terça-feira (3) os republicanos comandavam as duas casas por margens apertadas. Para os democratas assumirem a maioria, era necessário ganhar líquido cerca de quatro cadeiras na Câmara e outras quatro no Senado. Conseguiram virar dez assentos na Câmara, sete a mais que o necessário para a maioria, e chegar a 52 senadores, um a mais que o necessário – e ainda podem ampliar a vantagem se vencerem no Alasca. Os mercados de previsão, com dados de final de outubro, já colocavam a chance de vitória democrata na Câmara entre 90% e 92%, e no Senado entre 63% e 67%. A probabilidade de os democratas controlarem as duas casas ao mesmo tempo girava em torno de 60% a 65%. Historicamente, o partido do presidente perde assentos nas midterms . Em média, cerca de 25 na Câmara e de 3 a 4 no Senado desde 1946. Em 17 das 19 eleições de meio de mandato desde 1950, os democratas ou republicanos no poder saíram com menos deputados. A aprovação atual de Donald Trump , segundo a média compilada pelo Silver Bulletin, está próxima de 37%, com desaprovação na casa de 60%. Quando a aprovação fica abaixo de 50%, as perdas costumam ser mais expressivas. O tema que mais pesa entre os eleitores é o custo de vida . Pesquisas como a de Reuters/Ipsos indicaram que mais da metade dos norte-americanos o considera o principal assunto da eleição. A insatisfação resulta de vários fatores combinados: preços de energia e gasolina, inflação de serviços, custo da moradia ainda elevado, contas de luz pressionadas em algumas regiões pela expansão de data centers de inteligência artificial (IA) e uma visão mais negativa da economia, das tarifas e da imigração . Para muitos, o voto funciona como um canal direto de descontentamento. Quando o Congresso trava Com a conquista dos democratas nas duas casas, o cenário mais provável é de impasse legislativo. Aprovar leis de maior porte se torna mais difícil e a agenda do governo enfrentará obstáculos maiores. Mesmo controlando o Congresso, porém, os democratas dificilmente reunirão os dois terços necessários para superar um veto presidencial. O resultado indica mais disputa política , mais ruído e maior recurso a medidas executivas. Do ponto de vista econômico, esse equilíbrio de forças tende a reduzir o ímpeto de expansão fiscal do lado republicano, especialmente com a eleição presidencial de 2028 se aproximando. Ao mesmo tempo, cresce a incerteza sobre temas regulatórios como tarifas, gastos com defesa e regras para inteligência artificial, o que pode influenciar decisões de investimento das empresas. O que os mercados costumam fazer Os anos de midterms normalmente são mais complicados para a bolsa . A incerteza sobre quem vai controlar o Congresso e sobre o rumo da política econômica costuma reduzir o apetite por risco, aumentar a volatilidade e limitar os retornos ao longo do ano. Desde 1931, o desempenho médio do S&P 500 em anos de eleição de meio de mandato fica abaixo do registrado nos demais anos. Depois do resultado, o padrão costuma se inverter. Desde 1950, o S&P 500 registrou alta nos 12 meses seguintes em todas as 19 midterms , com ganho médio de 15,6%, superior à média de qualquer período de 12 meses no mesmo intervalo. O mercado precifica a dúvida antes da votação; quando o resultado se torna conhecido, o prêmio de risco político diminui e as ações tendem a se recuperar. Isso ocorreu tanto em cenários de mudança de controle quanto de manutenção. Mesmo nos anos em que a midterm foi fraca para a bolsa (como 2018 e 2022), o período posterior foi positivo. Em juros e no dólar , não aparece um padrão claro e consistente. A independência do banco central norte-americano, o Federal Reserve (Fed) , a solidez das instituições e o ciclo econômico pesam mais do que o partido que controla o Congresso. Cenários de impasse tendem a diminuir a chance de grandes pacotes de gastos, o que pode ser positivo para os títulos. Em quatro das cinco midterms desde 1962 em que o partido do presidente perdeu a Câmara, os juros de 10 anos caíram nos 12 meses seguintes. No câmbio , o resultado eleitoral raramente é o principal fator; diferenciais de juros, política monetária e crescimento relativo dos Estados Unidos costumam dominar. Instituições e o argumento de longo prazo As instituições norte-americanas foram construídas para funcionar com diferentes combinações de poder. Freios e contrapesos, o veto presidencial e a exigência de maiorias qualificadas tornam transformações radicais difíceis, independentemente de quem controle o Congresso. Os mercados dos EUA já passaram por governos divididos várias vezes; a repetição desse cenário não seria novidade. Entendemos que as eleições no Brasil continuam pesando sobre os mercados e sobre o dia a dia do investidor brasileiro. Ainda assim, vale lembrar que o País não vive isolado: o que acontece nos Estados Unidos influencia diretamente o mercado financeiro local, seja via fluxos, precificação de risco, commodities ou condições financeiras globais. Nesse contexto, o investimento no exterior funciona como uma válvula de escape relevante. Um caminho para diluir o risco e a volatilidade concentrados no Brasil, sem abrir mão de exposição a economias e setores de maior produtividade. Para o investidor brasileiro, o ponto mais relevante continua sendo estrutural . Manter exposição internacional, especialmente a ativos norte-americanos , segue sendo um elemento importante de diversificação. Essa alocação reduz o risco concentrado no Brasil, dá acesso a setores de alta produtividade e oferece o benefício clássico de diversificar. O desfecho das midterms de 2026 não altera essa tese de longo prazo. A experiência mostra que permanecer investido e dar prioridade a fundamentos como crescimento de lucros, trajetória de juros e condições econômicas , costuma render mais do que tentar prever o momento exato do mercado com base no resultado eleitoral. A incerteza de curto prazo existe e merece acompanhamento. As instituições sólidas e o argumento estrutural a favor da exposição internacional, porém, permanecem de pé.