Selic estacionada em 13,75% leva investidor a rever renda fixa e Bolsa; veja onde aplicar agora

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Com a Selic mantida em 13,75%, especialistas analisam oportunidades em CDBs, Tesouro Direto, ações, dólar e fundos imobiliários e apontam os riscos para a carteira.

O investidor precisa rever a carteira depois que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) manteve a Selic , a taxa básica de juros da economia, em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4). Sem novos cortes à vista, especialistas recomendam deixar a maior fatia do dinheiro nas aplicações pós-fixadas , que seguem rendendo bem acima da inflação , e abrir espaço sem pressa para títulos corrigidos pela inflação, dólar e ativos de boa qualidade na Bolsa e nos fundos imobiliários . Os prefixados longos pedem cautela , porque podem perder valor se os juros futuros subirem ainda mais. A pausa encerra o ciclo de cortes iniciado em março, um dos mais suaves desde a criação do sistema de metas de inflação, em 1999. Pesaram na decisão a piora nas expectativas de inflação, a alta do petróleo , o dólar mais caro e as dúvidas sobre as contas públicas após a reeleição do presidente Lula (PT). O Boletim Focus , pesquisa semanal do BC com economistas do mercado financeiro , já projeta a Selic em 12,50% no fim de 2027 , ante 11,75% anteriormente. O Itaú BBA , em relatório divulgado na sexta-feira (30), vai além e prevê a taxa parada em 13,75% durante todo o ano que vem . O banco espera que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) , a inflação oficial do País, chegue a 6,1% e que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça apenas 0,5%. Ou seja, os juros altos devem acompanhar o investidor por um bom tempo. O CDI continua na base da carteira Com a Selic nesse patamar, as aplicações pós-fixadas seguem como a escolha natural para boa parte do patrimônio . Elas acompanham o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) , taxa que anda colada à Selic, e incluem o Tesouro Selic , os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e os fundos de renda fixa conservadores. Segundo Matheus Villela , analista da gestora de patrimônio Aware Investments, esses papéis entregam hoje um ganho próximo de 8,5% ao ano acima da inflação, praticamente sem oscilação de preço. Vanderson Aquino , presidente do Mêntore, enxerga a renda fixa pós-fixada como uma das melhores combinações entre risco e retorno do mercado brasileiro . Para ele, vale manter ali uma parcela relevante do patrimônio, em papéis de boa liquidez e baixo risco de crédito , e montar aos poucos posições em títulos atrelados à inflação, prefixados e ativos de qualidade negociados a bons preços. Ainda assim, ele faz um alerta. “Concentrar toda a carteira no CDI pode significar abrir mão de oportunidades quando o ciclo monetário mudar”, afirma. Nem todo mundo, por outro lado, vê o pós-fixado como porto seguro. Marcelo Freller , estrategista de investimentos do C6 Bank , lembra o período pós-pandemia, em 2021, quando a Selic estava perto de 2% e a inflação disparou. Quem deixou o dinheiro no CDI naquele momento perdeu poder de compra. Hoje os juros estão bem mais altos, mas o raciocínio de Freller segue a mesma linha. Segundo ele, os preços negociados no mercado indicam uma Selic perto de 16% ao longo de 2027, algo que considera pouco provável. Isso porque os juros nesse nível já pesam sobre a dívida pública , quebram empresas endividadas e apertam o orçamento das famílias. Sem novas altas, o câmbio sofreria e a inflação subiria, encolhendo o ganho do pós-fixado. “Ele só vai salvar o cliente se o Banco Central subir rapidamente os juros por um choque de inflação. E eu não acredito que o Banco Central consiga subir os juros, dada a alavancagem que já estamos vendo no Brasil”, diz. Por isso, o estrategista prefere títulos atrelados ao IPCA com vencimento entre um e dois anos , que corrigem o dinheiro pela inflação. “Não adianta ser um IPCA muito longo, porque esses muito longos flutuam conforme o risco Brasil, que pode ainda piorar”, explica. Hora de travar as taxas? A disparada dos juros futuros deixou os prefixados e o Tesouro IPCA+ mais generosos. De acordo com Villela, há prefixados do Tesouro pagando acima de 15% ao ano e títulos atrelados à inflação oferecendo IPCA mais 8% ao ano, um ganho acima da inflação raramente visto na série histórica. Aquino aponta referências para quem quer garantir essas taxas. Para ele, prefixados próximos ou acima de 14% ao ano e Tesouro IPCA+ perto de IPCA mais 7% ao ano já merecem análise . Antes da compra, o investidor precisa comparar vencimentos, a inflação esperada e o risco da marcação a mercado. Esse mecanismo atualiza diariamente o preço dos títulos, e quem vende antes do vencimento pode sair no prejuízo se as taxas subirem ainda mais. Esse risco segue presente. Para Villela, as taxas ficaram mais atraentes, mas o perigo também aumentou. “As taxas subiram justamente porque cresceu a incerteza fiscal e, sem uma sinalização concreta de ajuste nas contas públicas, a curva ainda pode abrir mais”, alerta o analista da Aware. Dessa forma, os dois especialistas sugerem montar a posição aos poucos e com prazos variados , em vez de tentar acertar o pico dos juros. Freller vai na contramão e evita os prefixados neste momento . Segundo ele, se o BC precisar aplicar um choque de juros ainda maior, quem estiver com esses papéis vai perder dinheiro. Como proteger o patrimônio O temor sobre as contas públicas aparece em todas as análises. Pelas contas do Itaú BBA, a dívida bruta deve chegar a 83,1% do PIB neste ano e a 87,9% em 2027 . Para estabilizar essa trajetória, o banco calcula que o País precisaria de um ajuste da ordem de quatro pontos percentuais do PIB, centrado no controle de despesas. “O principal risco para 2027 não está apenas na Selic, mas na confiança sobre a sustentabilidade das contas públicas. Quando a percepção fiscal piora, o mercado exige juros futuros mais altos, o que encarece o capital para toda a economia”, avalia Aquino. Nesse ambiente, o próprio CDI funciona como escudo . Villela explica a lógica. “O pós-fixado não sofre com a abertura da curva. Pelo contrário, se o mercado passar a exigir juros mais altos e a Selic permanecer elevada por mais tempo, ele rende mais”, afirma. O dólar completa a lista de proteções citadas pelos três especialistas. Em momentos de tensão fiscal, o capital estrangeiro deixa o País e a moeda norte-americana sobe, o que ajuda a compensar as perdas nos ativos locais. Freller, inclusive, defende uma fatia maior em fundos cambiais . Aquino acrescenta que a diversificação internacional reduz a dependência da economia brasileira, embora traga oscilações próprias . Ele também sugere menor concentração em títulos de prazo muito longo e cuidado redobrado com o crédito privado , olhando a saúde financeira de quem emite o papel e as garantias oferecidas. Na Bolsa, o endividamento fala mais alto Com juros altos por mais tempo, as empresas que devem muito sentem mais. Freller prefere olhar o nível de alavancagem, ou seja, de endividamento, antes de escolher setores. Companhias de saneamento e energia elétrica , com contratos corrigidos pelo IPCA e demanda estável, costumam atravessar melhor as crises. Já consumo, construção e as empresas muito endividadas tendem a sofrer mais, avisa o estrategista. Villela segue raciocínio parecido. Em uma eventual retomada dos cortes, as maiores beneficiadas seriam as companhias de setores que exigem muito capital , como locação de veículos, logística e concessões de infraestrutura, nas quais o custo da dívida pesa sobre o resultado. A mesma lógica vale ao contrário, e essas empresas ficam mais expostas se os juros seguirem altos . Aquino inclui construção civil, incorporação imobiliária e varejo entre os setores que mais ganham com juros menores, mas faz uma ressalva. “É importante distinguir o efeito macroeconômico da qualidade de cada companhia. Uma Selic menor não corrige gestão ruim nem balanços frágeis”, afirma. Fundos imobiliários pedem lupa Os fundos de investimento imobiliário (FIIs) também entram na conversa. Eles se dividem em dois grupos principais. Os de tijolo são donos de imóveis físicos, como lajes corporativas, galpões e shoppings , e vivem de aluguéis. Já os de papel aplicam em títulos de dívida do setor, como os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) . Para Aquino, os fundos de tijolo começam a merecer atenção , desde que tenham imóveis bem localizados, baixa vacância e preço com desconto justificável. Uma queda futura dos juros tende a valorizar essas cotas. Os fundos de papel com bom crédito e remuneração pós-fixada, por sua vez, continuam interessantes para quem busca renda mensal. “É fundamental examinar devedores, garantias, indexadores e inadimplência . Rendimento alto não equivale a segurança”, alerta. Villela é mais cauteloso com o tijolo . Para ele, a valorização desses fundos depende de uma queda dos juros longos, o que só deve ocorrer com alguma melhora fiscal. Ao mesmo tempo, os títulos do Tesouro atrelados à inflação pagando IPCA mais 8%, sem risco de crédito, tornaram a concorrência com os FIIs bem mais dura. Freller, por sua vez, acredita que a escolha entre tijolo e papel importa menos do que a qualidade do que está dentro do fundo . Imóveis em regiões periféricas devem perder inquilinos, e fundos de papel expostos a empresas endividadas podem sofrer com pedidos de recuperação judicial (RJ) . “Quando a gente tem uma crise, primeiro quem sofre são os ativos de menor qualidade. Então, não depende muito de ser tijolo ou papel, mas sim da qualidade do ativo”, diz Freller. O que pode destravar novos cortes A meta de inflação perseguida pelo BC é de 3% ao ano, com tolerância entre 1,5% e 4,5%. O IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,58% em setembro, e o próprio Copom projeta 5,2% para este ano. Por isso, a volta dos cortes depende de uma combinação de fatores, e o principal deles está em Brasília. “O primeiro sinal concreto será a definição do comando da Fazenda e da equipe econômica. Na sequência, o mercado vai avaliar se haverá um plano crível de controle de gastos e de redução da relação dívida/PIB, e se o arcabouço fiscal será preservado”, diz Villela. Do lado da inflação, os especialistas sugerem acompanhar o IPCA e seus núcleos, que excluem os preços mais voláteis, as expectativas do Focus para 2027 e 2028, o câmbio, os dados de emprego e os comunicados do Copom. Para Aquino, uma desaceleração ordenada da economia pode abrir espaço para cortes, mas um dado mensal isolado não basta. “Juros elevados podem representar uma oportunidade para o investidor, mas representam um custo para o desenvolvimento do país. O verdadeiro avanço econômico será quando o Brasil conseguir remunerar bem o capital sem penalizar quem produz, empreende e gera empregos”, diz.