Copom mantém Selic em 13,75% ao ano; veja como o mercado avalia a decisão

Por Estadão · Categoria: Geral ·

O Comitê de Política Monetária (Copom) optou por manter a taxa de juros brasileira, a Selic , inalterada em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4). A decisão segue o consenso mais recente do mercado, que desde as eleições presidenciais revisou as expectativas para esta reunião de política monetária, p

O Comitê de Política Monetária (Copom) optou por manter a taxa de juros brasileira, a Selic , inalterada em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4). A decisão segue o consenso mais recente do mercado, que desde as eleições presidenciais revisou as expectativas para esta reunião de política monetária, passando a defender maior cautela por parte do Banco Central . No último encontro, em meados de setembro, quando o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, havia a expectativa de que a decisão de novembro trouxesse um ajuste de mesma magnitude. Mas, desde a virada inédita que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no fim de outubro, as expectativas do mercado se deterioraram muito. A Faria Lima vem em um espiral de pessimismo desde então, voltando a precificar uma crise fiscal em meio à falta de medidas voltadas para o ajuste das contas públicas que sejam capazes de reduzir o ritmo do crescimento da dívida no País. Desde as eleições, a curva de juros voltou a abrir, com títulos públicos prefixados voltando a oferecer 15% de retorno ao ano contra 8% de juro real nos IPCA+, reflexo da incerteza fiscal. O Focus também trouxe aumento nas expectativas para o IPCA em todos os anos avaliados, 2026, 2027, 2028 e 2029. O dólar subiu para a casa de R$ 5,40, em um cenário global incerto graças ao choque do petróleo. A certeza sobre um corte de 0,25 p.p saiu do radar e o mercado passou a defender que o Copom fizesse uma pausa no ciclo de ajuste monetário. Assim foi feito. No comunicado, o BC informou que o ambiente externo se tornou mais adverso em função do prolongamento do conflito no Oriente Médio, choque do petróleo, além de uma política monetária mais restritiva nas economias avançadas. “Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities”, escreveu. O BC destacou ainda que, desde a última reunião, as expectativas de inflação para 2026 e 2027 se distanciaram ainda mais da meta de inflação e que o riscos “tanto de alta quanto de baixa” permanecem mais elevados do que o usual. “O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. O Copom decidiu manter a taxa Selic em 13,75% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”, escreveu no comunicado. A decisão pela manutenção da Selic em 13,75% ao ano foi unânime. O BC não deu forward guidance neste comunicado, ou seja, não se comprometeu com os próximos passos da condução de política monetária. Veja a reação do mercado: Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo “A projeção de inflação no horizonte relevante subiu de 3,2% para 3,5%, em razão da piora nas expectativas de inflação, que continuam preocupando, e da incorporação de choques desde a última reunião. Essa piora da projeção de inflação no horizonte relevante é, na nossa visão, um dos principais fatores para a manutenção da taxa. Na nossa visão, a decisão de manter a taxa de juros foi acertada por preservar a âncora monetária em um momento de elevada incerteza . Acreditamos que, na ausência de um ajuste fiscal relevante por parte do governo, a taxa Selic não deve sofrer cortes adicionais nas próximas reuniões." Rodolfo Margato, economista da XP “Na nossa avaliação, essa é a postura desejável em um cenário com incerteza muito acima do habitual, tanto lá fora quanto no ambiente local. A serenidade e a cautela fazem bastante sentido: não se comprometer com as próximas decisões. Agora nós trabalhamos com manutenção da taxa Selic no patamar atual de 13,75% até o final do ano que vem . Na nossa avaliação, o Copom poderá retomar o ciclo de flexibilização monetária caso os ativos financeiros do Brasil se estabilizem e o cenário de inflação melhore, ou mesmo elevar novamente a taxa básica de juros se os fundamentos assim o exigirem. A dinâmica da taxa de câmbio e as perspectivas fiscais para os próximos anos serão fundamentais no ambiente doméstico, assim como, no ambiente global, a observação do conflito no Médio Oriente, a dinâmica dos preços do petróleo e as taxas de juros nas economias avançadas, como Estados Unidos e Europa." Josias Bento, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital “A decisão veio correta, o comunicado veio duro, porém muito coerente com o que estamos passando no momento . O que mais me chamou a atenção foi a piora das expectativas de inflação. O Banco Central está observando uma economia que desacelera, mas, ao mesmo tempo, as projeções de inflação continuam se afastando da meta. Esse é o grande dilema da política monetária brasileira. A frase em que o Comitê diz que seguirá acompanhando a evolução do cenário, para manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta me chamou atenção. Na minha leitura vejo a Selic manter esse patamar de 13,75% até o final do ano. Se não houver uma sinalização de responsabilidade fiscal, podemos conviver com juros elevados nesse patamar por mais tempo ." Beto Saadia, economista-chefe da Nomos “O texto de novembro é mais duro que o de setembro, sem o trecho sobre “magnitude total do ciclo de calibração”. A Selic é descrita como “substancialmente contracionista” e o foco passa a ser “manter a restrição adequada”. O texto também destaca o custo de desinflação gerado pela desancoragem. O balanço de riscos agora tem “assimetria altista” explícita, ou seja, escrita no texto. Os dois riscos novos relevantes são a inflação de serviços e o câmbio persistentemente depreciado. O Copom, inclusive, justifica a manutenção pela atividade mais fraca e por suavizar flutuações do nível de atividade. É a saída para não subir juros, mas o tom não fecha a porta. A frase sobre manter a restrição adequada deixa implícita uma opção de alta se as expectativas piorarem ." Raphael Vieira, head de Investimentos da Arton Advisors “Na nossa avaliação, o Banco Central deverá manter os juros nesse patamar por mais tempo, até que haja sinais mais consistentes de desinflação e reancoragem das expectativas. Para os mercados, a decisão já era amplamente esperada na precificação da curva, porém a decisão reafirma a independência do Banco Central e o mandato do atual presidente , e isso é o mais importante nessa decisão. O tom cauteloso do comunicado, entretanto, tende a manter a pressão sobre os juros futuros, especialmente nos vértices mais longos, e limitar o desempenho dos ativos de risco. O câmbio deve continuar sensível ao cenário externo e às incertezas fiscais domésticas." Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos “O tom do comunicado foi cauteloso e , na nossa visão, indica que a autoridade monetária deverá manter a Selic no atual patamar na última reunião do ano . A mensagem principal é que a manutenção dos juros em patamar restritivo continuará sendo necessária até que haja evidências mais claras de convergência da inflação e das expectativas para níveis compatíveis com a meta.” Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter “Revisamos nosso cenário de Selic para o fim de 2026 para 13,75%, considerando a manutenção da pausa na última reunião do ano em dezembro. Para 2027, os choques inflacionários esperados podem impedir que o Copom retome o ciclo de corte por um período mais prolongado , principalmente se um ajuste fiscal for descartado pelo governo, o cambio continuar depreciando e as expectativas de inflação deteriorando. Por outro lado, caso tenhamos uma maior disciplina fiscal em 2027, a desaceleração da atividade deve impedir que a inflação acelere de maneira generalizada, e o Copom poderia retomar os cortes na Selic no segundo semestre.”