Como a derrota de Trump nas eleições legislativas pode afetar as relações comerciais com o Brasil

Por Estadão · Categoria: Geral ·

A vitória do Partido Democrata na Câmara dos Representantes e no Senado dos Estados Unidos , impondo uma derrota arrasadora ao presidente republicano Donald Trump , abre uma perspectiva favorável para a economia brasileira, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Estadão . Isso não significa que

A vitória do Partido Democrata na Câmara dos Representantes e no Senado dos Estados Unidos , impondo uma derrota arrasadora ao presidente republicano Donald Trump , abre uma perspectiva favorável para a economia brasileira, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Estadão . Isso não significa que o tarifaço imposto aos inúmeros produtos brasileiros, com alíquota cumulativa de até 37,5%, seja revertido. Na avaliação de analistas, o tarifaço continuará sendo negociado entre as autoridades dos dois países. Mas o espaço para novas restrições tarifárias contra as importações brasileiras deve ficar mais restrito, depois do resultado eleitoral americano. O reflexo dos resultados das eleições legislativas no Congresso dos Estados Unidos pode também reduzir a percepção de risco na economia mundial e ter reflexos indiretos na economia brasileira sobre juros , preço do petróleo e inflação, por exemplo. “A leitura inicial é de que esse rebalanceamento de poder nos Estados Unidos deve reduzir a percepção de risco oriunda das ações do governo Trump”, afirma Rafael Cortez, consultor político da consultoria Tendências. Ele observa que Trump será forçado a tomar decisões mais pragmáticas para conter o avanço da “onda azul”, a força dos democratas no poder legislativo. Essas decisões passam pela queda da inflação, fim dos conflitos no Oriente Médio, que podem levar a um recuo do preço do petróleo. Esses movimentos, na análise de Cortez, poderão resultar na redução dos juros nos Estados Unidos, o que abre a perspectiva de corte da Selic no Brasil. Risco Apesar do cenário favorável, o analista alerta para um fator de risco que pode colocar tudo a perder se Trump mantiver uma postura personalista, agravando as tensões entre democratas e republicanos no Congresso americano. Já em relação ao tarifaço, Cortez não vê um movimento forte que atenue o tarifaço e não acredita num aprofundamento da guerra tarifária contra o Brasil. Para Welber Barral, especialista em comércio exterior e sócio da Barral Parente Pinheiro Advogados, o resultado das eleições legislativas nos Estados Unidos não alivia o tarifaço. “Mas vai dificultar para Trump adotar novas medidas ( tarifárias )”, diz ele. Barral lembra que, segundo a Constituição dos EUA, a competência para impor tarifas é do Congresso americano, mas esses poderes foram delegados ao presidente dos Estados Unidos. “Da mesma forma que esses poderes foram delegados, agora eles poderão ser restritos”, prevê o especialista. Ou seja, o Congresso americano poderá aprovar leis ou emendas às leis existentes, limitando o executivo a adotar medidas unilaterais. “Teoricamente, isso melhora a situação para o Brasil, mas não quer dizer que o tarifaço vá cair. Ele continuará sendo negociado”, diz Barral. O especialista observa que a estratégia do governo brasileiro de não negociar concessões ao governo dos Estados Unidos, por conta do tarifaço, acabou sendo correta. No momento atual, segundo ele, o setor privado brasileiro deve ajudar o governo a fazer pressão sobre o Congresso americano e sobre o Judiciário a fim de limitar o poder de Trump de adotar medidas unilaterais. O economista Igor Lucena, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, não acredita que os Estados Unidos irão impor novas tarifas sobre as exportações brasileiras. “Mais fragilizado, sem o comando das duas casas, o governo Trump vai diminuir a sua capacidade ofensiva contra outros países e tenderá a reduzir as sanções por meio de tarifas”, diz Lucena.