Alpine chega em alta a Interlagos, e Argentina articula retorno à Fórmula 1
Interlagos oferece à Alpine uma lembrança do que parecia impossível e uma oportunidade de mostrar o quanto evoluiu. Às vésperas do GP de São Paulo, Pierre Gasly e Franco Colapinto marcaram presença em coletiva nesta quarta-feira (4), na capital paulista, com os olhos na corrida e nas movimentações q
Interlagos oferece à Alpine uma lembrança do que parecia impossível e uma oportunidade de mostrar o quanto evoluiu. Às vésperas do GP de São Paulo, Pierre Gasly e Franco Colapinto marcaram presença em coletiva nesta quarta-feira (4), na capital paulista, com os olhos na corrida e nas movimentações que podem transformar o futuro da equipe e da Fórmula 1 na América do Sul . Enquanto o francês relembrou o pódio duplo conquistado pela escuderia em 2024 e criticou o atual regulamento dos motores, o argentino revelou que representantes de seu país vêm ao Brasil para dar continuidade às conversas por uma etapa local. A prova em Interlagos, vale lembrar, será disputada no domingo (8), às 14h, pelo horário de Brasília. “Os brasileiros me tratam muito bem. É uma corrida perto de casa, com muitos torcedores e também adoro a pista”, destacou Colapinto. Havia, inclusive, no local, um pequeno grupo de argentinos que deixaram de casa o país apenas para assistir à prova em Interlagos e incentivar seu piloto . Para Gasly, o circuito guarda uma das principais recordações de sua passagem pela Fórmula 1. Em 2019, ainda pela Toro Rosso, participou de uma emocionante drag race nos últimos metros com Lewis Hamilton (à época na Mercedes) e levou a melhor, conquistando um segundo lugar. Já em 2024, pela Alpine, sob chuva, o francês terminou em terceiro, atrás do então companheiro Esteban Ocon. Os dois acompanharam o vencedor Max Verstappen no pódio e fizeram a equipe saltar do nono para o sexto lugar no Mundial de Construtores. “Colocar duas Alpines no mesmo pódio parecia impossível. Estávamos tendo uma temporada difícil”, recordou Gasly. “Foi uma corrida maluca, com condições extremas. Terminar em segundo e terceiro foi muito emocionante para nós como equipe”, salientou. Argentina leva a São Paulo ambição de voltar ao calendário A proximidade com a Argentina transforma o GP de São Paulo em uma espécie de corrida em casa para Colapinto. Tanto que a própria Fórmula 1 adicionou o argentino, ao lado de Gabriel Bortoleto e Sir Lewis Hamilton, em seu material de divulgação da etapa nas redes sociais. Todavia, o piloto quer que essa condição deixe de depender da geografia brasileira. “Eu adoraria correr na Argentina. Gostaria de ter a categoria de volta ao nosso país”, afirmou. Colapinto confirmou, inclusive, que representantes argentinos estarão em São Paulo para discutir a possibilidade de um futuro grande prêmio. “Espero que tenhamos um lugar no calendário no futuro.” A movimentação dá sequência a uma articulação que já passou por outras etapas da temporada. O Autódromo Oscar y Juan Gálvez passa por uma reforma para receber a MotoGP, em 2027, e a cidade de Buenos Aires e empresários locais também tentam abrir caminho para a principal categoria do automobilismo mundial. A Argentina não recebe uma corrida de Fórmula 1 desde 1998. Michael Schumacher, pela Ferrari, venceu a prova naquela oportunidade. Em setembro, o presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, manifestou apoio à candidatura argentina, mas ressaltou a necessidade de investimento, instalações adequadas e um plano de negócios viável. Outro obstáculo é encontrar espaço em um calendário abarrotado, com corridas em distintos países. Na coletiva, Colapinto não detalhou a composição da comitiva nem apresentou um prazo para concretizar o retorno da Argentina ao calendário da F1. Seu entusiasmo, contudo, acompanha a mobilização que sua presença no grid provoca entre os hermanos. “Adoramos o que fazemos. Gosto muito de ver como as crianças se inspiram, querem seguir esse caminho e desenvolvem esse amor pelo esporte na Argentina”, disse. Gasly critica regulamento dos motores A conversa sobre o futuro da F1 também passou pelo presente dos carros. Gasly reconheceu que a evolução tecnológica faz parte da categoria, mas deixou clara sua insatisfação com as regras das unidades de potência. “A tecnologia está sempre evoluindo. Não sou um grande fã deste atual regulamento de motores”, afirmou. “Como pilotos, contudo, temos de tirar o melhor proveito do regulamento”, salientou o francês, ganhador do GP da Itália de 2020. Introduzida em 2026, a nova geração ampliou a participação elétrica na propulsão, deu cabo do MGU-H, sistema que recuperava energia associado ao turbo, e adotou combustível sustentável. A mudança veio acompanhada de aerodinâmica ativa, com elementos móveis nas asas dianteira e traseira para adaptar o comportamento dos carros às diferentes situações e condições de pista. A declaração de Gasly expressa desagrado com o conceito, mas o francês não detalhou quais características mais o incomodam. E o descontentamento não é novo. Assim como outros pilotos, Gasly não se mostrou muito feliz com os novos carros. Antes do GP da Hungria, em julho, Gasly comentou que a gestão de energia pode anular o tempo conquistado por um piloto ao atacar as curvas, com a redução da entrega de potência elétrica em outros trechos da volta. O francês também apontou para as oscilações no funcionamento do sistema, que, segundo ele, podem comprometer a volta decisiva da classificação. A avaliação de Gasly, contudo, convive com uma temporada de recuperação da Alpine justamente no primeiro ano desse ciclo técnico. Alpine evolui e supera pontuação de 2025 Os números mostram que a equipe, de fato, avançou consideravelmente. Depois de encerrar 2025 na última posição entre os dez construtores, com 22 pontos, a Alpine chega à etapa brasileira de 2026 em sexto lugar, com 69. É mais que o triplo da pontuação de toda a temporada anterior. Gasly ocupa a décima posição entre os pilotos, com 42 pontos. Colapinto aparece em 12º, com 27. A contribuição dos dois ajuda a sustentar uma campanha competitiva, embora a distância para os primeiros colocados continue expressiva. A título de comparação, a McLaren, quarta no campeonato de equipes, soma 365 pontos. Importante é que a recuperação recolocou a Alpine na disputa no pelotão intermediário. Fazer com que o time se torne candidato frequente a pódios e vitórias ainda demanda outro salto técnico. “Tenho orgulho de correr por uma marca francesa como a Renault, como a Alpine”, afirmou Gasly. “Quando meu empresário me perguntou sobre correr pela Alpine, não pensei duas vezes. Espero que possamos vencer muitas corridas juntos”, declarou o piloto. A continuidade da dupla faz parte dessa empreitada. Gasly tem contrato até o fim de 2028, após a extensão anunciada em 2025. Já Colapinto teve a permanência para 2027 confirmada em agosto deste ano, com o chefão do time, Flavio Briatore, garantindo a manutenção dos titulares na próxima temporada. Elliott, Mercedes e Gucci na próxima fase A estabilidade entre os pilotos vem acompanhada de algumas mudanças nos bastidores. Em setembro, a Alpine anunciou Mike Elliott como principal responsável pela área técnica, encarregado de supervisionar as atividades de engenharia na fábrica de Enstone, no Reino Unido. O britânico retorna à estrutura em que trabalhou entre 2008 e 2012, antes de uma longa, e vitoriosa, passagem pela Mercedes. A contratação adiciona experiência à reconstrução técnica da equipe, que também passou a utilizar unidades de potência e câmbios da Mercedes em 2026. O acordo de fornecimento dos motores vai até pelo menos 2030 e representa uma mudança estrutural para a escuderia do grupo Renault. A parceria oferece acesso a uma unidade de potência que já mostrou capacidade de integrar um conjunto campeão. Kimi Antonelli assegurou o título mundial com a Mercedes ao terminar em terceiro no GP da Cidade do México, no último domingo, tornando-se o campeão mais jovem da história da F1, aos 20 anos. O resultado deixa claro o potencial do equipamento, ainda que o desempenho dependa também de chassi, aerodinâmica e outros pormenores. Na frente comercial, a transformação terá nome e cores novos. A Gucci será a patrocinadora principal a partir de 2027, quando a equipe passará a competir como Gucci Racing Alpine Formula One Team. O acordo prevê a adoção das cores da grife nos carros e amplia a projeção da escuderia para além do público tradicional do automobilismo. Bom frisar que a Alpine vem da costela da Benetton, com claras raízes ligadas ao ramo da moda. Ayrton Senna une gerações em Interlagos Entre as perspectivas para os próximos anos e a pressão por resultados, Gasly também explicou por que a etapa brasileira ocupa um lugar particular em seu calendário — e em seu coração. “O que mais amo é a paixão das pessoas”, disse. “Uma das coisas mais bonitas é ver as pessoas gritando o nome de Ayrton nas arquibancadas, especialmente durante o desfile, a parada dos pilotos”, ressaltou. Ao falar de corridas que marcaram sua relação com Ayrton Senna e o Brasil, o francês mencionou a edição de 1991, em Interlagos. Foi a primeira vitória do tricampeão mundial em casa na Fórmula 1, conquistada após enfrentar problemas no câmbio e completar as voltas finais apenas com a sexta marcha. A conversa sobre os pilotos de outras gerações rendeu uma provocação bem-humorada. “Eles certamente nos venceriam”, disse Colapinto. Gasly rebateu, também em tom de brincadeira: “Nós nem tínhamos nascido”. Para além dos chistes, o francês destacou a admiração pelo brasileiro. “Admiro Ayrton como piloto, mas também como ser humano”, pontuou. Colapinto, por sua vez, resumiu a vida na categoria como “um circo”, antes de deixar claro que não gostaria de estar em outro lugar. “Desde criança, desde o kart, eu queria pilotar na Fórmula 1”, respondeu de modo enfático. Questionado sobre a presença latino-americana no automobilismo, o argentino reconheceu que atravessar o Atlântico continua sendo uma barreira para os jovens da região. “As oportunidades de ir para a Europa não ficaram mais fáceis, mas existem mais chances de chegar lá”, avaliou. “Não à toa, vemos mais pilotos latino-americanos na F1, na F2 e na F3”, comentou. Nas categorias de base, por exemplo, tivemos em 2026 nomes de Brasil, Paraguai, Argentina e México na Fórmula 2. Na F3, competiram Fernando Barrichello e Pedro Clerot (Brasil), Ernesto Rivera e José Garfias (México) e o argentino Mattia Colnaghi. Neste fim de semana, a América Latina terá quatro representantes no grid da F1. Além de Colapinto e dos também nomes usuais Sergio Pérez (Cadillac) e Gabriel Bortoleto (Audi), o brasileiro Rafael Câmara fará sua estreia na categoria pela Haas , em substituição a Esteban Ocon.