A Idade Dourada mantém debate sobre os direitos das mulheres na 4ª temporada
A Idade Dourada é uma série de época ambientada em Nova York, no final do século XIX, quando as relações de poder e os conceitos de elite eram muito diferentes dos atuais. Naquele período, a falta de influência social e econômica impunha limitações ainda mais evidentes à vida das pessoas. Entretanto
A Idade Dourada é uma série de época ambientada em Nova York, no final do século XIX, quando as relações de poder e os conceitos de elite eram muito diferentes dos atuais. Naquele período, a falta de influência social e econômica impunha limitações ainda mais evidentes à vida das pessoas. Entretanto, o que mais chama a atenção é como algumas situações absurdas retratadas na produção continuam encontrando paralelos na realidade . Em sua 4ª temporada, a série mantém essa força e traz novas discussões à tona. O Minha Série participou da coletiva de imprensa da nova temporada de A Idade Dourada e acompanhou o bate-papo com o elenco sobre os rumos de seus personagens, as relações de poder e os desafios de viver em uma sociedade marcada por tantas restrições sociais. A ascensão dos Russell Bertha Russell é conhecida desde a 1ª temporada por ser superprotetora com sua filha, Gladys. A nova temporada retoma essa dinâmica familiar, mas será que Carrie Coon, atriz que interpreta a matriarca, concorda com as decisões de sua personagem? “Estamos em uma época anterior à psicologia, em que não temos o conceito de autoconhecimento. Então, George está levando uma vida sem muita reflexão sobre si mesmo neste momento. Ele está passando por muita coisa e ainda não conseguiu assimilar o que aconteceu com ele. Por isso, não consegue comunicar isso a Bertha. Eu esperava que o tempo curasse todas as feridas, mas este ano descobrimos que não é bem assim. Será necessário muito mais trabalho do que simplesmente deixar o tempo passar. Mas Gladys está muito bem, e Bertha se sente justificada por isso”, contou Coon sobre sua personagem. Morgan Spector, intérprete de George, acredita que, de certa forma, ambos estão certos. Ainda assim, o ator demonstra preocupação com o destino da filha fictícia, especialmente diante das limitações impostas pela época em que ela vive. “Acho que o que Bertha não consegue enxergar é a influência da própria ambição e do seu desejo, dessa sede de poder. Sim, ela tem motivos para se sentir justificada, considerando que o relacionamento entre Gladys e o duque parece ter florescido de uma maneira positiva. Mas também penso naquela cena no barco... (...) Sinto que foi justamente para isso que você entregou sua filha, e não sei... Talvez não tenha sido uma coisa tão boa assim”, refletiu o ator. Carrie Coon, então, complementa: “Acho que foi o século XIX que entregou minha filha a isso.” O atentado sofrido por George no final da temporada anterior também deve provocar mudanças profundas na maneira como o empresário enxerga a própria vida. Depois de quase morrer, ele precisa lidar não apenas com as consequências físicas do ataque, mas também com os problemas familiares que se acumularam. Spector comentou como essas experiências podem afetar a personalidade tão focada nos negócios de seu personagem. “Acho que George está passando por uma reformulação completa da vida. Seu relacionamento com Bertha, se não desmoronou, pelo menos está atravessando um período muito difícil. Ele quase foi morto e também fracassou de maneira catastrófica com a filha. Para George, o relacionamento com Gladys e o relacionamento com Bertha — não tanto o relacionamento com Larry — são fundamentais para a maneira como ele se enxerga como uma boa pessoa. Acho que ele falhou de verdade nessas duas áreas. Sua capacidade de separar as coisas, sendo implacável nos negócios e, ao mesmo tempo, um pai gentil e amoroso em casa, foi por água abaixo”, disse o ator sobre o futuro de George. A maternidade também modifica a maneira como Gladys enxerga a mãe. Para Taissa Farmiga, que dá vida à personagem, ela começa a exigir autoridade e respeito, inclusive dentro da própria família, o que permite uma nova dinâmica entre as duas mulheres. “Acho que é exatamente o que Harry acabou de dizer. Nesta temporada, estamos incorporando os princípios dos nossos pais mais do que nunca. Pela primeira vez, Gladys está se tornando uma mulher que exige autoridade e respeito, inclusive da própria mãe. Acho lindo que elas estejam começando a se entender e que esteja crescendo um respeito mútuo entre as duas. Tornar-se mãe abre os olhos de Gladys para um aspecto completamente diferente da vida, algo em que ela jamais poderia pensar antes, porque era uma criança antes de ter um filho”, refletiu a atriz. Peggy e Marian: mulheres em busca de independência Outra relação importante para compreender as transformações das personagens femininas é a de Peggy Scott (Denée Benton) e Marian Brook (Louisa Jacobson). Enquanto Peggy constrói uma carreira como jornalista em um período no qual poucas mulheres tinham essa possibilidade, Marian observa os exemplos ao seu redor para descobrir qual caminho deseja seguir. A trajetória profissional de Peggy, inclusive, serve de inspiração para a amiga, que também começa a procurar uma maneira de conquistar sua independência. Audra McDonald, intérprete de Dorothy Scott, também comentou sobre a relação entre Peggy e sua mãe. Embora Dorothy sempre tenha sido muito dedicada à filha, a atriz acredita que a personagem precisa aprender a respeitar a autonomia de Peggy e encontrar uma identidade para além da maternidade. “Acho que isso apareceu um pouco logo no início, na primeira temporada, porque Dorothy estava se esforçando muito para manter a família unida, para reuni-la novamente, já que seus integrantes estavam afastados. Peggy e o pai estavam muito distantes um do outro, e nós ainda não conhecíamos toda a história do que havia acontecido. Ao longo da primeira temporada, fomos descobrindo tudo isso”, relembrou McDonald. A atriz reforçou também o contexto histórico em que a série se passa, décadas após a Guerra de Secessão, quando a população negra ainda enfrentava inúmeras barreiras sociais. “De certa forma, Peggy também representa algo que acontecia com os afro-americanos naquela época. Muitas pessoas ouviam: ‘Quando vocês estiverem lá fora, no mundo, estarão representando todos nós. Vocês representam todos nós, queiram ou não, porque é assim que somos vistos. Portanto, precisamos nos apresentar da melhor maneira possível, proteger uns aos outros e apoiar e fortalecer uns aos outros’”, contou a atriz. Já Denée Benton considera que a trajetória profissional de Peggy é uma das características mais interessantes da personagem. Para a atriz, a jornalista representa uma mulher pioneira, que precisa construir o próprio caminho praticamente sem referências e equilibrar as ambições profissionais com a vida amorosa. “Peggy é uma pioneira porque não tem muitas pessoas nas quais possa se inspirar para realizar seus sonhos, e adoro isso. A categoria de mulheres profissionais e trabalhadoras não era algo amplamente estabelecido naquela época. Ou você pertencia à classe trabalhadora ou fazia parte da aristocracia”, contou a intérprete de Peggy. Vale lembrar que A Idade Dourada é exibida em mais de 60 países, se não me engano. E ainda existem muitas culturas e contextos nos quais se assumir não é algo simples. Blake Ritson, intérprete de Oscar van Rhijn em A Idade Dourada. Para Benton, é justamente nessa trajetória que a série encontra um de seus paralelos mais interessantes com a realidade contemporânea. “Acho que, nesta temporada, vê-la tentar equilibrar de verdade o amor e o trabalho se transforma em um conflito muito moderno, com o qual o público vai se identificar. Ela passou por tanta coisa desde a primeira temporada para chegar até aqui. Literalmente, sacrificou sangue, suor e lágrimas”, relembrou a atriz. A trajetória de Peggy também funciona como referência para Marian, que, desde sua chegada a Nova York, procura uma maneira de construir uma vida própria. Louisa Jacobson acredita que a amiga é um dos principais exemplos de independência feminina para sua personagem, especialmente por demonstrar que existe um caminho além do casamento e da maternidade. “Peggy é o exemplo mais próximo que Marian tem de uma mulher que decide assumir o controle da própria vida e fazer algo além de simplesmente ser esposa e mãe. Hoje, isso pode parecer algo como: ‘E daí? Qual é a grande novidade?’. Mas era uma decisão enorme naquela época, especialmente para Peggy. Acho que Marian admira Peggy de muitas maneiras. Ela foi a primeira amiga que Marian fez quando chegou a Nova York. Portanto, foi o primeiro exemplo que ela teve”, contou a atriz. Ela também acredita que sua personagem acaba questionando comportamentos de outras figuras femininas da série, como o casamento de Gladys Russell, que foi praticamente obrigada a aceitar a união com o duque. Marian observa essas situações e reflete sobre os caminhos que não deseja seguir. “Marian vê Gladys sendo praticamente entregue em casamento, de certa forma contra a própria vontade. Ela presencia isso na terceira temporada. Acho que é como acontece quando olhamos ao redor e observamos como as pessoas vivem. Sinto isso como a irmã mais nova da minha família. Você olha para as pessoas e pensa: ‘Quero fazer isso, mas não quero fazer aquilo. Não quero ser um peão da sociedade. Quero ter um propósito na vida e quero ajudar os outros’”, refletiu a atriz. A sexualidade de Oscar e os riscos de vivê-la no século XIX As restrições sociais da época também são fundamentais para compreender a trajetória de Oscar van Rhijn (Blake Ritson). Sendo um homem gay em uma sociedade que criminalizava a homossexualidade e punia quem tivesse sua sexualidade descoberta, o personagem precisa lidar com riscos que ultrapassam os relacionamentos amorosos. Ao comentar a recepção do público à cena que funciona como uma revelação da sexualidade de Oscar na terceira temporada, Ritson destacou que a discussão continua pertinente em diferentes partes do mundo. “Acho que interpretar Oscar, um personagem gay em uma época na qual ser descoberto poderia ter enormes consequências legais e sociais, faz com que a história dele esteja muito ligada ao período histórico. Os riscos eram muito maiores naquela época. Mas fiquei realmente impressionado com a maneira como as pessoas reagiram à cena que, na prática, funciona como a revelação da sexualidade de Oscar, na terceira temporada”, contou o ator. Ritson ainda apontou que A Idade Dourada tem um alcance enorme, algo que muitas vezes acaba sendo desconsiderado quando as pessoas pensam que a série aborda apenas injustiças do passado. “Vale lembrar que A Idade Dourada é exibida em mais de 60 países, se não me engano. E ainda existem muitas culturas e contextos nos quais se assumir não é algo simples. É doloroso e, obviamente, continua sendo ilegal em alguns países até hoje. Portanto, é um tema muito pertinente”, finalizou o ator. Ada e Agnes: quando os papéis se invertem A relação entre Ada (Cynthia Nixon) e Agnes (Christine Baranski) também passa por uma transformação importante. Depois de herdar uma fortuna, Ada assume uma posição de poder que antes pertencia à irmã, acostumada a controlar a casa e as decisões familiares. A inversão provoca situações cômicas, mas também permite explorar como a perda de influência afeta alguém que passou a vida inteira acostumado a comandar. Cynthia Nixon comentou sobre a intimidade construída com Baranski ao longo dos anos e como essa parceria contribui para a dinâmica das personagens. “Se Christine estivesse aqui, ela diria que essas duas são irmãs que viveram juntas por tantas décadas que se tornaram como um casal. E Christine sempre diz isso porque nos conhecemos desde 1983, quando ela interpretou minha mãe — embora fosse jovem demais para o papel na época. Ela sempre diz que a coisa mais difícil de fingir é a intimidade e que nós duas tivemos muita sorte porque já tínhamos essa intimidade antes mesmo de começar”, relembrou a atriz. A inversão de papéis entre as irmãs promete render alguns dos momentos mais interessantes da temporada. Sem o dinheiro e a influência que costumavam sustentar sua posição, Agnes precisa aprender a lidar com uma realidade na qual já não tem o mesmo controle sobre a família. “Ada é, digamos, a pessoa mais emotiva, enquanto Agnes é a pessoa que tem mais autoridade. E, aos poucos, o mundo virou de cabeça para baixo. Uma das coisas mais deliciosas e hilárias que veremos nesta temporada é uma Agnes completamente descontrolada. Ela já não tem sua base de poder, nem seu dinheiro. Por isso, coisas que antes eram relativamente pequenas ganham uma importância cada vez maior, a ponto de ela chegar quase à obsessão, porque uma pequena parte passa a representar o todo”, relatou Nixon. Enid e Oscar são os novos predadores da alta sociedade Enquanto alguns personagens tentam encontrar seu espaço em uma sociedade marcada por regras rígidas, Enid Winterton (Kelley Curran) parece compreender muito bem como utilizar essas convenções a seu favor. A personagem conquistou uma posição privilegiada ao lado de Oscar, e a dupla começa a demonstrar uma visão própria sobre como a elite deveria funcionar. Questionada sobre as motivações de Enid e sua vontade de ascender socialmente, Curran resumiu a questão com uma resposta direta: “Poder. Ela só quer poder”. Em seguida, a atriz explicou que a trajetória da personagem começou em uma situação próxima do desespero, na qual pertencer à alta sociedade significava ter condições de sobreviver e cuidar de si mesma. “Brincadeiras à parte, acho que o mais interessante dessa trajetória é que ela começa em uma situação que está muito próxima do desespero. Se você não faz parte daquela sociedade, está apenas tentando sobreviver. Isso é uma motivação muito forte para conseguir entrar nesse meio e ter condições de cuidar de si mesma. A cada temporada, Enid ascende um pouco mais. Agora, ela conta com todo o apoio do sobrenome Van Rhijn e com um parceiro que é, de fato, seu melhor amigo. É uma trajetória incrível”, contou a atriz sobre a aproximação entre Enid e Oscar. A ascensão de Enid e Oscar também foi resumida por Blake Ritson em uma definição bastante direta: “Acho que eles são os novos predadores de elite da alta sociedade”. Curran concordou com a descrição, e os dois atores brincaram sobre a energia da dupla e a disposição para enfrentar qualquer pessoa que tente atrapalhar seus planos. “Existe uma energia imparável nessa dupla, e isso é muito empolgante. Ficamos pensando: o que eles vão fazer agora? São como fios elétricos, cheios de energia”, comentou Curran. O primeiro episódio da 4ª temporada de A Idade Dourada já está disponível. Novos episódios serão disponibilizados todo domingo, às 22h .