Banco Central não se dobra a pressões políticas e mantém juros com piora do cenário para a inflação
O Banco Central decidiu por unanimidade manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, dez dias após o segundo turno das eleições que garantiram ao presidente Lula mais um mandato . A decisão é amparada pelos dados, já que houve uma forte piora das expectativas de inflação. Mais do que os números do mercado,
O Banco Central decidiu por unanimidade manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, dez dias após o segundo turno das eleições que garantiram ao presidente Lula mais um mandato . A decisão é amparada pelos dados, já que houve uma forte piora das expectativas de inflação. Mais do que os números do mercado, o que pesou foi a projeção do próprio BC, que se afastou ainda mais do centro da meta. A atual diretoria demonstrou, mais uma vez, que não está preocupada com pressões políticas, mesmo após dias de debate em torno de uma tese do economista André Lara Resende que defendia cortes e tabelamento da taxa Selic . A decisão desta quarta colocava o BC diante de um dilema. O órgão poderia reduzir a Selic em 0,25 ponto, com um comunicado duro, que sugerisse pausa. Isso ajudaria a diminuir a insatisfação do presidente Lula. Mas esse caminho teria pouco impacto sobre os juros na ponta e levaria o Copom a gastar energia para não parecer leniente com a mudança no cenário. A opção foi parar com os cortes e ganhar credibilidade. No comunicado que acompanhou a decisão, as estimativas do BC para a inflação aumentaram para todos os anos. A projeção subiu de 5,2% para 5,6% para 2026, de 3,9% para 4,7% para o ano que vem e, o mais importante, saltou de 3,2% para 3,5% no segundo trimestre de 2028, o chamado “horizonte relevante” da política monetária. Esse é o período em que o BC mira a inflação ao decidir os juros, já que o efeito deles sobre os preços leva cerca de um ano e meio para aparecer. Desde a última reunião, o dólar deu um salto de 6,5%, saindo de R$ 5,15 para R$ 5,49, e as projeções do Boletim Focus se deterioraram. Grande parte dessa piora se deveu à vitória de Lula e ao fato de o presidente ainda não ter dado mostras de que pretende fazer o ajuste fiscal. Ao contrário, o que o Partido dos Trabalhadores tem dito é que a agenda do ajuste foi derrotada nas urnas. Dificilmente o pronunciamento de Lula programado para o próximo domingo terá algum efeito sobre as expectativas. Os riscos para a inflação à frente aumentaram. Há a implementação do projeto da escala 5 por 2, que pode pressionar a inflação de serviços, e a entrada em vigor da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) - que, por ora, tem alíquota de 11,3%, acima do esperado e pode encarecer produtos -, além do risco de um novo choque nos preços dos alimentos com o El Niño. No setor de energia, os estados aprovaram, três dias após o segundo turno, aumento do ICMS sobre os combustíveis a partir de fevereiro, com alta de 11% no diesel. Sozinho no combate à alta dos preços, o BC continua sendo a âncora da economia em um cenário de incertezas. Resta saber se Lula irá acordar neste novo mandato e enxergar o Copom como um de seus principais aliados.