Saúde alerta para alta da dengue e tenta retomar vacina Butantan-DV
El Niño deve impulsionar aumento de 20% a 40%; a doença registrou queda no número de casos nos 2 últimos anos
O Ministério da Saúde projeta aumento de 20% a 40% nos casos de dengue em 2027, impulsionado pelo fenômeno climático El Niño . O ministro Alexandre Padilha afirmou que trabalha para retomar o uso da vacina fabricada pelo Instituto Butantan no SUS (Sistema Único de Saúde). As declarações foram feitas em entrevista a jornalistas na 4ª feira (4.nov.2026). A principal justificativa para a alta é a combinação do El Niño com a dinâmica epidemiológica da dengue. A doença registrou queda no número de casos nos 2 últimos anos, o que deixou parte da população sem imunidade contra os sorotipos circulantes. A aplicação da vacina do Butantan, chamada Butantan-DV, foi suspensa em 8 de junho deste ano, depois do registro de 42 casos de reações adversas graves, incluindo 2 mortes. Padilha disse aguardar os resultados das análises sobre a segurança do imunizante antes de decidir sobre a retomada do uso no SUS. Ele não citou prazo. “Nós acreditamos, trabalhamos para isso, torcemos para isso, para que a gente possa ter essa vacina disponível para utilizar. Pelo menos no ano que vem” , afirmou o ministro. Projeções por região Um relatório divulgado pela Fiocruz no início de outubro estimou cerca de 1,5 milhão de casos prováveis de dengue em 2027, sem considerar os efeitos do El Niño. O número é próximo ao registrado em 2025, quando foram contabilizados 1,66 milhão de casos. No cenário de El Niño forte, o mesmo documento estima aumentos mais expressivos entre setembro deste ano e o início de 2027: 49,1% no Nordeste; 68,9% no Norte; 84,9% no Sudeste; 98,4% no Centro-Oeste; e 138,2% no Sul. O relatório não apresenta projeções para todo o ano de 2027 com o fenômeno. Leia a íntegra (PDF – 7 MB). Mesmo sem os efeitos do El Niño, o número de casos em 2027 deve superar o de 2026. Desde janeiro deste ano, o painel do Ministério da Saúde registra 489.197 casos prováveis. Em 2026, a dengue também causou 368 mortes confirmadas, enquanto outras 116 estão em investigação. Padilha apontou diferenças regionais no impacto esperado. “É lógico que ela pode ter intensidade maior em algumas regiões, onde você vai ter maior seca, como no semiárido e na Amazônia” , disse o ministro. Ele acrescentou que a queda de casos nos anos anteriores ampliou a vulnerabilidade da população. “Isso faz com que você tenha populações mais suscetíveis a contrair determinados sorotipos” , afirmou. Situação das vacinas no SUS Com a suspensão da Butantan-DV, o SUS dispõe apenas da Qdenga, imunizante da farmacêutica Takeda, para a vacinação contra a dengue. Em 2024, o ministério comprou cerca de 10 milhões de doses da Qdenga por R$ 1,3 bilhão. O imunizante é oferecido na rede pública a pessoas de 10 a 14 anos e tem registro da Anvisa para a faixa etária de 4 a 60 anos. Padilha afirmou que não há discussão sobre a ampliação do público-alvo na rede pública. A Butantan-DV havia recebido aprovação da Anvisa em novembro de 2025 para aplicação em pessoas de 12 a 59 anos. Em dezembro do mesmo ano, o Ministério da Saúde assinou contrato para a compra de 3,9 milhões de doses por R$ 367,9 milhões. Estudos indicam que a proteção conferida pelo imunizante dura 5 anos. Havia expectativa de ampliar a produção da Butantan-DV para 60 milhões de doses por meio de uma parceria com a empresa chinesa WuXi Vaccines. A fabricação no laboratório estrangeiro, porém, ainda dependia de autorização da Anvisa. A decisão de suspender temporariamente o uso da vacina envolveu o Programa Nacional de Imunizações (PNI), a Anvisa, secretarias locais de Saúde e especialistas. A prioridade da vacinação em massa no SUS ganhou força depois do pico de casos registrado em 2024, quando a dengue causou 6.321 mortes no país. Na mesma entrevista, na 4ª feira (4.nov.2026), Padilha anunciou que levará à COP31 dados sobre a resposta do SUS às mudanças climáticas. Entre as medidas citadas estão a construção de unidades de saúde e hospitais com maior capacidade de armazenamento de água. A conferência climática será realizada de 9 a 20 de novembro, na Turquia.