Como a gestão profissional pode ajudar o pequeno supermercado a enfrentar as grandes redes

Por A Crítica · Categoria: Nacional ·

Com mais de 13 anos de atuação em entidades que representam o pequeno e médio varejo, o administrador Rodrigo Félix defende que indicadores, processos padronizados e equipes bem formadas pesam mais na competitividade do que o tamanho da operação

As grandes redes de supermercados chegam às cidades do interior com poder de negociação, escala de compra e tecnologia que o comerciante local raramente consegue igualar. Diante desse cenário, muitos pequenos empresários concluem que a disputa está perdida antes de começar. A experiência de quem administra o varejo de perto, porém, aponta outro caminho, menos ligado ao porte da empresa e mais à forma como ela é gerida. “O pequeno supermercado não vai ganhar da grande rede no preço de todos os produtos, mas pode ganhar na eficiência”, avalia Rodrigo Félix, administrador da Ortafrutti do Brasil, em Garibaldi (RS), onde responde desde 2013 pelas áreas comercial, operacional e administrativa. Na visão dele, a vantagem do negócio menor está na proximidade com o cliente e na agilidade para tomar decisões, desde que essas decisões sejam baseadas em informação e não apenas na intuição do dono. “Muita empresa pequena só olha o caixa no fim do mês”, diz Félix. Segundo o especialista: “acompanhar a DRE, o custo de cada setor e o giro de estoque com frequência permite corrigir a rota antes que o prejuízo se torne rotina”. O administrador lembra que a grande rede tem departamentos inteiros dedicados a esses números, enquanto no pequeno negócio essa tarefa costuma ficar em segundo plano, engolida pela correria da operação diária. Em um hortifrúti, essa falta de controle custa ainda mais caro. “A perda de perecível é silenciosa, ninguém vê o dinheiro indo para o lixo”, explica. Frutas, verduras e legumes têm vida útil curta, sofrem com manuseio inadequado e perdem valor rapidamente quando ficam expostos por tempo demais. Para Rodrigo Félix, é justamente nessa seção que o pequeno supermercado pode se diferenciar pelo frescor ou perder boa parte da margem sem perceber. “Compra bem feita resolve metade do problema”, afirma o administrador ao falar sobre a relação com fornecedores. Ele defende que o planejamento de compras de perecíveis seja feito com base no histórico de vendas e no comportamento da demanda, e não por impulso diante de uma oferta aparentemente vantajosa. Comprar volume acima da capacidade de venda, alerta, transforma desconto em desperdício. A padronização de processos é outro ponto que, segundo Félix, separa as operações que crescem daquelas que ficam estagnadas. “Processo que só existe na cabeça do dono não é processo”, resume. Ele explica que rotinas claras de recebimento, armazenagem, exposição e controle de estoque permitem que a loja funcione com o mesmo padrão em qualquer turno, além de facilitar o treinamento de novos funcionários. Nesse modelo, o papel dos gerentes e líderes deixa de ser apenas o de apagar incêndios e passa a incluir o acompanhamento de indicadores e a definição de planos de ação. “Sozinho, o pequeno empresário enxerga só a própria loja”, observa Félix, que desde 2018 participa da APEME, a Associação de Pequenas e Médias Empresas de Garibaldi, e do SINDIGÊNEROS de Farroupilha. Para ele, a troca entre empresários da mesma região ajuda a identificar problemas comuns, compartilhar soluções e ganhar força em negociações que, individualmente, seriam desfavoráveis. “O desperdício de perecíveis se repete em qualquer mercado, do interior gaúcho aos Estados Unidos”, comenta o administrador, que atualmente estrutura um projeto de consultoria na Flórida voltado à gestão da cadeia de suprimentos e à redução de perdas de frutas, verduras e legumes em supermercados e distribuidores. Rodrigo afirma que o contato com outra realidade reforça a percepção de que o problema não depende do tamanho do país ou da empresa, mas da maturidade da gestão aplicada em cada etapa, da compra até a gôndola. A disputa entre o pequeno varejo e as grandes redes tende a se intensificar à medida que as grandes operações avançam sobre cidades médias e do interior. Nesse ambiente, o porte deixa de ser o único fator decisivo e a capacidade de gestão ganha peso. Controle de indicadores financeiros, planejamento de compras, padronização de rotinas e formação de lideranças são práticas acessíveis a empresas de qualquer tamanho e podem garantir ao supermercado local não apenas a sobrevivência, mas a chance de crescer com margem saudável e clientes fiéis.