Musculação pode retardar o envelhecimento da pele? O que dizem os estudos
Para quem chegou à meia-idade como eu, a musculação já é uma velha conhecida das recomendações para um envelhecimento saudável. Ajuda a preservar a massa muscular, fortalece os ossos, melhora a saúde metabólica e contribui para a autonomia ao longo dos anos. Mas a ciência começa a investigar um bene
Para quem chegou à meia-idade como eu, a musculação já é uma velha conhecida das recomendações para um envelhecimento saudável. Ajuda a preservar a massa muscular, fortalece os ossos, melhora a saúde metabólica e contribui para a autonomia ao longo dos anos. Mas a ciência começa a investigar um benefício que pode ser mais um incentivo para quem ainda resiste à academia: seus efeitos sobre o envelhecimento da pele. E não estamos falando apenas de melhorar o contorno corporal. Pesquisas sugerem que o exercício pode provocar alterações no organismo capazes de influenciar a estrutura da pele, incluindo processos relacionados à produção de colágeno, proteína fundamental para sua firmeza e sustentação. Uma revisão científica publicada em maio no American Journal of Lifestyle Medicine reuniu estudos sobre a influência de hábitos de vida no envelhecimento cutâneo. Entre os fatores analisados estão alimentação, sono, estresse e atividade física. No caso dos exercícios, as autoras destacam resultados promissores envolvendo a espessura da derme, a manutenção do colágeno e a redução de processos inflamatórios associados ao envelhecimento. O que aconteceu com a pele de mulheres que fizeram musculação Um dos estudos mais recentes foi realizado no Japão e publicado em 2023 na revista Scientific Reports . Os pesquisadores acompanharam mulheres sedentárias, de meia-idade, durante 16 semanas. As participantes foram divididas em dois grupos: um realizou exercícios aeróbicos e o outro, musculação. Ambos treinaram duas vezes por semana. Ao final do período, os dois grupos apresentaram melhora da elasticidade da pele e de indicadores relacionados à sua estrutura. Mas houve uma diferença importante: apenas as mulheres que fizeram musculação apresentaram aumento significativo da espessura da derme. A derme é a camada localizada abaixo da epiderme, rica em colágeno, elastina e outras substâncias responsáveis pela sustentação e elasticidade da pele. Com o envelhecimento, essa estrutura sofre alterações, contribuindo para a perda de firmeza. Para a dermatologista Mariana Muniz, integrante da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), os resultados mostram por que a musculação merece atenção também quando o assunto é envelhecimento cutâneo. “A gente viu uma melhora da qualidade da pele nos dois grupos, mas uma melhora da espessura da pele, que é uma coisa que a gente vai perdendo com o envelhecimento, no grupo da musculação”, explica. Segundo ela, o estudo japonês revela um benefício adicional da musculação, que vai além dos efeitos já conhecidos sobre músculos, ossos e metabolismo. O aumento da espessura da derme é especialmente relevante porque essa camada tende a se tornar mais fina com o envelhecimento, processo que pode se intensificar com a queda do estrogênio na menopausa . Como os músculos podem influenciar a pele? Para entender essa relação, precisamos olhar para uma descoberta importante da fisiologia: os músculos não servem apenas para produzir movimento. Eles também participam da comunicação entre diferentes tecidos e órgãos. “A gente entende hoje que o músculo é praticamente um órgão endócrino, que produz diversas substâncias”, explica Mariana. Entre elas estão as chamadas miocinas, moléculas sinalizadoras que participam da comunicação entre os músculos e outras partes do organismo. Essas substâncias podem circular pelo sangue e influenciar processos metabólicos, inflamatórios e celulares, inclusive aqueles envolvidos na manutenção da pele. “Essas substâncias vão circular no corpo inteiro e provavelmente vão afetar diversas células de diversos tecidos”, afirma a dermatologista. Entre as células que podem responder a esses sinais estão os fibroblastos, responsáveis pela produção de colágeno, elastina e outros componentes da matriz extracelular, estrutura que dá sustentação à pele. A musculação também atua sobre outro mecanismo importante do envelhecimento da pele: a inflamação. Os pesquisadores identificaram alterações em substâncias circulantes que ajudam a regular a inflamação, um dos mecanismos envolvidos na deterioração das células e dos tecidos ao longo dos anos. “É algo bem completo, porque a gente tem melhora dos fatores que ajudam e diminuição dos fatores que pioram a pele”, diz Mariana. A dermatologista destaca também que o impacto não se limita ao rosto. A perda de colágeno e as alterações na espessura da pele acontecem em diferentes regiões do corpo. É nesse contexto que ela faz uma comparação interessante: a musculação poderia funcionar como uma espécie de “bioestimulador de colágeno da pele como um todo”, já que o exercício produz respostas sistêmicas, e não apenas locais. Por que essa descoberta é especialmente importante na menopausa? A relação entre musculação e saúde da pele ganha ainda mais relevância quando olhamos para o que acontece no organismo feminino durante a menopausa. Com a queda do estrogênio, a pele passa por mudanças importantes . Estimativas apontam que a perda de colágeno pode chegar a 30% nos primeiros cinco anos após a menopausa. “A gente tem uma aceleração do processo de envelhecimento da pele com a menopausa”, explica Mariana. A musculação pode substituir os tratamentos dermatológicos? A musculação não substitui os cuidados e tratamentos dermatológicos, como o uso de protetor solar, os tratamentos tópicos e os procedimentos indicados para melhorar a qualidade da pele. Mas pode ser uma importante aliada, atuando de dentro para fora, por meio de mecanismos que influenciam a produção de colágeno e a inflamação. A descoberta reforça uma ideia importante: a saúde da pele não depende apenas do que aplicamos sobre ela. Também é influenciada por processos metabólicos, inflamatórios e hormonais que acontecem em todo o organismo. Portanto, toda ajuda é bem-vinda. E, como observa Mariana, para quem ainda não gosta de musculação, a possibilidade de melhorar também a saúde da pele pode ser um incentivo extra para começar.