EUA e Brasil mostram que o eleitor se cansou das bizarrices da ‘extrema’ direita?
Mesmo com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e o resultado das chamadas midterms americanas, a resposta à pergunta do título exige cautela. Afinal, a “extrema” direita (com aspas porque a expressão é controversa) segue forte em países como Alemanha, França, está no poder nos EUA, em Is
Mesmo com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e o resultado das chamadas midterms americanas, a resposta à pergunta do título exige cautela. Afinal, a “extrema” direita (com aspas porque a expressão é controversa) segue forte em países como Alemanha, França, está no poder nos EUA, em Israel, em quase toda América do Sul, e tem potencial de controlar o Congresso nas nossas plagas, impondo sua agenda. Mas é factível dizer que os recentes resultados eleitorais, aqui e na América do Norte, podem ser interpretados como uma espécie de limite, mesmo que provisório, a uma maneira radical e histriônica de fazer política. A começar pela pauta de movimentos capitaneados pelo bolsonarismo e o trumpismo. Partem de premissas que podem até mesmo ser consideradas fantasiosas. Por exemplo, quando imaginam lutar contra uma grande conspiração internacional esquerdista, às vezes denominada “comunista”, que possuiria o objetivo insidioso de enfraquecer valores tradicionais como os da família, religião e pátria. Diríamos que são teses bastante exageradas. Há também um estilo de fazer política no confronto sem fim. Com o palco permanente das redes sociais, a guerra retórica se torna sem pausas. É preciso, nesse tipo de movimento, buscar sempre um atrito para sobreviver, para servir de oxigênio. No Brasil, é preciso lutar contra o petismo, contra o pessoal que quer as pessoas trans no banheiro, contra a bandidagem na política etc. Nos EUA, os inimigos são os imigrantes ilegais, os países que trapaceiam no comércio internacional, os representantes do sistema. São muitos os moinhos de vento imaginários e reais. A questão, entretanto, é que essa maneira de fazer política é boa em mobilização e ruim em resultados. As tarifas e as guerras de Trump acabaram por piorar a qualidade de vida dos americanos. O governo Bolsonaro, no final das contas, teve mais controvérsias do que resultados. O candidato Flávio Bolsonaro , que quase venceu as eleições, com algum instinto sobre a mudança de ares, tentou até se vender como moderado. Mas bastaram dois debates, com agressões gratuitas ao concorrente, de 80 anos, para revelar sua verdadeira face. Talvez tenha havido um simples cansaço, uma exaustão com essa turma. No Brasil, com a complexidade de uma dupla rejeição. Um primeiro turno plebiscitário contra o governo e o Supremo Tribunal Federal; e um segundo turno plebiscitário contra o bolsonarismo que, ao final, beneficiou o governo e o STF. E quanto à esquerda? Sim, também tem suas características irritantes. No caso do Brasil, por exemplo, uma insistência em modelos econômicos que não dão mais certo ou soluções geniais heterodoxas que nunca foram aplicadas. O negacionismo econômico-matemático segue forte, assusta. A conferir o pronunciamento de Lula , neste domingo, em que talvez coloque os pingos nos is sobre o que fazer com essa questão. Por último, mas não menos importante, a “extrema” esquerda pontuou eleitoralmente com nomes isolados, em geral ligados às chamadas causas identitárias, tanto aqui como nos EUA. Mas sem força ainda para uma vitória majoritária. No Brasil, inclusive, aceitaram se submeter a um comandante condenado pela Lei Maria da Penha, com métodos semelhantes ao outro polo ideológico, para vencerem as eleições.