De Belém a Antália: o legado brasileiro e os desafios da COP-31

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Pela primeira vez na história das COPs, quem sedia a conferência não é quem conduz as negociações. A partir de 9 de novembro, em Antália, a Turquia assume a presidência e a organização do evento, enquanto a Austrália fica responsável por conduzir as negociações. A fórmula inédita aposta na parceria

Pela primeira vez na história das COPs, quem sedia a conferência não é quem conduz as negociações. A partir de 9 de novembro, em Antália, a Turquia assume a presidência e a organização do evento, enquanto a Austrália fica responsável por conduzir as negociações. A fórmula inédita aposta na parceria entre os dois países: um cuida da estrutura, o outro da construção dos acordos políticos. O desafio é transformar em ações concretas os compromissos das conferências anteriores, num mundo que precisa se adaptar, ganhar resiliência e organizar uma transição justa para a economia de baixo carbono. O Brasil chega a Antália com o protagonismo conquistado na COP-30 , realizada em Belém, em 2025, que terminou com 56 decisões aprovadas por consenso. O desafio agora é avançar nas negociações sobre financiamento, adaptação, transição energética e redução de emissões, além de dar continuidade à Agenda de Ação, que mobiliza empresas e outros atores da sociedade. Entre as iniciativas que ganharam força estão três Mapas do Caminho. O primeiro, de Baku a Belém, nasceu na COP-29, no Azerbaijão, e foi desenvolvido conjuntamente pelas presidências das COPs 29 e 30 para orientar a mobilização de pelo menos US$ 1,3 trilhão anuais em financiamento climático para países em desenvolvimento até 2035. Os outros dois, conduzidos pela presidência brasileira fora dos acordos formais da COP-30, tratam da transição para longe dos combustíveis fósseis e do fim do desmatamento até 2030. São agendas complementares, cujo avanço depende de investimentos e de condições para que novas tecnologias e modelos de produção ganhem espaço na economia. Para o setor empresarial, o financiamento é uma das questões mais importantes. Existe capital disponível no mundo, mas nem sempre ele chega aos projetos. O alto custo do dinheiro, a percepção de risco e a dificuldade de preparar iniciativas para receber investimentos ainda limitam o acesso aos recursos, sobretudo nos países em desenvolvimento. Foi para contribuir com esse debate que o Cebds articulou uma proposta brasileira para a implementação do Mapa do Caminho de Baku a Belém, com Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander, apoio técnico da EY e do BNDES. Entregue à presidência da COP-30 no fim de outubro, a contribuição identifica oito barreiras ao financiamento e apresenta recomendações para superá-las. Para atrair capital privado a projetos considerados mais arriscados, por exemplo, propõe ampliar o uso de garantias e recursos públicos que ajudem a reduzir esses riscos. Já no caso de obras de adaptação às mudanças climáticas, que evitam prejuízos, mas nem sempre geram receitas, recomenda incluir medidas de proteção contra eventos extremos nos contratos de concessão de infraestrutura, facilitando seu financiamento. Na COP-31, queremos levar essa experiência ao debate internacional e contribuir para aproximar instituições financeiras, empresas e oportunidades de investimento. Além do financiamento, a Agenda de Ação da COP-31 terá entre suas prioridades o combate às emissões de metano. A presidência turca pretende dar destaque à gestão de resíduos, incluindo a captura do gás gerado em aterros sanitários para a produção de biogás e biometano. É uma oportunidade de reduzir o impacto climático desses gases e, ao mesmo tempo, gerar energia e novos negócios. A eletrificação também terá destaque em Antália. A presidência turca propôs elevar, dos atuais pouco mais de 20% para 35%, até 2035, a participação da eletricidade no consumo final de energia no mundo. Isso significa ampliar seu uso nos transportes e na indústria, com investimentos em redes, armazenamento e infraestrutura, além de garantir energia confiável a custos competitivos. Para o Brasil, que já tem uma matriz elétrica predominantemente renovável, é uma oportunidade de atrair investimentos e fortalecer cadeias produtivas. Essa visão multissetorial está no centro das Coalizões Empresariais para a Descarbonização, coordenadas pelo Cebds desde 2024. A iniciativa mobilizou mais de 270 organizações da agricultura, transportes, mineração e energia elétrica para identificar soluções capazes de reduzir emissões e fortalecer a competitividade brasileira. Em 2026, o trabalho avançou com a integração das quatro agendas. A eletrificação de frotas e equipamentos, por exemplo, depende de investimentos no setor elétrico e em infraestrutura de recarga. Já os biocombustíveis conectam oportunidades no campo, na indústria e nos transportes. Ao atuar de forma conjunta, as coalizões buscam superar obstáculos que empresas ou setores dificilmente resolveriam isoladamente. Os resultados apresentados à presidência da COP-30 em outubro incluem um Núcleo Intersetorial do Clima, com 33 alavancas de descarbonização, 190 indicadores e 100 ações para viabilizar as soluções propostas. Somente as frentes de agricultura, transportes e mineração têm potencial estimado de reduzir cerca de 900 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano até 2050. Mais do que um diagnóstico, essa nova etapa estabelece responsabilidades para os próximos três anos e mecanismos de acompanhamento. É um modelo de cooperação que queremos compartilhar na COP-31, mostrando como a articulação entre setores pode ampliar oportunidades para toda a economia. Além de investimentos e infraestrutura, as empresas precisam de regras claras para planejar suas decisões. Por isso, os mercados de carbono também merecem atenção em Antália, com a expectativa de avanços na implementação dos mecanismos internacionais previstos nos artigos 6.2 e 6.4 do Acordo de Paris, que permitem a cooperação entre países para reduzir emissões. O tema interessa diretamente ao Brasil, que trabalha na regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Definições internacionais sobre transferência de resultados de mitigação, metodologias e integridade ambiental podem contribuir para um mercado nacional confiável, capaz de incentivar investimentos em tecnologias e processos menos intensivos em carbono. Financiamento, infraestrutura e regulação são partes de uma mesma equação. A transição para uma economia de baixo carbono já influencia decisões de investimento, estratégias industriais e a competitividade dos países. A COP-31 acontece quando a janela para cumprir os objetivos do Acordo de Paris está cada vez mais estreita. Reduzir emissões e preparar a economia para os impactos climáticos exige cooperação internacional e condições para que governos e empresas avancem juntos. O Brasil reúne vantagens importantes nessa trajetória, como seus recursos naturais, a matriz elétrica limpa e a capacidade de inovação de suas empresas. Aproveitar esse potencial significa fazer da transição climática uma oportunidade de desenvolvimento, atração de investimentos e fortalecimento da indústria brasileira. É com essa perspectiva que o setor empresarial chega a Antália: disposto a contribuir para que as decisões internacionais encontrem caminhos viáveis na economia real.