Mostra 2026: 'A Aventura Sonhada' e 'Diário de uma Camareira', o cinema que vem do Leste
Mostra 2026: 'A Aventura Sonhada' e 'Diário de uma Camareira', o cinema que vem do Leste Ainda na repescagem, vi A Aventura Sonhada (Alemanha), de Valeska Grisebach, e Diário de uma Camareira (Romênia), de Radu Jade, dois filmes fora da curva, por assim dizer. De Valeska, já havia visto Western (201
Mostra 2026: 'A Aventura Sonhada' e 'Diário de uma Camareira', o cinema que vem do Leste Ainda na repescagem, vi A Aventura Sonhada (Alemanha), de Valeska Grisebach, e Diário de uma Camareira (Romênia), de Radu Jade, dois filmes fora da curva, por assim dizer. De Valeska, já havia visto Western (2017), que deixou boa impressão. Melhor ainda para este A Aventura Sonhada, um filme de fronteira, em vários sentidos do termo. O primeiro, literal, porque se passa na fronteira da Bulgária. Veska, uma antropóloga, presta ajuda a Saïd, um antigo conhecido que teve seu carro roubado. Ela o leva até o sítio arqueológico onde trabalha. Antigas relações vão surgindo, até que uma malha de crimes e cumplicidades acaba se revelando, aos poucos, ao olhar do espectador. É um filme de grandes espaços abertos, fronteiriço também em sua narrativa, com frases que podem ser ameaçadoras, mas insinuam antes de serem explícitas. Todo um microcosmo social se esboça, como uma espécie de teia que, a princípio invisível, vai sendo desenhada aos poucos e se torna mais nítida sem no entanto ser totalmente desenhada. Continua informe. É um filme de mistério, passado nos confins da Europa do Leste. E também de sonho, como diz seu título. Ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Do romeno Radu Jade, a gente pode esperar o melhor (a maioria) e um ou outro insuportável, como seu Drácula, apresentado com grande alarde na Mostra do ano passado. Diário de uma Camareira é um exemplar do Radu "bom", como o de Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021), ganhador do Urso de Ouro em Berlim. Quer dizer, aquele que consegue domar um pouco a imaginação febril, colocando-a a serviço da obra, isto é, do espectador. O título é mais uma adaptação da obra de Octave Mirbeau, de 1900. A mais famosa, e insuperável, é a de Luís Buñuel (1964), com Jeanne Moreau no papel principal. Mas esta de Radu é muito boa. Gianina (Ana Dumitrascu) é uma jovem romena que faz o serviço doméstico em uma casa burguesa em Bordeaux. Ela não se limita a limpar a casa e a tomar conta do garoto Rouen. Aproveita as noites para ensaiar uma peça teatral, inspirada em - adivinhem - Diário de uma Camareira, de Octave Mirbeau. Essa duplicidade funciona como metacinema, ou melhor, como mise-en-abîme, em que uma representação remete a outra e a comenta. Não se sente o artificialismo do dispositivo. Antes, eles se reforçam e enfatizam a condição servil da personagem, em que pese estar trabalhando em uma casa de gente progressista, que não discrimina imigrantes, etc. O próprio teatro põe em cena esse tipo de peça porque defende uma Europa democrática, sem fronteiras, com igualdade de direitos, etc. A sacada de Radu é desvendar o autoritarismo e classismo ocultos nas franjas do discurso liberal. Essa desigualdade se expressa melhor quando Gianina é convocada para cuidar da mãe do patrão (Vincent Macaigne), que sofreu um AVC e está acamada. Acontece que a Gianina já tinha viagem marcada para passar as festas de fim de ano com a filha que ficou com a avó em Bucareste. O filme é um belo e agudo estudo de caso para investigar a desigualdade estrutural instalada na sociedade de classes. A estrutura se oculta e engloba as pessoas, sem que elas se deem conta. Ou talvez percebam e simulem ignorância. A burguesia tem lá suas estratégias de dominação, algumas delicadas, outras brutais, como sabia Mirbeau (1848-1917), um simpatizante do anarquismo.