Se um país se desenvolvesse só gastando mais, não haveria países pobres, diz economista do Goldman

Por Estadão · Categoria: Geral ·

NOVA YORK - O investidor estrangeiro entrou no modo de espera por mais clareza sobre a condução da economia brasileira no novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva . Para o diretor do grupo de pesquisas macroeconômicas para América Latina do Goldman Sachs , Alberto Ramos , a economia tem

NOVA YORK - O investidor estrangeiro entrou no modo de espera por mais clareza sobre a condução da economia brasileira no novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva . Para o diretor do grupo de pesquisas macroeconômicas para América Latina do Goldman Sachs , Alberto Ramos , a economia tem crescido sob o peso de um alto endividamento, que não é sustentável. O engessamento do orçamento federal e o maior poder de decisão sobre o destino de recursos pelo Legislativo nos últimos anos não são motivo para o Executivo não empreender uma melhora na gestão das contas públicas, na avaliação de Ramos. “A responsabilidade é compartilhada, mas a responsabilidade primária de formular e propor a política fiscal é do governo”, afirmou, apontando algumas mudanças necessárias como a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo. Apesar da guinada à direita do Congresso Nacional, Ramos não vê um problema de governabilidade para a gestão Lula 4.0. Ele lembra que, há quatro anos, o Legislativo também tinha caminhado mais à direita e, mesmo assim, o governo petista aprovou vários projetos. Ele prevê a manutenção da Selic até o primeiro trimestre de 2027 e colocou em revisão as projeções de PIB e inflação para o ano que vem. Leia a seguir os principais trechos da entrevista. Alguns economistas veem a economia brasileira saudável mesmo com juros tão altos e dizem que o problema do Brasil se resume à questão fiscal. O sr. concorda? Gerar crescimento não é a parte difícil. O difícil é sustentá-lo e dentro das limitações que a produtividade impõe. Qualquer país pode crescer gastando mais e facilitando o crédito, mas isso não é um crescimento orgânico sustentado. Sempre dou o exemplo de que uma família pode melhorar seu padrão de vida alavancando sua vida financeira: usar cartões de crédito para ir a restaurantes melhores, tirar férias em hotel cinco estrelas e comprar um carro mais caro. O padrão de vida melhora, mas o endividamento também. Mais cedo ou mais tarde, a conta do cartão chega. Gerar crescimento com esteroide fiscal e crédito é a coisa mais fácil do mundo, mas, se um país se desenvolvesse apenas gastando, não haveria países pobres. Essa é a gênese do populismo: gera uma sensação inebriante de bem-estar e emprego no curto prazo, mas cria sérios desequilíbrios macroeconômicos, como a inflação. Hoje, o Brasil tem uma dinâmica de dívida insustentável, alta e cara, com déficit primário e potencial de crescimento modesto. O País vai ter quatro anos consecutivos de déficit fiscal [nominal] acima de 8% do PIB. Temos um problema de fluxo, com déficit alto; de estoque, com dívida alta; e de credibilidade. Precisamos de uma política fiscal mais convencional e forte, que dê graus de liberdade ao Banco Central para trazer os juros para baixo. No atual contexto brasileiro, essa política fiscal convencional depende mais do Executivo ou do Legislativo? A responsabilidade é compartilhada, mas a responsabilidade primária de formular e propor a política fiscal é do governo. Ele não pode terceirizar essa responsabilidade para o Congresso. Pergunto porque uma pequena parte do orçamento é discricionária e uma parte disso está na mão do Congresso. A rigidez do orçamento não é uma lei da natureza imutável, como a lei da gravidade. Foi criada pelo legislador, que pode alterar. O [presidente da Argentina, Javier] Milei fez um ajuste de 5% do PIB na Argentina, em uma economia contraindo. Acompanhamos uma discussão no Brasil sobre a política econômica com propostas como a do André Lara Resende e discussão de nomes para Fazenda e Banco Central. O cenário hoje tem muito ruído ainda? Qual leitura o sr. faz desse momento de incerteza? Tem muito ruído, mas também tem bastante sinal. A proposta [do Lara Resende] não é uma ideia peregrina que o mercado começou a falar sobre. Foi publicada e tem pessoas que defendem publicamente. Os preços dos ativos têm reagido porque há uma preocupação com a estratégia de baixar os juros. [A queda dos juros] não é a solução do problema fiscal, mas uma derivada do ajuste fiscal. O ajuste fiscal em si vai levar a juros mais baixos. Não se começa o ajuste fiscal de trás para frente. O que o sr. esperaria ver executado em termos de medidas, mesmo sendo impopulares? O que é impopular é tomar medidas que parecem populares, mas levam à deterioração macroeconômica. É preciso melhorar a eficiência do gasto, reavaliar programas ineficientes e diminuir a rigidez e indexação do orçamento. Qual programa o sr. citaria como o número um a ser repensado? A desvinculação dos benefícios previdenciários e a regra de reajuste do salário mínimo. Não há razão teórica para essa vinculação obrigatória, que gera grande rigidez. O outro ponto é a racionalização dos gastos e benefícios tributários acumulados há décadas, como Zona Franca de Manaus e cesta básica. O Brasil perdeu expressividade nos portfólios globais e o estrangeiro prefere esperar por clareza na política fiscal Quais perguntas os investidores estrangeiros mais têm feito nesse pós-eleição? Perguntam sobre a trajetória fiscal, quem vai conduzir, como ficam os juros, a inflação e o câmbio. O Brasil perdeu expressividade nos portfólios globais e o estrangeiro prefere esperar por clareza na política fiscal. Como o sr. vê a relação entre o Executivo e o novo Congresso eleito, mais à direita? A governabilidade não está comprometida. Há quatro anos também se pensava que seria afetada, e o presidente conseguiu governar com o Congresso à direita. Pautas de costumes ou propostas de aumento agressivo de impostos podem encontrar mais resistência, mas haverá margem para negociação. A maioria democrata no Congresso dos EUA que surgiu nessas eleições de meio de mandato pode ajudar na relação com o Brasil? Não deve ter grande influência direta, positiva ou negativamente. O relacionamento bilateral é uma questão de Estado, e a pauta de tarifas tende a seguir seu curso próprio. Qual sua projeção para a taxa de juros no Brasil? Prevemos a manutenção da taxa Selic até o primeiro trimestre do ano que vem. Essa manutenção se dará pelo contexto fiscal e também pelo externo, visto que há alta prevista de juros nos EUA? As duas coisas, mas não só. O quadro da inflação piorou visivelmente. Está alta, muito disseminada entre serviços e acelerou na margem. O impacto do El Niño ainda não foi absorvido totalmente. Além disso, há também a questão da mudança na escala 6x1 para 5x2, que vai gerar impacto no custo da mão de obra. Ainda tem a reforma tributária impactando a inflação, a nova composição da cesta do IPCA, que vai dar maior peso aos serviços, e o câmbio depreciado depois da eleição. Ou seja, há uma deterioração muito significativa das expectativas de inflação até 2029. No exterior, tem o Fed [Federal Reserve, o banco central americano] subindo juros, assim como outros bancos centrais, e petróleo perto dos US$ 100. Além disso tudo, há as promessas de campanha que deterioraram a base fiscal para 2027. Por todas essas razões, era preciso parar mesmo. Diria que, se o quadro não melhorar, o Banco Central vai ter de discutir se acomoda essa inflação alta e prolongada ou se tem de subir os juros. Mas tudo vai depender dos rumos da política econômica, que discutimos aqui antes. Há mudança nas projeções para o PIB e inflação de 2027? As projeções estão em revisão, sim. A da inflação está hoje perto de 5%. A do crescimento deve cair do atual 1%. E veremos menos espaço para corte de juros.