Por Que Continuamos Ensinando Finanças Como Se o Brasil Fosse os EUA?
Imagine um aluno de Administração abrindo um dos manuais de finanças mais utilizados no Brasil. Traduzida do inglês, a obra apresenta IPOs , fusões bilionárias, avaliação de multinacionais de tecnologia e governança de empresas listadas em Nova York. Ao ingressar em estágios ou posições iniciais, po
Imagine um aluno de Administração abrindo um dos manuais de finanças mais utilizados no Brasil. Traduzida do inglês, a obra apresenta IPOs , fusões bilionárias, avaliação de multinacionais de tecnologia e governança de empresas listadas em Nova York. Ao ingressar em estágios ou posições iniciais, porém, muitos estudantes encontram uma realidade diferente: pequenas empresas lutando para pagar a folha, comerciantes negociando prazos com fornecedores e gestores monitorando fluxo de caixa e limites bancários. A pergunta é inevitável: estamos ensinando finanças da forma correta para o Brasil? Muitos cursos brasileiros de finanças ainda se apoiam fortemente em referências produzidas nos Estados Unidos. São obras fundamentais, construídas em um ambiente no qual os mercados de capitais são mais profundos e as grandes companhias ocupam lugar central no ensino. O problema não está em estudá-las, mas em tratá-las como se fossem aplicáveis a qualquer contexto econômico e empresarial. O contraste é expressivo. Enquanto muitos cursos concentram sua atenção em bolsas de valores e grandes corporações, os pequenos negócios formam a base do tecido empresarial brasileiro. Dados do Painel de Empresas da Receita Federal e do Sebrae Data, consolidados pelo Sebrae, mostram que, em fevereiro de 2025, os microempreendedores individuais, as microempresas e as empresas de pequeno porte correspondiam a 97% das empresas do país.Para a grande maioria desses negócios, realizar uma oferta pública de ações não faz parte do horizonte financeiro. Suas necessidades são outras: administrar o capital de giro, negociar crédito, enfrentar oscilações de custos e sobreviver em um ambiente de juros elevados, burocracia complexa e instabilidade econômica. Até o papel do diretor financeiro assume contornos diferentes. Nos manuais voltados às grandes corporações, o cargo costuma ser associado à estratégia financeira, à alocação de capital e ao relacionamento com investidores. Em muitas empresas brasileiras, especialmente nas de menor porte, esse profissional também é o guardião da liquidez: controla o caixa, negocia com bancos e fornecedores, administra a inadimplência e tenta compatibilizar dívidas de curto prazo com investimentos de longo prazo. A formação que ignora esse contexto não é incorreta, mas incompleta. Ensina a avaliar empresas com dados estruturados, mas nem sempre a decidir diante de registros contábeis limitados. Explica a captação no mercado de capitais, mas pouco aborda o crédito bancário, as instituições de desenvolvimento e as particularidades das empresas familiares. As finanças comportamentais ajudam a compreender por que esse modelo persiste. O viés de autoridade nos leva a atribuir validade universal a conhecimentos associados a autores e universidades de prestígio internacional. Já a heurística da disponibilidade faz com que os exemplos mais recorrentes nos livros, como bolsas, ações e grandes corporações, sejam percebidos como representativos de todo o universo financeiro. O próprio enquadramento dos currículos reforça essa percepção: capital de giro, microcrédito e gestão das pequenas empresas acabam tratados como assuntos periféricos, embora sejam centrais para a economia brasileira. A própria linguagem também contribui para esse distanciamento. Termos como spread , default , valuation e hedge fazem parte do vocabulário técnico das finanças e são importantes para a comunicação profissional. O problema não está em utilizá-los, mas em apresentá-los sem explicação ou relação com situações concretas. Quando isso acontece, a linguagem deixa de facilitar o aprendizado e pode se tornar uma barreira de entrada. O conhecimento, então, corre o risco de se transformar em código de pertencimento, afastando justamente quem mais precisa utilizá-lo. Isso não significa rejeitar a produção estrangeira. Os modelos internacionais oferecem bases indispensáveis e conectam o Brasil aos mercados globais. O desafio é traduzi-los não apenas para o português, mas para as instituições, empresas e decisões brasileiras. Precisamos preparar profissionais para avaliar ações, compreender o mercado de capitais e atuar em grandes corporações, mas também para gerir o capital de giro, negociar crédito bancário e lidar com a realidade das micro e pequenas empresas. Uma abordagem brasileira de finanças não deve abandonar o rigor técnico. Deve ampliar as perguntas. Além de ensinar como precificar ativos em mercados líquidos, precisa mostrar como manter uma empresa sustentável em um ambiente marcado por incerteza, restrição de crédito e assimetria de informação. A revolução no ensino de finanças talvez não dependa de novas fórmulas, mas de um novo olhar. Professores, pesquisadores e líderes empresariais precisam construir uma formação capaz de dialogar com o mundo sem ignorar o país. Na próxima aula, pesquisa ou programa de formação, você continuará preparando alunos para Wall Street ou ajudará a formar financistas capazes de enfrentar os desafios do Brasil real? Marcelo de Araújo dos Santos Doutorando em Administração pela FGV EAESP, mestre em Administração pela UFPE e graduado em Administração. Possui três MBAs e atua como Assessor Executivo da Presidência do Banco do Nordeste (BNB), nas áreas de estratégia, finanças, governança e desenvolvimento regional. Tem experiência docente e como conselheiro, além de desenvolver pesquisas sobre microcrédito, inclusão financeira, empoderamento feminino e micro e pequenas empresas. "As opiniões expressas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão da FGV EAESP ou do Blog Gestão e Negócios - Estadão."