“Uma tentativa de ilustrar a terceira idade com vivacidade”: como Feito Pipa celebra a vida?
Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, Feito Pipa reúne diferentes gerações em uma história sobre afeto, família e respeito às diferenças . Em entrevista ao Minha Série, Lázaro Ramos, Yuri Gomes, Teca Pereira e o diretor Allan Deberton falaram sobre os temas abord
Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, Feito Pipa reúne diferentes gerações em uma história sobre afeto, família e respeito às diferenças . Em entrevista ao Minha Série, Lázaro Ramos, Yuri Gomes, Teca Pereira e o diretor Allan Deberton falaram sobre os temas abordados pelo longa-metragem, o processo de construção dos personagens e a repercussão da escolha da Academia Brasileira de Cinema. Na produção, Yuri Gomes interpreta Gugu, um menino que enfrenta os desafios de crescer em uma família que nem sempre compreende sua maneira de ser. Enquanto encontra acolhimento na relação com a avó, Dilma, personagem de Teca Pereira, o garoto também precisa lidar com a dificuldade de seu pai, Batista, vivido por Lázaro Ramos, em aceitar suas particularidades. Confira a entrevista completa abaixo! Lázaro Ramos fala sobre paternidade e construção de Batista Pai de duas crianças, Lázaro Ramos contou que utilizou parte de sua experiência pessoal para construir os momentos de carinho entre Batista e Gugu. Inicialmente, o ator imaginava que o personagem demonstraria uma resistência maior nesse sentido; no entanto, os ensaios mudaram sua percepção sobre o papel. “Acho que as partes de afeto eu emprestei do Lázaro. Apesar de, quando ter lido o roteiro, eu ter pensado em fazer o personagem totalmente diferente. Eu não achava que o Batista demonstraria muito amor pelo filho, porque ele rejeita o filho pela maneira que ele é. Mas, durante o ensaio, eu falei: ‘Não, tem que ter amor. É claro que ele ama essa criança, né?’. E aí acho que o jeito do olhar, a parte carinhosa, quando ele olha carinhosamente, quando torce pelo filho, é do tipo de pai que eu procuro ser”, explicou. Questionado sobre qual conselho daria a Batista, o ator foi direto: “Relaxa”. Em seguida, complementou: “Você tem um filho incrível. Olha para o seu filho, aproveita ele, aproveita esse menino, inclusive, que tem uma coisa que você não tem, que é um menino que se sabe merecedor de amor e de respeito pelo jeito que ele é. É o que eu diria para o Batista”. O ator também comentou a dificuldade de gravar as cenas mais intensas entre pai e filho, especialmente por contracenar com crianças. Segundo ele, a equipe teve cuidado para que os pequenos atores compreendessem que estavam participando de uma obra de ficção. “Sempre é mais difícil, principalmente quando você está lidando com criança, né? A Manduzinha, que faz a minha outra filha, irmã dele na cena, na minha última cena, em que dei um grito, ficou assim e falou: ‘Por que é que ele está olhando com esse olho?’. Então, sempre tem uma prudência, né? E foi muito legal porque a gente teve a oportunidade de fazer as cenas do jeito que precisava, mas sempre tinha muito claro: isso aqui é um filme, estamos contando uma história, não é para sofrer de verdade. A gente está emprestando para um personagem, o que acho muito legal quando você está trabalhando com crianças, né? Que precisam ser cuidadas”, concluiu Ramos. Yuri Gomes comenta os papéis de gênero abordados no filme Outro tema importante de Feito Pipa são os papéis de gênero. Gugu demonstra não se preocupar com as convenções que determinam o que seria apropriado para meninos ou meninas, uma característica que também foi comentada por Yuri Gomes durante a entrevista. Para o ator, essas divisões não fazem sentido e acabam sendo desnecessárias. “Eu acho isso muito desnecessário, porque não existe uma ordem. ‘Ah, que roupa é para menina, roupa de menina é de menina, roupa de menino é de menino, azul é de menino e rosa é de menina’. Eu acho isso tão desnecessário. Para mim, não existe”, afirmou Gomes. Yuri também falou sobre a parceria com Teca Pereira, que interpreta sua avó na história. Os dois desenvolveram uma relação próxima durante os ensaios realizados em Fortaleza, algo que contribuiu para a conexão entre Gugu e Dilma na tela. “Foi muito legal. A Tia Teca é uma atriz que já viveu no cinema há muito tempo. Ela ensina muitas coisas para a pessoa que tá começando a carreira por agora e eu amei muito ter contracenado com ela, não só com ela como com o Lázaro Ramos”, contou o ator. fiquei bem tocada com a Dilma. Eu levo muita coisa dela e dei muita coisa minha para ela também Teca Pereira Lázaro também comentou a identificação imediata com o jovem colega de elenco. “A gente se conheceu nos ensaios lá em Fortaleza. Eu cheguei e já foi paixão à primeira vista, porque tem muita identificação. Mais uma criança baiana, começou a trabalhar com arte muito cedo também, que nem eu. O tipo de humor da gente é parecido, e ele que me contou a história do filme.” Yuri contou que participou de uma atividade com a diretora de elenco Luciana Vieira e sua assistente, Andrea Pires, na qual ajudou a construir a história do filme. “Elas deram várias folhas de ofício para mim. Ficamos nós três na sala da Deberton e fomos pensando em como poderia ser e escrevendo o roteiro em cada folha de ofício. A gente escreveu em cada folha, depois colou tudo e colocou na parede. Aí, quando o Lázaro chegou, no outro dia, eu fui e apresentei para ele”, relembrou. Teca Pereira destaca a vivacidade de Dilma e a representação da terceira idade A personagem Dilma é uma das figuras centrais da história, especialmente pela relação de carinho e cumplicidade que desenvolve com o neto. Mesmo enfrentando o Alzheimer, ela mantém sua personalidade forte, sua alegria e sua vontade de aproveitar a vida. Para Teca Pereira, interpretar a personagem foi uma experiência marcante justamente pela possibilidade de explorar essas características. A atriz também destacou a importância de representar pessoas idosas de maneira mais diversa, sem limitar suas experiências à doença ou à solidão. “A descoberta foi muito boa para mim enquanto atriz. É porque ela tem uma delicadeza e uma vivacidade muito grandes, e isso me acompanha. Essa vivacidade, essa alegria de viver, porque isso é uma coisa que é muito importante nela, é muito forte. Mesmo não estando bem, ela não deixa a peteca cair, não é? É uma mulher que tem personalidade forte, é forte enquanto pessoa, e, para mim, isso foi um ganho, um a mais, um plus para o meu trabalho, para minha direção, para minha carreira, para tudo. Foi bem tocante, fiquei bem tocada com a Dilma. Eu levo muita coisa dela e dei muita coisa minha para ela também”, contou. O diretor Allan Deberton complementou que buscou trazer para a personagem uma representação da terceira idade marcada pela vivacidade, pela musicalidade e pela vontade de aproveitar novas experiências. “Acho que dentro de mim eu carrego uma tentativa de ilustrar a terceira idade com essa vivacidade, com esse colorido, com essa musicalidade, em busca de um respeito, né? E também pela oportunidade de sair de casa, de se movimentar e de aproveitar essa vida, indo de encontro a uma energia que, por vezes, a gente se esquece que eles têm”, contou o diretor. Ele também chamou a atenção para o dilema da solidão na velhice, contrapondo essa realidade à proposta do longa-metragem. “Acho que o avançado da idade carrega junto de si o dilema da solidão, sabe? Mas é um filme que propõe colocar para a audiência que não: vamos dar uns passeios, vamos ler, vamos arranjar uns namoradinhos, que é o caso da personagem da Dilma, né? Muita vida. E aproveitar essa vida a todo instante, da forma mais intensa possível.” É essa proposta: que seja interessante, que as pessoas se vejam dentro daquele amor todo, daquela família. Allan Deberton A relação entre Dilma e Gugu foi uma das experiências mais especiais para Teca. Apesar da diferença de idade entre os personagens, os dois compartilham uma conexão baseada no respeito e na identificação. “No começo foi quase um desafio mesmo, porque fiquei, não temerosa, mas prestando bem atenção. Falei: ‘Eu não o conhecia, nem ele a mim’. Mas o nosso processo foi tão bom, de trabalho, que eu me apaixonei pelo Yuri. Ele é uma pessoa adorável, talentosa. Então, foi uma troca muito importante para mim, de uma criança de 10 anos com uma mulher de 72″, contou a atriz. Teca ainda destacou o comprometimento do jovem colega durante as gravações e afirmou que a convivência com ele também trouxe aprendizados pessoais. “Ele me surpreendeu. O talento dele, a disposição em fazer todo o trabalho, a obediência dele em vários momentos, porque é uma criança, né? Está em um processo de crescimento, mas tinha uma seriedade ao fazer o trabalho. Ele acreditava mesmo. Para ele, era uma coisa assim: ele se divertia ao mesmo tempo que fazia, divertidamente”, complementou. Para Teca, a própria Dilma também serviu como inspiração para repensar a maneira de aproveitar a vida. “Eu me diverti bastante enquanto fazia a Dilma, porque toda aquela malemolência dela, uma coisa alegre, namoradeira na idade dela, é uma coisa que, para mim, está até perto, está muito perto, inclusive. Mas ela me deu muitas dicas de como levar a vida mesmo, né? Porque aí você vai perdendo um pouco, não da vivacidade, mas da capacidade de exercer aquela vida boa, alegre e feita para ser feliz. É uma coisa que eles vivem e são felizes. Muito lindo. Ela me deu muitas dicas também de como viver a vida de verdade.” Allan Deberton explica a escolha pela história de Feito Pipa Responsável pela direção do longa-metragem, Allan Deberton explicou que se interessou pela história justamente pela combinação entre a dureza dos acontecimentos e a sensibilidade do roteiro. A trama acompanha uma criança que precisa lidar com a doença da avó e com os conflitos familiares, mas encontra espaço para momentos de afeto e descobertas. “O roteiro emocionava, mas também carregava muita dureza, né? Se a gente olhar friamente, é uma doença terrível sendo assistida por uma criança de 10 anos, que tem que se reinventar dentro dessa jornada, junto com os desafios que essa criança tem com o pai.” Para o cineasta, era importante que a produção conquistasse o público por meio de pequenos gestos e situações cotidianas, sem perder a leveza. “Então, para mim, era muito importante que essa história fosse trazida e conquistasse a audiência pouco a pouco, através dos pequenos movimentos, dos pequenos gestos, mas com muita verdade. E também trazendo junto consigo um colorido, todo um lugar de muita naturalidade dentro desse universo. Por exemplo, a gente tem ali no clube uma dança, toda uma terceira idade que também está se divertindo com a cena. Foi muito legal emprestar a alma ali do processo para o próprio filme. Acho que isso ficou bem registrado”, explicou o cineasta. Deberton também definiu a produção como uma história sobre a diversidade brasileira e as possibilidades de aprendizado a partir das relações humanas. “É um filme sobre ser brasileiro, com as diversidades da vida, mas, ao mesmo tempo, nos propondo aprendizado, diálogo, exercício de empatia, trazendo bons sentimentos.” Durante o processo de filmagem, algumas cenas passaram por mudanças em relação ao que havia sido imaginado inicialmente. O diretor contou que uma das situações envolvendo bullying precisou ser repensada por não transmitir a mensagem desejada pela equipe. “Tem cenas divertidíssimas no roteiro que eu achava maravilhosas, eram as minhas cenas favoritas. E, quando a gente foi filmar, dissemos: ‘Ei, isso aqui é pesado demais’. Como a cena em que o Yuri sofre bullying, o Gugu sofre bullying o filme todo, né? Mas tem uma cena em que a gente fez ele praticar bullying com Francisco. Aí pensamos que essa não era a mensagem que a gente queria dar”, brincu. Por outro lado, algumas das situações mais espontâneas acabaram entrando no corte final. Deberton citou a cena da cozinha como exemplo da contribuição do elenco para a construção da narrativa. “Ao mesmo tempo, teve cenas muito maravilhosas que foram arriscadas durante o processo, feitas em um lugar muito espontâneo, como a cena da cozinha, em que você dá um cotoco, todo mundo se diverte. Tiveram muitos improvisos que estão em tela, uma contribuição do elenco maravilhoso que a gente tem.” Teca Pereira complementou dizendo que a sequência também representa a relação de respeito e cumplicidade entre Dilma e Gugu, que conseguem se divertir juntos mesmo diante das dificuldades enfrentadas pela família. “Porque, naquela hora da cozinha, é uma pilhéria que ela faz. Ela realmente não está tão tomada pela doença. Está se divertindo como uma criança, como se divertia com o neto. Ela se diverte com a personalidade dele. Gosta mesmo dele e da maneira como ele é. Ela respeita tudo nele. E ele, vice-versa, também respeita ela”, contou a atriz. Feito Pipa representa o Brasil no Oscar 2027 Além dos temas abordados pela história, a escolha de Feito Pipa para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027 também foi assunto da conversa. Para Lázaro Ramos, a indicação representa uma oportunidade de ampliar o alcance de uma produção que não conta com a mesma estrutura de grandes lançamentos. “Acho que o filme ganha uma oportunidade de ser mais falado e mais visto. Essa não é uma produção gigantesca. É um filme de muitas qualidades, mas, quando o Brasil, a Academia Brasileira de Cinema, confia no nosso filme e aposta para a gente representar o país no Oscar, faz com que mais pessoas falem e vejam o filme”, disse Ramos. O ator revelou que inicialmente sentiu nervosismo diante da responsabilidade, mas passou a enxergar a escolha com entusiasmo. Ele também destacou como a produção pode ajudar a apresentar diferentes perspectivas do cinema nacional ao público internacional. “No começo, eu estava nervoso. Estava com medo, porque você diz assim: ‘Caramba, o Oscar no Brasil virou futebol’. Depois comecei a achar muito legal, porque acho que realmente o filme merece. É um filme, inclusive, que ajuda a mostrar para o mundo como o nosso cinema é diverso, porque ele é muito diferente de O Agente Secreto, muito diferente de Ainda Estou Aqui. É uma outra região, outras caras de elenco, e isso acho que é muito bom”, comparou o ator. Com uma história que reúne diferentes gerações e aborda temas como envelhecimento, paternidade e respeito às diferenças, Feito Pipa busca levar ao público uma reflexão sobre afeto e convivência. Para Allan Deberton, a expectativa é que essa mensagem ultrapasse a tela e incentive novas formas de relacionamento. “É essa proposta: que seja interessante, que as pessoas se vejam dentro daquele amor todo, daquela família, e que repliquem isso, né? Vão sentir necessidade, inclusive, de participar diferente”, completou o diretor. Feito Pipa já está disponível nos cinemas por todo o Brasil.