Ronco em crianças: os sinais de que é hora de procurar um médico

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Quando uma criança ronca, é comum que a família associe o barulho a um sono pesado. Mas dormir fazendo ruído não significa, necessariamente, descansar bem. O ronco pode revelar que o ar está encontrando dificuldade para passar pelas vias respiratórias, uma situação que merece atenção quando se torna

Quando uma criança ronca, é comum que a família associe o barulho a um sono pesado. Mas dormir fazendo ruído não significa, necessariamente, descansar bem. O ronco pode revelar que o ar está encontrando dificuldade para passar pelas vias respiratórias, uma situação que merece atenção quando se torna frequente ou vem acompanhada de outros sinais. Roncar ocasionalmente durante um resfriado , por exemplo, pode estar relacionado à obstrução das vias aéreas passageira. A preocupação aumenta quando o sintoma persiste depois da recuperação ou aparece três ou mais noites por semana. Essa frequência é uma referência para procurar avaliação, mas não deve funcionar como uma regra para esperar: pausas na respiração, engasgos e esforço para respirar justificam investigar mesmo quando o ronco é menos frequente. Nem toda criança que ronca tem apneia obstrutiva do sono. Ainda assim, essa possibilidade precisa ser considerada. Na apneia, ocorrem episódios de obstrução parcial ou completa da passagem do ar durante o sono, que podem comprometer a respiração e fragmentar o sono. Apenas ouvir o ronco ou observar a criança dormindo não permite distinguir, com segurança, as situações. O que observar durante a noite Além da frequência do ronco, os responsáveis devem prestar atenção à maneira como a criança respira. Dormir habitualmente com a boca aberta, apresentar respiração trabalhosa, engasgar ou parecer interromper a respiração são sinais que precisam ser relatados ao médico. Sono muito agitado, despertares frequentes e posições incomuns, como manter o pescoço bastante estendido para trás, também ajudam a compor a avaliação. Voltar a fazer xixi na cama depois de um período de controle pode ser outro dado relevante, embora tenha várias causas possíveis. Não é necessário que todos esses sinais estejam presentes. Também não se deve esperar por pausas respiratórias evidentes para buscar orientação. Em algumas crianças, a dificuldade se manifesta principalmente como um esforço contínuo para respirar. Os sinais também aparecem de dia Na infância , um sono comprometido nem sempre resulta em sonolência visível. A criança pode apresentar irritabilidade, agitação, dificuldade de atenção e problemas de aprendizagem. Por isso, perguntar sobre o sono deve fazer parte da investigação de mudanças persistentes no comportamento ou no desempenho escolar. Isso não significa atribuir toda desatenção ou hiperatividade à apneia. Esses sintomas exigem uma avaliação ampla e podem ter outras explicações. O cuidado é incluir o sono nessa análise, evitando que um possível problema respiratório passe despercebido. Quando não tratada, a apneia também pode estar associada a prejuízos no crescimento e a alterações cardiovasculares. Reconhecer os sinais precocemente permite avaliar o problema e definir a conduta adequada. Por que a criança ronca? O aumento das amígdalas e da adenoide está entre os principais fatores envolvidos na obstrução das vias aéreas durante o sono infantil. A adenoide fica na região posterior do nariz e, quando aumentada, pode dificultar a passagem do ar. Obesidade , características da estrutura da face e determinadas condições neuromusculares ou genéticas também podem elevar o risco. A presença de amígdalas grandes, entretanto, não confirma apneia, assim como a ausência de excesso de peso não afasta o diagnóstico. Cada criança precisa ser avaliada considerando seus sintomas, seu desenvolvimento e suas condições de saúde. Como é feita a investigação O primeiro passo é levar a queixa ao pediatra. A consulta deve reunir informações sobre a frequência do ronco, o padrão respiratório, os despertares, o comportamento durante o dia e o crescimento. Conforme os achados, pode ser necessária a participação de um otorrinolaringologista ou de um médico com atuação em medicina do sono. Um vídeo curto, gravado pelos responsáveis e mostrando a respiração durante um episódio habitual, pode ajudar a ilustrar o relato. Esse registro, porém, não confirma nem exclui apneia. Quando indicada, a polissonografia noturna é o exame de referência, obrigatório, para investigar o distúrbio. Ela registra o sono e diferentes parâmetros da respiração, permitindo identificar eventos obstrutivos e avaliar sua gravidade. Em crianças, a realização e a interpretação precisam seguir critérios pediátricos. O tratamento depende da causa Não existe uma única solução para o ronco infantil. A conduta depende da causa da obstrução, da gravidade do quadro e das características da criança. A cirurgia para retirada de amígdalas e adenoide pode ser indicada quando essas estruturas contribuem para a apneia. Outras cirurgias ortognáticas que mexem no “céu da boca” podem ser indicadas. Em outras situações, podem ser necessários tratamentos clínicos ou o uso de pressão positiva nas vias aéreas, como o CPAP, sempre com acompanhamento especializado. Mesmo após uma intervenção, o seguimento é necessário, porque a apneia pode persistir. A redução do barulho, isoladamente, nem sempre comprova que o problema foi resolvido. Para as famílias, a orientação é observar e relatar. Ronco frequente não deve ser tratado como uma característica inofensiva nem como algo que obrigatoriamente desaparecerá com o crescimento. Se houver dificuldade intensa para respirar, lábios azulados ou dificuldade para despertar, aí, é necessário procurar atendimento de emergência. Cuidar do sono infantil envolve olhar para a duração, para a regularidade e para a respiração. Um ruído que se repete à noite pode ser a pista para reconhecer uma dificuldade que repercute ao longo de todo o dia.