IDOR e Rede D’Or terão curso de Medicina; mensalidade deve custar cerca de R$ 14 mil
O Ministério da Educação (MEC) autorizou nesta semana o início do funcionamento do curso de graduação em Medicina da Faculdade IDOR de Ciências Médicas, no Rio de Janeiro. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União . Serão 100 vagas anuais, em turmas de até 50 estudantes, e a primeira in
O Ministério da Educação (MEC) autorizou nesta semana o início do funcionamento do curso de graduação em Medicina da Faculdade IDOR de Ciências Médicas, no Rio de Janeiro. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União . Serão 100 vagas anuais, em turmas de até 50 estudantes, e a primeira inicia as atividades já em janeiro de 2027. As mensalidades devem custar cerca de R$ 14 mil. Desenvolvido ao longo dos últimos cinco anos, o curso é um projeto do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Rede D’Or e foi concebido para aproximar ciência, formação acadêmica e assistência desde o início da graduação. A sede acadêmica será no centro do Rio, mas a ideia é que os alunos circulem desde o início do curso por hospitais da Rede D’Or e por serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). “No primeiro período, o estudante já está no território, na casa das pessoas, ouvindo histórias antes de aprender a nomeá-las. É assim que se aprende Medicina: pela escuta, e não apenas pelo livro”, afirmou ao Estadão a médica Renata Aranha, coordenadora do novo curso. “Em turmas de até 50 pessoas, conhecemos cada aluno pelo nome e caminhamos junto com ele.” O curso terá 8,2 mil horas, das quais 3.424 correspondem ao estágio supervisionado, o equivalente a 42% da carga horária total. Nos anos finais, o internato terá duração de três anos — um a mais do que estabelecem as diretrizes nacionais —, ampliando o período de imersão do aluno na prática médica e o contato com pacientes e equipes de saúde. “Assumimos compromissos verificáveis: um ano a mais de internato do que exigem as diretrizes, turmas de até 50 alunos, formação prática no SUS desde o primeiro período e avaliação contínua ao longo dos seis anos”, diz o diretor de ensino da Faculdade IDOR, Jérson Lima. “A pergunta que importa não é quantas escolas médicas o Brasil tem, mas como se formam os médicos de que o País precisa.” O curso terá ênfase diferenciada na pesquisa. O estudante será exposto precocemente ao ambiente de ciência, aos laboratórios e à convivência com pesquisadores, para aprender não apenas a utilizar evidências produzidas por outros, mas também a formular perguntas, desenhar investigações, interpretar dados e produzir conhecimento. Como explicou a presidente do IDOR, Fernanda Tovar-Moll, a proposta é ampliar a formação do médico para além da prescrição e da execução de procedimentos, abrindo espaço para que futuros profissionais participem do desenvolvimento de novas moléculas, tecnologias, técnicas cirúrgicas e outras formas de inovação. Esse ambiente se apoia na estrutura científica do IDOR, que reúne mais de 150 pesquisadores doutores, mais de 2,5 mil artigos científicos publicados e conexões com cerca de 80 instituições de pesquisa em saúde no mundo, entre elas o Instituto Karolinska. “O IDOR faz ciência há 16 anos. Construímos pesquisa, mestrado, doutorado e residência antes de chegar à graduação”, afirma Fernanda. O currículo foi desenhado para integrar conhecimentos que tradicionalmente aparecem separados na formação médica. Ciências básicas, clínica, humanidades, saúde coletiva, pesquisa, gestão e saúde digital estarão conectadas a problemas e situações reais de saúde. “O paciente e o cuidar tem de ser o centro da Medicina. Por isso, vamos trabalhar comunicação, respeito, contato, olhar, escuta”, explica Fernanda. Inteligência artificial e outras novas tecnologias também farão parte da formação, mas sob o princípio de que devem funcionar como ferramentas a serviço do cuidado e não como finalidade em si mesmas. “A ideia é usar a IA para liberar o profissional para coisas mais importantes”, diz ela. O curso prevê mentoria e orientação para construir percursos de formação que considerem a evolução acadêmica, os interesses, as escolhas de ambientes de treinamento e as perspectivas profissionais de cada aluno. “O aluno vai escolher suas eletivas a partir dessa trilha que ele escolher”, explica Fernanda. “Por exemplo, temos uma trilha da pesquisa acadêmica, outra de gestão. Quem tiver mais aptidão para uma coisa ou outra pode seguir esses percursos. É como uma graduação dentro da graduação.” A avaliação ocorrerá de forma contínua ao longo dos seis anos e deverá observar não apenas conhecimento, mas também raciocínio clínico, comunicação, habilidades práticas, profissionalismo e evolução das competências. A Medicina passa a integrar uma estrutura acadêmica que já oferece graduações em Enfermagem, Psicologia e Tecnologia em Radiologia. O processo seletivo deverá oferecer ingresso por prova própria e pelo desempenho no Enem, além de modalidades específicas para candidatos com formação internacional. O projeto prevê ainda 10% de bolsas de caráter socioeconômico, além de bolsas de permanência e bolsas por desempenho. O valor exato da mensalidade ainda não foi definido, mas será de aproximadamente R$ 14 mil. Mercado dos cursos de ponta tem novidades A implementação da inédita graduação em Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) também está em fase avançada de estruturação. A universidade já recebeu a habilitação do MEC para criar o curso. O projeto pedagógico recebeu nota máxima (5), na avaliação, a exemplo do que ocorreu com o curso do IDOR. A expectativa é de oferta de 100 vagas. No caso da PUC, que não tem hospital próprio, o curso será integrado à rede pública do município - com destaque para parcerias previstas com hospitais da cidade, como o Miguel Couto, na Gávea, na zona sul. O projeto da PUC aposta em uma matriz curricular humanista -- que dialoga com áreas como psicologia, administração e literatura -- e também na forte interseção com inovação e IA. O Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, abriu em agosto do ano passado a sua própria graduação em Medicina, também com oferta anual de 100 vagas e nota máxima do MEC. O curso do Sírio aproveita a sua própria estrutura hospitalar e centros de excelência em São Paulo, integrando a graduação aos demais cursos que o grupo já oferecia, como Enfermagem, Fisioterapia e Psicologia. O curso de Medicina da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein por sua vez está em funcionamento desde 2016. No mês passado, o Einstein anunciou ainda o fechamento de um acordo de longo prazo (com duração inicial de 20 anos) com o grupo Ânima Educação. O acordo prevê a prestação de consultoria e assessoria acadêmica, científica e pedagógica a 15 cursos de Medicina do grupo em seis Estados (São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Pará), abarcando um total de 13 mil estudantes. Qualidade dos cursos em xeque As novidades vêm na esteira de uma profunda reavaliação dos cursos de Medicina no Brasil pelo MEC, impulsionada pelos (péssimos) resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgados em janeiro. O Enamed avaliou 351 cursos de Medicina de todo o País. O resultado foi considerado alarmante: 107 cursos receberam notas 1 e 2 (desempenho insatisfatório), o que significa que mais de um terço das faculdades avaliadas não atingiram critérios mínimos de proficiência. Mais de 50 dessas instituições foram punidas com a redução imediata de até 50% das vagas originalmente autorizadas, a suspensão de novos vestibulares e o bloqueio de contratos do Fies e do Prouni. O MEC publicou ainda a portaria de número 129, revogando o edital que previa a criação de até 95 novos cursos de medicina. O ministério justificou a necessidade de um “freio de arrumação”, alegando que a qualidade da formação precisava ser reavaliada antes de qualquer nova expansão.