Comércio do Paraguai relata queda de até 70% nas vendas após caso Ueno; lojas consideram fechamento

Por CBN — Mundo · Categoria: Internacional ·

Em comunicado divulgado nesta sexta-feira (6), a Associação Paraguaia de Importadores e Comerciantes declarou que lojas e comércios em todo o país estão relatando quedas nas vendas de até 70%, além de dificuldades para repor mercadorias e cumprir obrigações financeiras. Segundo a associação, algumas

Em comunicado divulgado nesta sexta-feira (6), a Associação Paraguaia de Importadores e Comerciantes declarou que lojas e comércios em todo o país estão relatando quedas nas vendas de até 70%, além de dificuldades para repor mercadorias e cumprir obrigações financeiras. Segundo a associação, algumas estão à beira da falência pelo caos financeiro devido ao banco Ueno. A Asimcopar alertou sobre o impacto que a situação do Banco Ueno está causando no comércio nacional. Segundo a associação comercial, seus membros em todo o país relatam quedas nas vendas de até 70%. O impacto, no entanto, não se limita à redução da receita. A associação também destacou que os varejistas estão sofrendo perdas no capital de giro, que deveria ter sido usado para pagar por mercadorias e serviços de logística para importações. A situação ameaça a sobrevivência de inúmeros negócios. Como alertou a associação, lojas em diversas regiões do país estão à beira da falência, não apenas devido à queda nas vendas , mas também pela incapacidade de repor os estoques e cumprir com suas obrigações financeiras. O problema também afeta as micro, pequenas e médias empresas nacionais, que, segundo a associação comercial, representam 50% dos produtos vendidos em lojas de departamento . Com isso, o setor defende uma solução rápida com as autoridades para reestabelecimento da normalidade econômica e institucional do país. Caso Ueno no Paraguai lembra Banco Master? Veja o que aproxima e difere as duas crises bancárias Manifestantes brigam com policiais no Paraguai. DANIEL DUARTE / AFP O Paraguai vive um turbilhão e político e financeiro após a crise do Banco Ueno, que era responsável pelas contas de cerca de 40% da população. O caso, que atingiu diretamente a política do país por ligações com o presidente Santiago Peña, que renunciou e passa por impeachment, fez muitos compararem o caso ao do Banco Master, no Brasil. Ambos envolvem suspeitas sobre operações com empresas relacionadas aos controladores, conexões com figuras políticas e questionamentos sobre a fiscalização dos órgãos reguladores. Uma das maiores semelhanças está no crescimento acelerado dos dois bancos. No Paraguai, o Ueno ganhou espaço no mercado financeiro a partir de investimentos comandados pelo empresário Federico Vázquez. A instituição ampliou sua presença com a incorporação do Visión Banco, em 2024, e chegou a atender milhões de clientes. Já no Brasil, o Banco Master também passou por uma expansão expressiva sob o comando de Daniel Vorcaro. O empresário assumiu o controle do então Banco Máxima, em 2019, e rebatizou a instituição como Master em 2021. O crescimento foi impulsionado, entre outros fatores, pela captação de recursos por meio de CDBs que ofereciam remunerações elevadas aos investidores. Outro ponto que deixa os dois casos mais similares são as operações financeiras de empresas relativas aos seus controladores e donos. Por exemplo, no Paraguai, foram feitos questionamentos sobre o motivo de empréstimos feitos pelo Ueno a companhias ligadas ao grupo de empresas de Vázquez. As suspeitas incluem operações que teriam sido utilizadas para movimentar recursos entre empresas relacionadas e quitar financiamentos anteriores. O Master, no Brasil, tem suspeita, segundo as investigações, de fabricar carteiras de crédito sem lastro, que eram negociadas com o Banco de Brasília, o BRB. A Polícia Federal apura a emissão de cédulas de crédito também associadas a empréstimos consignados que não teriam sido efetivamente realizados. As investigações dos dois casos devem continuar, porém elas seguem com dúvidas sobre o registro financeiro de ativos dos bancos. Presidente do Paraguai, Santiago Peña, em pronunciamento. HANDOUT / X ACCOUNT OF PARAGUAYAN PRESIDENT SANTIAGO PEÑA / AFP As conexões com a política, muito presentes no Master, tiveram consequências ainda maiores no Paraguai, com a renúncia e processo de impeachment do presidente Santiago Peña. O motivo é que Peña teve participação societária no Grupo Vázquez, controlador do Ueno, antes de assumir a Presidência. Ele deixou a sociedade em março de 2025. A relação trouxe diversas dúvidas e questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, especialmente diante da crise envolvendo a instituição financeira. No Brasil, Daniel Vorcaro construiu relações com políticos de diferentes partidos e integrantes de diferentes esferas do poder, especialmente no legislativo e judiciário, com membros do STF. Por fim, mais um caso que assemelha os dois são os recursos públicos e previdenciários investidos nos bancos, que geraram grandes problemas de ativos financeiros. No Paraguai, o Ueno mantinha relações financeiras com órgãos públicos e instituições previdenciárias, entre elas o Instituto de Previdência Social. No Brasil, o Banco Master teve como um de seus principais interlocutores o BRB, que adquiriu carteiras de crédito da instituição. Também foram identificadas aplicações de regimes próprios de previdência de servidores públicos em papéis relacionados ao banco. Além disso, há casos como o do Rio de Janeiro, em que o ex-governador Cláudio Castro investiu parte do dinheiro da previdência no Banco, mesmo sob liquidez menor. E as diferenças? As investigações envolvem mecanismos financeiros distintos e consequências diferentes para os sistemas bancários dos dois países. No caso paraguaio, os questionamentos se concentram, entre outros pontos, em empréstimos concedidos a empresas relacionadas ao grupo controlador, problemas de documentação e registro de ativos e descumprimento de requisitos de solvência. A intervenção ocorreu diretamente por parte do Banco Central paraguaio. Já no Brasil, o principal foco da investigação envolve suspeitas de fraude na criação e negociação de carteiras de crédito sem lastro, incluindo operações com o BRB. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. Também existe uma diferença de escala dentro dos respectivos sistemas financeiros, especialmente pelo nível de reservas e fundos de investimento no Brasil ser bem maior do que no Paraguai. Mesmo que o Master tivesse um volume de ativos maior em valores absolutos, o Ueno tinha uma presença proporcionalmente mais expressiva no mercado bancário paraguaio, com participação relevante nos depósitos e milhões de clientes. Para se ter uma ideia, apesar de R$ 86 bilhões em ativos do Master, eles representam 0,57% do valor total do sistema financeiro no Brasil. Do outro lado, o Ueno tinha 8,9% de participação nos depósitos do sistema bancário paraguaio. E o número de clientes chegava até quase metade da população.