Brasileiros atingidos pela crise do Ueno Bank dizem ter ‘esperança’ em reaver o dinheiro
A crise envolvendo o Ueno Bank que levou à renúncia (não aceita pelo Congresso) e à abertura de processo de impeachment contra o presidente do Paraguai , Santiago Peña (ex-sócio da instituição), provoca impacto também para brasileiros que tinham valores no banco digital. Um empresário brasileiro ouv
A crise envolvendo o Ueno Bank que levou à renúncia (não aceita pelo Congresso) e à abertura de processo de impeachment contra o presidente do Paraguai , Santiago Peña (ex-sócio da instituição), provoca impacto também para brasileiros que tinham valores no banco digital. Um empresário brasileiro ouvido pela reportagem, que falou sob condição de anonimato, disse que não conseguiu transferir a tempo os recursos que tinha no Ueno, apesar de ter tentado. Ele diz estar com valores acima de R$ 1 milhão retidos na instituição. Uma outra brasileira, que também pediu para não ter o nome divulgado, disse que, embora tenha valores retidos no banco, tem “esperança” em recuperar o dinheiro, mesmo não sendo um valor tão expressivo. Segundo ela, usava o banco para “pagamentos irrisórios, do lar.” O influenciador Jézer Trevisan, de 39 anos, que mora no Paraguai desde fevereiro, também não conseguiu fazer a transferência a tempo, mas diz estar tranquilo com a devolução do valor (que não quis revelar quanto era). Ele já está há quatro dias sem conseguir movimentar os dólares que mantinha no Ueno Bank. Apesar do bloqueio, afirma que a situação não comprometeu seu planejamento financeiro, já que ele e a esposa tinham reservas em outras instituições. “Nós estamos mais preparados do que a grande maioria. Tínhamos dinheiro em outros lugares. Então, para nós, não fez tanta diferença. Mas a gente sente muito pela grande maioria dos paraguaios e brasileiros”diz. “Tem empresário que colocou toda a grana lá e que está sofrendo por conta desse bloqueio.” O influenciador conta não ter recebido nenhuma comunicação da instituição sobre o bloqueio. Soube do ocorrido pela internet, depois decidiu conversar com seu contador e acompanhar as medidas anunciadas pelo Banco Central do Paraguai (BCP), que decretou intervenção na instituição. “Eu já fui pesquisar e descobri que o Banco Central tinha 15 dias, prorrogáveis por mais 15, para fazer a devolução do dinheiro. Também vi que eles iriam assegurar até 228 milhões de guaranis (aproximadamente R$ 200 mil). Eu tinha bem menos dinheiro que isso lá, então me tranquilizei”, conta. Ao visitar uma agência, no entanto, encontrou um cenário diferente daquele que conhecia. O brasileiro conta que os funcionários estavam desmontando a estrutura do local e guardando os equipamentos. “Foi uma situação triste, porque cheguei lá e vi que os funcionários estavam realmente desmontando todas as coisas para guardar e o banco tinha fechado de fato.” Agora, Trevisan acompanha o processo de restituição por meio de um QR Code disponibilizado pelas autoridades paraguaias, que permite consultar para qual instituição os recursos serão direcionados. “Para a gente, que vive numa bolha, a vida seguiu normal. Mas sabemos que isso afetou a grande maioria”, diz. Ele afirma que já abriu uma conta em outro banco para receber o dinheiro, mas seu cadastro ainda não havia sido processado até o momento da entrevista. Outra brasileira, a administradora Isabella Santos, tinha conta no banco desde que chegou ao Paraguai há pouco mais de um ano. Mas diz ter conseguido se livrar do problema. Segundo ela, tinha em torno de US$ 600 (o equivalente a R$ 3,3 mil) no banco digital, mas conseguiu transferir para outra instituição financeira na própria terça-feira, 3, quando o Banco Central do Paraguai decretou a intervenção. “Não tive tanto problema, só enfrentei fila”, diz. Facilidade para abrir contas Diante das exigências dos bancos tradicionais paraguaios, a facilidade para abrir uma conta e movimentar dinheiro acabou atraindo brasileiros que migraram para o país vizinho para o Ueno Bank, diz Heliza Rocha, advogada especializada em imigração empresarial, que atende majoritariamente empresários brasileiros que vivem ou atuam no Paraguai. De acordo com a advogada, há instituições tradicionais em que a abertura de uma conta pode levar até três meses, dependendo da situação migratória do cliente, da documentação fiscal e da comprovação da origem dos recursos. “Os bancos tradicionais têm um compliance muito forte. Chega a demorar três meses para aprovar uma conta”, afirma. Ela acrescenta que algumas instituições também exigem indicação de clientes estabelecidos no país. Nesse cenário, o Ueno Bank era uma vantagem para quem estava chegando ao país por oferecer um processo simplificado de abertura de conta. “Você chegava lá, cadastrava sua cédula, dados pessoais, abria a conta digital e imprimia um cartão na hora. Era muito moderno”, conta. Rocha afirma que havia indícios de dificuldades na instituição antes da intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP). Clientes que tinham dinheiro aplicado e tentavam resgatar os valores antecipadamente poderiam perder parte dos recursos, em razão das condições estabelecidas para manter o dinheiro investido por determinado período. A advogada diz que chegou a orientar clientes a utilizar o banco apenas para transações cotidianas, sem investir ou manter grandes quantias. “Eu sempre orientei os clientes a usar para coisas rápidas, mas não para investimento”, afirma. A própria advogada tinha uma conta na instituição, mas diz que mantinha apenas um valor simbólico. O Ueno afirmava ter cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai, e administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos. Isso inclui cerca de US$ 380 milhões investidos pelo Instituto de Previdência Social do Paraguai. Brasileiros têm proteção da lei, mas há ressalvas em relação aos valores A legislação paraguaia assegura que os brasileiros que mantinham depósitos no Ueno Bank têm, a princípio, os mesmos direitos de proteção dos clientes paraguaios, independentemente da nacionalidade ou do local de residência. Uma lei paraguaia de 2003 prevê a cobertura de depósitos de pessoas físicas e jurídicas, residentes e não residentes no país, explica a advogada paraguaia Nilda Espinola, especialista em direito migratório. “O fato de ter nacionalidade brasileira ou não residir no Paraguai não constitui motivo de exclusão da garantia”, diz Espinola. O que determina a proteção é o enquadramento do depósito nas condições previstas pela legislação. Na segunda-feira, 2, o Banco Central do Paraguai determinou intervenção no Ueno Bank após constatar que o índice de solvência da instituição estava abaixo de 50% do mínimo exigido por lei. Como parte das medidas, o BCP anunciou a realização de pagamentos aos clientes por meio do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), com implementação progressiva por grupos de depositantes. A legislação também prevê a possibilidade de transferência dos depósitos para outras instituições financeiras. O fundo, administrado pelo próprio BCP, garante atualmente até o equivalente a 75 salários mínimos mensais por pessoa física ou jurídica e por instituição financeira. O valor corresponde a cerca de 228,3 milhões de guaranis. O limite considera o conjunto dos depósitos de cada cliente no banco, e não cada conta individualmente. “É importante esclarecer que o limite se aplica ao conjunto dos depósitos de uma pessoa na mesma instituição, não é individualmente a cada conta”, afirma Espinola. A cobertura não se estende a todos os produtos financeiros. “Os direitos e mecanismos de recuperação devem ser analisados de acordo com a natureza do produto financeiro contratado”, diz a advogada. Para valores que ultrapassem o limite garantido, a recuperação dependerá dos mecanismos adotados durante o procedimento de resolução e de uma posterior liquidação da instituição. Nesse caso, não há garantia antecipada de restituição integral dos recursos.