2027 será um ano difícil útil, ou um ano difícil inútil?

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Os relatórios de revisão de cenário divulgados nos últimos dias pelos dois maiores bancos privados do País pintam um quadro pouco animador para 2027, o primeiro ano do novo mandato de Lula. O Itaú, em relatório de 30 de outubro, cortou a projeção de crescimento do PIB do próximo ano de 1,2% para 0,5

Os relatórios de revisão de cenário divulgados nos últimos dias pelos dois maiores bancos privados do País pintam um quadro pouco animador para 2027, o primeiro ano do novo mandato de Lula. O Itaú, em relatório de 30 de outubro, cortou a projeção de crescimento do PIB do próximo ano de 1,2% para 0,5% e elevou a de inflação de 4,6% para 6,1%. O Bradesco, nesta sexta-feira (6), reduziu o PIB de 2027 de 1% para 0,4% e subiu o IPCA de 4,1% para 5,3%. O diagnóstico é parecido nos dois casos. Juros altos por mais tempo, endividamento elevado de famílias e empresas e o esgotamento dos estímulos estão freando a economia. Ao mesmo tempo, uma série de choques empurra a inflação para bem acima do teto da meta, de 4,5%: a normalização dos tributos e subsídios sobre combustíveis, o câmbio mais desvalorizado, a reforma tributária e a redução da jornada de trabalho com fim da escala 6 por 1. A diferença entre os números de inflação dos dois bancos vem basicamente de hipóteses sobre esses choques. O Bradesco incorpora só parte deles e trabalha com queda gradual do petróleo ao longo do ano. O próprio banco reconhece que, com o Brent a US$ 100, o IPCA de 2027 chegaria a 6%, perto da projeção do Itaú. Na Selic, o Itaú espera a taxa parada em 13,75% durante todo o ano, e o Bradesco projeta quatro cortes de 0,25 ponto no segundo semestre, até 12,75%. Que 2027 vai ser um ano ruim, portanto, parece pouco discutível. A questão mais importante é outra: será um ano difícil útil ou inútil? Um ano difícil útil seria aquele em que o governo aproveita o início do mandato, quando o capital político é maior, para fazer o ajuste fiscal e permitir o rebalanceamento da economia. Com contas públicas mais críveis, é possível que o prêmio de risco caia, o câmbio se aprecie, a inflação se modere e o BC possa baixar os juros de forma mais firme. Assim, a segunda metade do mandato teria mais crescimento e menos inflação. Juros mais baixos, é bom lembrar, ajudam na digestão do ciclo de superendividamento de empresas e famílias brasileiras, outro problema salgado com o qual o governo terá que lidar. O precedente de "ano difícil útil" mais lembrado é o do próprio primeiro governo Lula. Em 2003, com Antonio Palocci na Fazenda, o governo elevou a meta de superávit primário, o BC subiu os juros e a economia cresceu pouco mais de 1%. Em 2004, o PIB avançou mais de 5%. Já um ano difícil inútil seria aquele em que o governo resiste ao ajuste e a economia sofre sem que nada de estrutural mude. Nesse caso, a fraqueza de 2027 não seria o preço de uma melhora futura, mas o começo de um período prolongado de juros altos, crescimento baixo e dívida pública em alta. Outro elemento que pode determinar se o ano difícil será útil ou inútil é o comportamento do governo em relação ao BC. Minar o trabalho do Copom com a nomeação de diretores heterodoxos para as vagas já existentes e que vão se abrir é receita certa para descarrilar a economia. Os relatórios de Itaú e Bradesco deixam claro o tamanho da tarefa à frente do governo. O Itaú estima que o esforço fiscal necessário para estabilizar a dívida está hoje em torno de 4 pontos porcentuais do PIB e tende a aumentar sem correções de curso. O banco defende um ajuste centrado no controle das despesas obrigatórias, com gatilhos de correção automática, complementado pela redução de benefícios tributários. O Bradesco nota que o cumprimento das metas vem sendo obtido com deduções de despesas, o que mina sua credibilidade, e que seu cenário-base já inclui os gastos prometidos na campanha, como os do Bolsa Família e do MEI. O Bradesco também desenha o caminho do ano útil. Segundo o banco, há iniciativas factíveis em gastos tributários, excessos da máquina pública e modulação dos indexadores dos gastos obrigatórios, mesmo mantendo algum ganho real. Uma agenda desse tipo, que sinalize com credibilidade a busca do centro da meta fiscal, poderia ampliar a confiança na moeda, produzir alguma apreciação cambial e abrir espaço para cortes de juros mais agressivos. O Itaú, por sua vez, aponta anúncios fiscais críveis como o principal fator capaz de antecipar a queda da Selic. Até aqui, o governo ainda não deu sinais claros nessa direção, para além das generalidades bem-intencionadas proferidas por Lula ontem. E, quanto mais o ajuste demorar, maior tende a ser o esforço necessário e menor a chance de que as dificuldades de 2027 se convertam em crescimento na segunda metade do mandato. Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/11/2026, sexta-feira.