Impeachment de Peña e crise do Ueno Bank testam confiança financeira no Paraguai e acendem alerta em países vizinhos

Por Times Brasil — Mundo · Categoria: Internacional ·

A destituição de Santiago Peña nesta sexta-feira (6) encerrou uma das semanas mais turbulentas da história recente do Paraguai. Peña perdeu o cargo depois que o Senado aprovou seu impeachment por 44 votos a zero. Horas depois, a Promotoria ordenou a prisão do político no âmbito da investigação sobre

A destituição de Santiago Peña nesta sexta-feira (6) encerrou uma das semanas mais turbulentas da história recente do Paraguai. Peña perdeu o cargo depois que o Senado aprovou seu impeachment por 44 votos a zero. Horas depois, a Promotoria ordenou a prisão do político no âmbito da investigação sobre o Ueno Bank. O ex-presidente acabou colocado em prisão domiciliar enquanto as apurações por suspeita de lesão de confiança e outros crimes avançam. Ele nega irregularidades. A velocidade dos acontecimentos aumentou a percepção de risco justamente em um momento em que o Paraguai vinha se consolidando como uma das economias mais estáveis da região. Nos últimos dias, o guarani chegou a perder quase 5% frente ao dólar, enquanto os preços dos títulos paraguaios recuaram em meio à crise do Ueno e ao avanço do processo político contra Peña. Apesar de ainda não representar uma ruptura dos fundamentos econômicos do país, o caso mostra como uma crise bancária pode rapidamente se transformar em problema de confiança quando atinge simultaneamente o sistema financeiro, o Banco Central e o comando político. Antes da crise, a própria autarquia do país projetava crescimento de 5% para a economia em 2026, com inflação de cerca de 3%. O Paraguai também acumulava mais de US$ 11 bilhões em reservas internacionais e mantinha indicadores bancários considerados sólidos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) havia destacado, poucos meses antes, que o Paraguai apresentava crescimento robusto, dívida pública sustentável e uma das menores diferenças de juros sobre títulos soberanos da região. O país conquistou grau de investimento da Moody’s em 2024 e da S&P em 2025, uma marca importante para atrair fundos internacionais que só podem aplicar em países considerados de baixo risco de crédito. Para os investidores, o caso agora coloca em dúvida até que ponto uma crise que começou com a quebra de um banco pode afetar a confiança conquistada nos últimos anos. O problema vai além do Ueno O Ueno Bank entrou em processo de resolução depois que o Banco Central identificou que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido. A instituição havia crescido rapidamente e chegado a cerca de 3 milhões de clientes. Em setembro, concentrava 8% dos empréstimos e 9% dos depósitos de todo o sistema bancário paraguaio. Peña havia sido sócio do Grupo Vázquez, antigo controlador do banco, até março de 2025. Carlos Carvallo, então presidente do Banco Central, também havia comandado o Ueno antes de assumir o regulador. Carvallo deixou o cargo nesta semana, o que aumentou os questionamentos sobre a supervisão do sistema financeiro. Além disso, o Ueno administrava aproximadamente US$ 850 milhões pertencentes a entidades do Estado, incluindo fundos previdenciários, um dos elementos que ampliaram a repercussão política do caso. Apesar disso, até o momento não há indicação de uma crise bancária generalizada. A Moody’s avalia que os riscos para o restante do sistema financeiro permanecem contidos caso a resolução do Ueno seja rápida e ordenada. O Fundo de Garantia de Depósitos (similar ao FGC do Brasil) tinha cerca de US$ 1,6 bilhão em liquidez, aproximadamente duas vezes o volume de depósitos segurados do banco, e cerca de 97% dos depositantes devem ter cobertura integral. O Banco Central, inclusive, já começou a devolver recursos aos clientes. O que muda para investidores Para investidores internacionais, episódios como o do Paraguai costumam ser acompanhados por três indicadores: moeda, títulos públicos e capacidade das instituições de preservar a estabilidade econômica durante uma troca abrupta de governo. O primeiro impacto já apareceu no câmbio e nos títulos. A partir de agora, o foco tende a se deslocar para a atuação de Pedro Alliana, que assumiu a Presidência imediatamente após a destituição de Peña. A transição rápida reduz o risco de um vazio institucional, mas não encerra as investigações nem os questionamentos sobre o sistema bancário. Também estará no radar a reação das agências de classificação de risco. O grau de investimento foi conquistado depois de anos de disciplina fiscal, crescimento econômico e fortalecimento institucional. Uma mudança de nota não é automática diante de uma crise política, mas uma deterioração prolongada da governança, das contas públicas ou da confiança no sistema financeiro poderia alterar a avaliação de risco do país. Até agora, os números macroeconômicos oferecem uma proteção importante. O FMI projeta dívida pública próxima de 37% do PIB em 2026 e considera adequadas as reservas internacionais do Paraguai. O sistema bancário também entrou na crise com capital regulatório próximo de 17% dos ativos ponderados pelo risco. E a América Latina? Por enquanto, não existem sinais de que o colapso do Ueno esteja provocando contágio bancário para outros países da América Latina. Segundo a Moody’s, exposição direta de instituições financeiras estrangeiras ao banco é limitada, o que reduz o risco de perdas se espalharem pelo sistema regional. Mas o efeito mais relevante para a região é o risco político e institucional. O Paraguai vinha se diferenciando de parte da América Latina justamente pela estabilidade macroeconômica, pelo avanço do grau de investimento e pela capacidade de atrair capital externo. Uma crise que combina quebra bancária, questionamentos sobre o regulador, impeachment presidencial e investigação criminal mostra aos investidores que mesmo economias com fundamentos sólidos podem sofrer reprecificação rápida quando surgem dúvidas sobre governança. O Brasil acompanha o episódio de perto. Além da proximidade econômica e comercial, bancos e empresas brasileiras têm presença relevante no Paraguai, e investidores estrangeiros frequentemente analisam os mercados latino-americanos dentro de uma mesma carteira de países emergentes. O tamanho do impacto dependerá agora da capacidade do novo governo, do Banco Central e das autoridades paraguaias de mostrar que o caso Ueno é um episódio isolado, devolver os recursos aos depositantes e preservar as regras que sustentaram a melhora da percepção de risco do país nos últimos anos. O post Impeachment de Peña e crise do Ueno Bank testam confiança financeira no Paraguai e acendem alerta em países vizinhos apareceu primeiro em Times Brasil | CNBC .