Não basta defender juros menores; é preciso criar as condições para que sua queda seja sustentável
Todos concordam que os juros brasileiros são excessivamente altos. Os danos da elevada taxa são bem conhecidos. Há décadas, o Brasil convive com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, descontada a inflação . O problema é saber como resolver essa questão. Na decisão desta semana, o Banco Cent
Todos concordam que os juros brasileiros são excessivamente altos. Os danos da elevada taxa são bem conhecidos. Há décadas, o Brasil convive com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, descontada a inflação . O problema é saber como resolver essa questão. Na decisão desta semana, o Banco Central interrompeu a trajetória de queda da Selic , mantendo-a em 13,75% ao ano. A justificativa está nas perspectivas de inflação: mesmo para o segundo trimestre de 2028, a projeção do próprio BC subiu para 3,5%, acima da meta de 3%. Recentes declarações de André Lara Resende , um dos formuladores do Plano Real , provocaram uma intensa controvérsia pública. O debate reúne economistas de diferentes escolas de pensamento, todos com sólida formação acadêmica e reconhecida trajetória profissional. A discussão lembra, em certa medida, as disputationes medievais, nas quais estudiosos confrontavam argumentos e objeções em busca de respostas para questões complexas. Com uma diferença importante: na tradição escolástica, o objetivo era esclarecer a questão; no debate atual, a troca de críticas por vezes parece obscurecê-la. Mas o que está sendo discutido? Lara Resende sustenta que os juros elevados são uma das principais causas do desequilíbrio fiscal brasileiro, pois aumentam continuamente o custo da dívida pública . Por isso, propõe que o BC estabeleça uma trajetória deliberada de redução da Selic, inicialmente para cerca de 7,5% ao ano, em doze meses, dentro de um novo regime de coordenação entre as políticas fiscal e monetária. Seus críticos argumentam que essa redução não pode ignorar a inflação, o risco fiscal e o comportamento do câmbio . Caso contrário, a tentativa de aliviar a economia pode acabar provocando mais inflação e exigindo juros novamente elevados. Há ainda uma terceira perspectiva: reconhecer que os juros brasileiros têm causas estruturais que precisam ser enfrentadas, sem imaginar que possam ser eliminadas por uma simples decisão do Banco Central. Afinal, os juros elevados não surgem por acaso: refletem, entre outros fatores, escolhas de política econômica feitas ao longo dos anos. Mas juros baixos também não podem resultar de um simples ato de vontade. O que o cidadão pode extrair dessa discussão? Que não basta defender juros menores. É preciso criar as condições para que sua redução seja sustentável. Isso exige decisões políticas concretas, especialmente uma política fiscal que concilie responsabilidade com a preservação das conquistas sociais e a capacidade de investimento do País. Não se trata de escolher entre equilíbrio das contas públicas e desenvolvimento, mas de reconhecer que um depende do outro. O Brasil não precisa apenas de explicações sobre por que os juros são tão altos. Precisa de decisões que permitam baixá-los.