Terremoto político no Paraguai
Majoritário tanto na Câmara quanto no Senado do Paraguai, o Partido Colorado voltou-se contra um dos seus: o agora ex-presidente do Paraguai Santiago Peña, convertido em ativo altamente tóxico após o colapso do Ueno Bank. A fintech cresceu vertiginosamente durante o governo de Peña, que até o ano pa
Majoritário tanto na Câmara quanto no Senado do Paraguai, o Partido Colorado voltou-se contra um dos seus: o agora ex-presidente do Paraguai Santiago Peña, convertido em ativo altamente tóxico após o colapso do Ueno Bank. A fintech cresceu vertiginosamente durante o governo de Peña, que até o ano passado era sócio do grupo controlador do banco. Acuado por protestos de paraguaios desesperados, que da noite para o dia acordaram com suas contas bancárias congeladas e sem poder sacar recursos de suas aposentadorias – cerca de 3 milhões de pessoas, ou 60% da população adulta do Paraguai, eram correntistas do Ueno –, Peña apresentou sua renúncia, tentando, assim, escapar de um processo de impeachment que lhe cassaria o cargo de senador vitalício. Dominante há décadas na cena política paraguaia, o Partido Colorado ativou o botão de contenção de danos, mirando a autopreservação. O ex-presidente e padrinho político de Peña, Horacio Cartes, que já vinha se distanciando do pupilo, largou de vez a mão dele. Na Câmara, os colorados e a oposição rejeitaram por unanimidade a renúncia de Peña e instauraram um processo de impeachment contra o presidente. O Senado, também por unanimidade, destituiu Peña, que não compareceu ao julgamento. A decisão ensejou sua prisão horas depois. O vice, Pedro Alliana, assumiu a presidência do país. Peña tem grande parcela de culpa pelo que lhe aconteceu. Além de ter sido sócio do grupo controlador do Ueno, ele indicou o ex-presidente do Ueno Carlos Carvallo para presidir o Banco Central do Paraguai (BCP). A instituição teria sido leniente com as irregularidades do Ueno, que já apresentava sinais de insolvência. Por envolver um banco e autoridades de primeiro escalão, o caso do Ueno tem sido comparado ao escândalo do Banco Master no Brasil. A comparação é compreensível, embora haja diferenças substantivas entre os dois casos. Para começar, a participação do Ueno no sistema bancário paraguaio é muito maior do que era a do Master no Brasil. Por isso, diferentemente do que aconteceu no caso Master, a quebra do Ueno levou os paraguaios às ruas e provocou temores de uma corrida bancária. Também não convém confundir a celeridade com a qual a classe política paraguaia resolveu se livrar de seu presidente – cujos laços com o Ueno estão mais do que comprovados – com o fato de que, no Brasil, autoridades envolvidas até o pescoço com o Master continuam zanzando faceiramente por aí sem serem incomodadas. Peña caiu rapidamente não porque o Paraguai se tornou de uma hora para outra uma democracia exemplar com instituições fortes, e sim porque não havia interesse do Partido Colorado em salvar o presidente diante da fúria dos paraguaios. Ademais, as instituições paraguaias não agiram mesmo diante de evidências de que o banco Ueno estava servindo a interesses de gente poderosa em detrimento dos correntistas e de aposentados, que se viram sem dinheiro da noite para o dia – um drama que fere de morte a fantasia de que o Paraguai havia se tornado exemplo de solidez econômica na América Latina.